31 março, 2010

Reacomodação no Mapa Mundi: as rachaduras no bloco ocidental

Reacomodação no Mapa Mundi: as rachaduras no bloco ocidental

As ondas concêntricas formadas pela crise de epicentro nos EUA vão alcançando, com diferentes intensidades, cada região. Em alguns casos se trata apenas de marolas – como se gabara um ano atrás o presidente do Brasil – mas em outros essas ondas têm a potência de fortes maremotos, capazes de destruir velhas alianças e abrir o jogo a novos atores. A década que recém começa promete grandes mudanças, algumas das quais já se vislumbram.
O caso mais notório, no que todos os observadores concordam, é a vigorosa ascensão da China à única potência capaz de suplantar os EUA. Ao mesmo tempo, se sucedem outras mudanças menos visíveis, não tão contundentes, mas que representam ‘cargas de profundidade’ ao sistema de alianças no qual se assentou a hegemonia ocidental do último meio século, ou seja, desde que em 1945 terminou a segunda guerra mundial.
A Alemanha aprofunda seu distanciamento de Washington e se aproxima da Rússia; a Turquia faz o mesmo, e também se distancia de Israel e se aproxima da Síria e do Irã; o Japão entra em colisão com a política militar do Pentágono e estira a mão a China. Mais ainda: setores da União Européia pedem a entrada da Rússia na OTAN e o Brasil já tem um verdadeiro conflito com a Casa Branca. De acordo com todas as informações, é apenas o começo de um profundo rearranjo que não deixará nada em seu lugar. Um exemplo: o recente ataque especulativo dos hedge funds¹ ao euro provocou uma crescente desconfiança dos europeus com Wall Street, a ponto de Alemanha e França cogitarem criar o Fundo Monetário Europeu.

A Turquia acorda²

Durante a guerra fria, a Turquia foi a principal aliada do ocidente no Oriente Médio (junto de Israel), cuja missão delegada e acatada consistia em conter a União Soviética. A presença militar estadunidense na Turquia sempre foi um elemento considerado estratégico pelo Pentágono. Esse papel deu início a um lento degelo desde que em 1989 se derrubou a União Soviética e desapareceram as ameaças provenientes do leste que mantiveram o país amarrado a Washington. Nos últimos meses, tal processo se acelerou a ponto de constituir "a mais profunda revisão efetuada por Ankara desde sua entrada na OTAN em 1952".
O ataque israelense à Faixa de Gaza em dezembro de 2008 foi, segundo o GEAB, o acontecimento que acelerou a mudança de orientação turca. Depois, veio a decisão de revogar a autorização à aviação israelense para realizar treinamentos no espaço aéreo turco. Em outubro de 2009, Ankara rechaçou a participação de Israel em manobras da OTAN e anunciou a realização de manobras conjuntas com a Síria.
Se o anterior significa uma mudança na contramão do que os EUA esperam de um aliado, as coisas foram mais longe ainda quando o primeiro ministro turco, Recep Erdogan, se definiu publicamente como amigo do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, selando a negativa em acompanhar as sanções ao Irã por conta de seu programa nuclear. As crescentes dificuldades para a entrada da Turquia na UE são outro ponto de fricção com os países ocidentais. As condições da UE para aceitar a adesão foram mal recebidas no país, tanto pelo governo como por uma opinião pública sensível a qualquer intromissão forasteira, já que vai se abrindo espaço para a percepção de que são rejeitados pelos europeus.
O último conflito se desatou no começo de março, quando a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes aprovou uma declaração que qualifica de "genocídio" os massacres de armênios durante o Império Otomano. A resolução irritou o governo turco porque, em sua opinião, demonstra que o governo estadunidense "não insistiu suficientemente" em seus esforços para impedir tal distinção. O ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, agregou que seu governo estava "extremamente afetado" (AFP, 5/3). Os armênios pressionam nos EUA para que sejam reconhecidos como "genocídio" os massacres e deportações nos quais mais de 1,5 milhão de armênios que perderam a vida entre 1915 e 1917. Por sua vez, a Turquia reconhece a morte de 300 000 a 500 000 pessoas, mas alega que não foram vítimas de uma campanha de extermínio, mas do caos dos últimos anos do Império Otomano. A polêmica está à mesa e a Casa Branca não poderá conformar ambos os lados, entretanto, Hillary Clinton assegurou que "trabalharemos muito duro" para evitar que o projeto chegue ao plenário da Câmara dos Representantes.
Essa virada da Turquia para fora do campo ocidental acontece enquanto governa um partido religioso, o AKP, e se debilita o poder dos militares, que sempre foram o setor mais pró-ocidental do país. Em fevereiro, foram detidos 67 militares do alto escalão, dos quais 31 foram enviados à prisão provisória, acusados de terem tramado um golpe de Estado em 2003, um ano depois de eleito o atual governo turco.

Alemanha e Japão

Em fins de fevereiro, o ministro alemão de relações exteriores, Guido Westervwelle, pediu aos EUA que retirem as armas nucleares que mantém neste país (Der Spiegel, 25/02). O ministro alemão seguiu os passos de Noruega, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, que enviaram uma carta ao secretario geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, para que a próxima conferência do organismo discuta a desnuclearização da Europa.
A Alemanha abriga 20 dos 200 mísseis nucleares que o Pentágono possui estacionados na Europa. Ainda que Westerwelle venha solicitando há alguns meses uma medida de tal tipo, alguns analistas estimam que ele trata de utilizar o tema para sintonizar-se com uma opinião pública que há anos rejeita as armas nucleares e exige veementemente sua retirada. Seja como for, há dois fatos incontrastáveis: a Alemanha consolida sua autonomia dos EUA, algo que vem acontecendo desde que o chanceler Willy Brandt lançou no início da década de 70 a Ostpolitk para afirmar relações pacíficas com a União Soviética. Tal autonomia foi mais visível quando Alemanha, França e Rússia se negaram a acompanhar, no Conselho de Segurança da ONU, os EUA em sua escalada para invadir o Iraque em 2003. O segundo é a dura reação de Washington. Mais uma vez correspondeu à senhora Clinton chamar as coisas pelo nome: "Este mundo perigoso ainda precisa de dissuasão", disse, e pediu que "não haja nenhuma medida precipitada que a enterre".
Um passo mais estão dando Alemanha e França (ambos com governos conservadores) ao propor à Comissão Européia a criação do Fundo Monetário Europeu, como reação ao feroz ataque especulativo de Wall Street sobre a Grécia e a Espanha (Le Monde, 8/3). Foi o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble que vinculou o tema à estabilidade do euro, esclarecendo de modo muito significativo que "a zona do euro é capaz de solucionar seus problemas por conta própria", rechaçando a intervenção do FMI.
O contencioso entre EUA e Japão é mais recente, mas pode afetar toda a arquitetura da superpotência no Pacífico. Em 31 de agosto passado, o Partido Democrata bateu o Partido Liberal pela primeira vez em 55 anos. Washington perdeu um aliado, algo que foi visível quando o novo primeiro ministro, Yukio Hatoyama, encarou de forma diferente o velho litígio sobre as bases estadunidenses em Okinawa.
Até esse momento, vinha se negociando um acordo pelo qual se pudessem transferir parte das tropas da Ilha de Okinawa a Guam, e realocar a base em outra região da mesma ilha. Mesmo assim, o governo de Hatoyama pede, sem rodeios, que todas as tropas se retirem. A disputa foi esquentando quando vieram à luz, nesta última semana, informações que revelam que o Partido Liberal e os EUA tinham pactos secretos que violavam leis japonesas e enganaram a opinião pública.
Com efeito, a Constituição nipônica estabelece – como conseqüência das tragédias de Hiroshima e Nagasaki – os princípios de não possuir, não produzir e não permitir armas nucleares. Uma comissão especial do Ministério das Relações Exteriores acaba de difundir que houve acordos para que, por exemplo, os barcos estadunidenses com armamento nuclear pudessem entrar nos portos japoneses, já que nos anos 60 e 70 o governo manteve um programa nuclear secreto com os EUA, que permitia a estes transportar armamento atômico pelo território nacional sem necessidade de consulta prévia.

Brasil aumenta a crise

A profundidade da crise em curso debilita o papel dos EUA no mundo, a tal ponto que toda a rede de alianças tecida desde 1945 está fazendo barulho. Os ruídos se escutam nos rincões mais inesperados do planeta, e ainda que não tenham a envergadura dos três casos detalhados acima, merecem um acompanhamento para confirmar o crescimento da tensão nas relações internacionais. Quatro fatos recentes confirmam que vivemos em um mundo mais instável.
A recente visita do vice-presidente Joe Biden a Israel mostra um distanciamento sem precedentes entre ambos aliados. Biden viajou para conversar com Benjamin Netanyahu e convencê-lo a instalar uma mesa de negociações com os palestinos, já que Barack Obama considera a resolução do conflito no Oriente Médio a peça chave de seu objetivo de melhorar as relações com o mundo árabe. Mas Biden foi recebido com a notícia da construção de 1600 novas casas em Jerusalém leste. Em contrapartida, Lula conseguiu impactar em sua recente visita a Israel, quando não apenas se manteve firme em sua condenação a qualquer ataque ao Irã como se mostrou possível "ponte" no conflito, como assinala Pepe Escobar (Asia Times, 18/03).
Em que pese Biden e Netanyahu serem amigos há duas décadas, a Casa Branca considerou a notícia uma ofensa, a ponto de Obama tomá-la como insulto pessoal. A pequena vingança de Biden foi chegar uma hora e meia atrasado ao jantar com o primeiro ministro israelense. É improvável que as coisas vão mais longe, em vista da potência do lobby judeu nos EUA, mas no Congresso não são poucos os que acreditam que chegou a hora de reiniciar um "processo de punição" contra Israel (El País, 12/03).  
Em 8 de março quatro importantes personalidades alemãs publicaram uma carta aberta em vários veículos exigindo a entrada da Rússia na OTAN. Trata-se de Rühe Volker, ministro da Defesa de 1992 a 1998, o general aposentado Klaus Naumann, ex-presidente do Comitê Militar da OTAN, o embaixador Frank Elbe, diretor de Planejamento na chancelaria, e o vice-almirante e ex-diretor de Planejamento da Defesa, Ulrich Weisser. Estimam que a OTAN precisa da Rússia para resolver os problemas no Afeganistão e no Oriente Médio e também para garantir segurança energética (Der Spiegel, 8/3). Este posicionamento coletivo reforça a percepção da direção que estão tomando os interesses alemães e, por tabela, franceses.
Já as relações entre a China e os EUA não deixam de se deteriorar, por motivos militares, econômicos e políticos. Depois do questionado encontro entre Obama e o Dalai Lama, Washington anunciou a venda de um pacote de armas a Taiwan, avaliado em 6,4 bilhões de dólares, enquanto Pequim anunciava represálias às empresas envolvidas. Em todo caso, o mais significativo é uma reviravolta na política chinesa de compra de títulos do Tesouro estadunidense, que se traduz na venda de 45 bilhões de dólares de tais títulos nos últimos cinco meses.
O Diário do Povo, órgão do Partido Comunista, foi muito claro em sua edição de 24 de fevereiro. "A vultosa dívida e o déficit orçamentário do governo estadunidense só podem ser controlados com a emissão de dólares, o que levaria a desvalorização dos ativos denominados nessa moeda". Até fins de 2009, a China era o maior do dono de títulos norte-americanos, lugar agora ocupado pelo Japão. O periódico estima que com uma dívida de 90% do PIB e um déficit fiscal próximo dos 11% do PIB, os investidores estão "seqüestrados" pelo dólar. Para romper essa situação, "a China deve acelerar o caminho rumo à internacionalização da moeda chinesa, reduzir sua demanda de dólares e o coeficiente de dólares em seus superávits de pagamentos, para aliviar assim a crescente pressão econômica derivada da influência que exerce o desequilíbrio externo do país".
Por último, as relações entre a Casa Branca e o Brasil vêm se deteriorando mês a mês, como atesta a recente visita da senhora Clinton ao presidente Lula. Os pontos em disputa são muito variados e alguns estiveram em cartaz nos últimos meses: as sanções ao Irã, a reconstrução do Haiti, a democracia em Honduras, as bases na Colômbia e a disputa comercial. Lula foi muito claro e disse que impor sanções ao Irã pode ser prejudicial ao diálogo com o país e ainda defendeu o direito de qualquer país de enriquecer urânio a 20% como autoriza o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
Em todo caso, foi um dos assuntos mais espinhosos na agenda. O outro é a decisão do Brasil de aplicar sanções comerciais aos EUA em 560 milhões de dólares, por subsídios a seus produtores de algodão. O chanceler Celso Amorim disse que o Brasil prefere não entrar na via do contencioso legal, mas o país "não vai se curvar" ante nações mais fortes. A mensagem, no entanto, vai muito mais além: os EUA não estão em condições de impor sua vontade na região, que alguma vez foi seu quintal.

¹ Os conceitos chave para entender os "hedge funds" são, portanto, "agressividade", "risco elevado" e, principalmente, "alavancagem": a prática de tomar recursos no sistema bancário para aumentar (alavancar) a aposta numa operação financeira, buscando maximizar os ganhos.
² "El despertar de Turquía: la progresiva salida del campo occidental", GEAB No. 39, del Laboratorio europeo de Anticipación Política, 17 de noviembre d 2009.

Fonte: Correio da Cidadania - 31/03/10
Autor: Raúl Zibechi, jornalista uruguaio, é professor e pesquisador da Multiversidad Franciscana de América Latina, e assessor de vários movimentos sociais. 

28 março, 2010

Degelo não afetou circulação do Atlântico

Degelo não afetou circulação do Atlântico

Estudo afirma que corrente do Golfo não enfraqueceu nas últimas duas décadas, apesar do derretimento visto no Ártico.
Redução de corrente que leva calor à Europa é um dos impactos mais temidos da mudança do clima e inspirou filme-catástrofe em 2004.

No filme-catástrofe "O Dia Depois de Amanhã", de 2004, o aquecimento global provoca o desligamento da corrente oceânica que leva calor à Europa e causa uma era glacial. Nos últimos anos, alguns estudos sugeriram que esse cenário já poderia estar acontecendo. Mas um pesquisador americano afirma que o temor não tem fundamento: a chamada corrente do Golfo continua firme e forte.
Talvez até mesmo ligeiramente mais forte, afirma Josh Willis, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. Como o oceano Atlântico está mais quente, pelo menos nas últimas duas décadas o volume de água transportado aumentou.
A chamada circulação termo-halina do Atlântico, sistema do qual a corrente do Golfo faz parte, ajuda a distribuir o calor do planeta, funcionando como um colossal radiador.
A água quente, menos densa, viaja pela superfície do mar. Ao chegar ao Ártico, ela resfria e fica mais salgada. Como a água salgada é mais densa, a corrente afunda e muda de sentido, retornando ao Equador como uma corrente fria submarina.
Desde a década passada, alguns estudos sugerem que o degelo maciço do Ártico poderia lançar tanta água doce no oceano que acabaria com a diferença de salinidade, fazendo com que a corrente parasse de afundar. O cinturão de convecção seria desligado, resfriando a Europa em até 5°C.
Há evidências fortes de que isso tenha acontecido há 12 mil anos, quando o fim da última glaciação despejou água das geleiras que cobriam a América do Norte e a Europa no mar.
Em 2005, uma série de medições feitas pelo grupo do oceanógrafo britânico Harry Bryden, da Universidade de Southampton, sugeriu que já havia um enfraquecimento de 30% na corrente.
O estudo, publicado no periódico "Nature", causou pânico. Mas o mesmo grupo, dois anos depois, publicou na mesma revista um outro trabalho mostrando que o enfraquecimento se devia à variabilidade natural da circulação.
Em seu relatório de 2007, o IPCC (o painel do clima da ONU) afirmou que grandes mudanças na circulação oceânica "não podem ser avaliadas" devido a incertezas.
No novo estudo, publicado ontem no periódico "Geophysical Research Letters", Willis desenvolveu um método para tentar reduzir essa incerteza.
Ele combinou medições de satélites com dados dos flutuadores robóticos Argos, um conjunto de boias automatizadas que mergulham até 2.000 m e sobem depois, medindo temperatura e salinidade ao longo da coluna d'água.
É a primeira vez que alguém usa essas duas fontes de dados para avaliar a convecção no Atlântico Norte. (As medições de Bryden foram feitas em navios.) É também a série de medições mais longa dessa circulação, indo de 1993 a 2009.
Willis descobriu que o volume de água que afunda no Atlântico Norte é de cerca de 15 sverdrups, com incerteza de 2,4 sverdrups para mais ou para menos. Um sverdrup equivale a 1 milhão de metros cúbicos por segundo, volume d'água despejado no oceano por todos os rios da Terra juntos. Esse volume varia de ano a ano, mas não existe nenhuma tendência significativa de enfraquecimento ou fortalecimento da circulação entre 2002 e 2009.
Olhando só os dados de satélite, porém, o estudo indica um fortalecimento de 2,6 sverdrups na circulação desde 1993. É um número desprezível, dada a margem de erro, mas consistente com o aquecimento do Atlântico nesse período (que aumenta o volume de água quente transportada).
A conclusão de Willis é: pelo menos por enquanto, não criemos pânico. O volume de gelo que derrete no Ártico ainda é insuficiente para afetar a circulação termo-halina. "Ninguém está prevendo outra era do gelo como resultado de mudanças na circulação do Atlântico", diz o cientista.

Fonte: Folha de São Paulo - 27/03/10

26 março, 2010

Governo "fatia" Amazônia para guiar ações

Governo "fatia" Amazônia para guiar ações

Macrozoneamento define 10 áreas principais e limita novos assentamentos rurais no coração da floresta

A Amazônia Legal será dividida em dez áreas e cada uma delas terá uma estratégia própria de preservação e de desenvolvimento econômico.
O fatiamento faz parte do chamado "macrozoneamento" da região, apresentado ontem pelo Ministério do Meio Ambiente e que, em dias, deve ser transformado em decreto pelo presidente Lula.
Na prática, esse documento passa a ser uma diretriz para qualquer tipo de ação territorial, econômica (pública e privada) e ambiental nos Estados do Norte, em Mato Grosso e parte do Maranhão.
O decreto presidencial não criará novas regras. Por isso, para funcionar de fato, terá de contar com a colaboração de Estados e municípios.
"Esse olhar conjunto da Amazônia é uma estratégia para que a região possa ser mais preservada, se desenvolva e esse zoneamento não fique no papel", disse ontem o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente).
A definição das dez áreas ocorreu após anos de conversas. Cada área tem a sua característica e sua estratégia.
Por exemplo: a primeira, chamada de "coração florestal", pega quase a totalidade de Acre e Amazonas e trechos de Pará, Amapá e Roraima. O objetivo é deixá-la quase intocável, já que abriga a maior porção de florestas intocadas da região. Nessa região, novos assentamentos rurais serão limitados.
Outra área, que pega o sul do Amazonas e o centro-sul paraense, chamada de "contenção de frentes de expansão", servirá como uma espécie de cinturão verde para proteger o avanço da soja e da pecuária. Para isso, será priorizada a criação de unidades de conservação.
No norte de Mato Grosso estará a área "diversificação da fronteira agroflorestal e pecuária". A ideia é focar ali na implantação de uma indústria sustentável da madeira e incentivos à expansão da agricultura em pastagens degradadas.

Lista suja

Ontem, oficialmente, Paragominas (PA) deixou a chamada lista suja dos campeões do desmatamento na Amazônia. Agora 42 municípios permanecem na lista, criada por um decreto presidencial de 2007.
Quem aparece na lista fica sujeito à restrição de créditos oficiais e somente deixa o cadastro após cumprir alguns critérios: como cadastrar 80% de suas propriedades rurais e diminuir o desmatamento em relação aos anos anteriores.

Fonte: Folha de São Paulo - 25/03/10

Perda de florestas cai 19% em uma década

Perda de florestas cai 19% em uma década

Queda no desmatamento na Indonésia e no Brasil e reflorestamento na China explicam resultado, indica relatório da ONU.
Segundo coordenadora, é a primeira vez que índice tem queda em mais de 60 anos; América do Sul e África ainda lideram devastação.

Uma boa notícia, para variar: a perda de florestas no mundo caiu 19% nesta década em relação aos anos 1990, graças a reduções expressivas no desmatamento no Brasil e na Indonésia e a esforços maciços de reflorestamento na China. Os dados são da FAO, órgão da ONU para alimentação e agricultura.
É a primeira vez que se registra uma queda na perda de cobertura vegetal desde 1946, quando a FAO começou a produzir a Avaliação Global de Recursos Florestais, publicado a cada cinco anos.
"No último relatório, de 2005, nós não conseguimos ver nenhuma diferença em relação ao anterior. Então, é uma boa notícia", disse à Folha a coordenadora do estudo, Mette Wilkie, sobre o novo dado.
No mundo inteiro, entre 2000 e 2010, 13 milhões de hectares de florestas foram perdidos, uma área pouco maior que a do Estado do Pará. Entre 1990 e 2000, o total perdido foi de 16 milhões de hectares, o equivalente a toda a região Centro-Oeste do Brasil.
As perdas anuais caíram de 8,3 milhões de hectares para 5,2 milhões. Ainda assim, diz a FAO, o número é "alarmante": o mundo perde o equivalente a uma Costa Rica por ano.
Tradicionalmente vilipendiados como maiores desmatadores e maiores emissores de gás carbônico por desmatamento do mundo, Brasil e Indonésia foram os principais responsáveis por puxar para baixo o índice de perda de cobertura florestal desta vez.
No Brasil, o desmate caiu de 2,9 milhões de hectares na década passada para 2,6 milhões nesta década. "Não parece muito por causa do período longo analisado, mas a queda que houve no desmatamento no Brasil de 2005 para cá foi substantiva", elogia Wilkie.
Segundo ela, a conjuntura econômica ajudou, com a baixa nos preços de commodities agrícolas, mas o esforço "do governo Lula" para reduzir o desmatamento foram importantes. Wilkie também mencionou como positiva a meta brasileira de reduzir o desmatamento amazônico em 80% até 2020.
O Brasil também foi o campeão de criação de áreas protegidas nesta década. "Metade do que foi criado no mundo inteiro foi no Brasil", afirma Tasso Azevedo, consultor do Ministério do Meio Ambiente.

Democracia verde

Na Indonésia, a queda proporcional no desmatamento foi ainda mais expressiva do que no Brasil: de 1,6 milhão de hectares perdidos nos anos 1990 para 500 mil nesta década.
O fator determinante da redução, aparentemente, foi a democratização do país em 1998, quando o ditador Mohamed Suharto foi deposto.
"Nos anos 1990, o desmatamento foi em parte causado por uma continuação da política de transmigração dos anos 1980, quando muitas pessoas de Java foram transferidas para regiões de floresta", diz Wilkie. Nesta década, o governo também parou de autorizar megadesmatamentos para plantações de dendê (que, no entanto, continuam avançando).
"A Indonésia não dá tanta publicidade quanto o Brasil a seus esforços de redução de emissões, mas os números falam por si", disse Wilkie.

Fonte: Folha de São Paulo - 26/03/10

24 março, 2010

ESTADOS UNIDOS-CHINA: Guerra comercial quase aberta

ESTADOS UNIDOS-CHINA: Guerra comercial quase aberta

As relações entre os Estados Unidos e a China estão longe de serem cordiais desde o começo deste ano, e as previsões não indicam melhora.

Um projeto de lei apresentado no Senado norte-americano aponta nessa direção, pois ataca práticas comerciais chinesas e inclui artigos que obrigariam o governo de Barack Obama a acusar o gigante asiático de manipulação indevida de sua moeda, abrindo espaço para represálias às importações desse país.
Os senadores que apresentaram o projeto insistem nas práticas comerciais injustas da China, mas também se referem às condições econômicas nacionais que criam incentivos para que os Estados Unidos assumam políticas mais protecionistas. Há tempos Washington se queixa que Pequim mantém deliberadamente baixo o valor de sua moeda frente ao dólar, o que dá grande competitividade aos seus produtos que entram no mercado norte-americano.
“É uma mensagem ao governo chinês: se negar-se a jogar pelas mesmas regras que todo o mundo, vamos obrigá-lo a isso. A manipulação da moeda será inaceitável”, disse o senador Charles E. Schumer, ao apresentar o projeto de lei no dia 16/03/10. “Com desemprego de 10%, simplesmente não podemos aceitar. Não há nenhuma medida melhor para adotarmos a fim de promover a criação de postos de trabalho, sobretudo na área da manufatura, do que combater a manipulação da moeda chinesa”, acrescentou. No dia 15, mais de cem integrantes do Congresso assinaram uma carta dirigida a Obama pedindo que acuse a China de distorcer o valor de sua moeda.
Duas vezes ao ano, o Departamento do Tesouro publica uma lista de países que “manipulam as taxas cambiais entre suas moedas e o dólar norte-americnao para alterar sua balança de pagamentos ou obter vantagem competitiva indevida no comércio internacional”. Mas a China nunca entrou nessa lista. Em uma coluna publicada no dia 14, no The New York Times, o economista Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia, disse que é hora de os Estados Unidos enfrentarem o problema da subvalorização da moeda chinesa, impondo tarifas alfandegárias de 25% às importações procedentes desse país.
Algumas estimativas indicam que o yuan tem desvalorização entre 20% e 40%. As cobranças de ações contra o yuan não são ignoradas por Pequim. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, dedicou duras palavras a Washington em uma entrevista coletiva no dia 14. Nessa ocasião, quando atribuiu o mau momento das relações bilaterais ao fato de o governo de Obama “violar a soberania territorial chinesa” com seus acordos de venda de armas para Taiwan e pela reunião com o Dalai Lama, líder espiritual da conflitiva região do Tibete.
“Em primeiro lugar, não creio que o renminbi (nome oficial da moeda chinesa) esteja desvalorizado”, disse Wen. “Somos contra os países se acusarem entre si ou tomarem medidas para obrigar outros a valorizar suas moedas. Isto não beneficiará a reforma do regime cambiário do renminbi”, acrescentou. O governador do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, afirmara, no início deste mês, que o valor do yuan atrelado ao dólar era uma medida “especial” que não seria mantida indefinidamente.
“Quando mais alto e forte falarem as autoridades dos Estados Unidos sobre isto, e mais reclamarem da China para que valorize sua moeda, menos possibilidades haverá para que essa medida seja tomada no curto prazo”, disse a especialista em estudos chineses Bonnie Glaser, do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, com sede em Washington. O governo chinês é muito reticente a agir sob pressão externa. “Mesmo reconhecendo que deveria ajustar o valor da moeda, a oportunidade dessa medida será decidida em função de seus interesses”, acrescentou.
No dia 16, um porta-voz do Ministério do Comércio da China disse à imprensa que “esperamos que as empresas norte-americanas presentes neste país expressem suas reclamações e pontos de vista nos Estados Unidos, para promover o desenvolvimento do intercâmbio internacional e juntos nos opormos ao protecionismo”. Em 2005, o valor do yuan foi ajustado de US$ 8,27 para US$ 8,11 e foi implantado o câmbio fixo. Agora, a moeda chinesa se move em relação aos valores de uma cesta de divisas dominada pelo dólar, euro, iene e o won sul-coreano.
Entre aquele ano e 2008, a moeda chinesa foi desvalorizada em 20%. Entretanto, os que continuam questionando a política cambial chinesa, como os senadores Schumer e Lindwsey Graham, que conduziram a apresentação do projeto de lei, sentem-se frustrados pela demora de um ajuste semelhante. “Se lermos nas entrelinhas do que disse Jiabao, nada está descartado. Mas a retórica dura e a carta dos legisladores tornam muito difícil os chineses dizerem: de acordo, diante da pressão norte-americana, faremos o ajuste”, disse Glaser. A questão cambial não é a única que amarga os vínculos entre Pequim e Washington.
Em setembro, Obama autorizou uma tarifa alfandegária excepcional de 35% para as importações de pneus chineses, para deter um grande aumento nas compras desse produto que, segundo os sindicatos, causou a perda de sete mil empregos na indústria. Pequim imediatamente condenou a decisão e ameaçou tomar medidas semelhantes. Em janeiro, a norte-americana Google anunciou que contas de e-mail de diplomatas, ativistas pelos direitos humanos e jornalistas foram invadidas por hackers chineses.
A secretária de Estado Hillary Clinton se referiu ao tema, na época, e expôs a posição de Washington sobre o roubo de propriedade intelectual, segurança na Internet e a censura que a China exerce sobre a rede mundial de computadores. Pequim respondeu acusando os Estados Unidos de exercerem um “imperialismo informativo” e rechaçando as acusações de suposta participação do governo em ataques de hackers.
No mês passado, a China ameaçou com sanções as empresas norte-americanas que tomassem parte de um iminente acordo de venda de armas para Taiwan, que, para Pequim, é uma província renegada, no valor de US$ 6,4 bilhões. Desde que a crise econômica de 2008 começou a ser sentida nos dois países, Pequim busca conseguir que mais recursos de sua favorável balança de pagamentos não sejam investidos em divisas norte-americanas, mas em ações e produtos básicos. Enquanto isso, cobra-se de Obama que enfrente o crescente déficit comercial com a China e exerça maior pressão para conseguir uma reavaliação substancial da moeda asiática.

Fonte: mwglobal.org/ipsbrasil.net
Autor: Eli Clifton

POPULAÇÃO: ONU cobra inclusão social urbana

POPULAÇÃO: ONU cobra inclusão social urbana

De um lado os bairros ricos, do outro as grandes favelas. É uma nefasta divisão que a Organização das Nações Unidas exortou a combater, na abertura, ontem, do Fórum Urbano Mundial.

O chamado para envolver os governos contra os níveis “muito altos ou inaceitáveis” de desigualdade foi feito pela diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), Anna Tibaijuka.
Na primeira das cinco jornadas da quinta edição deste encontro, que tem como tema “O direito à vida: unindo o urbano dividido”, Tibaijuka disse que os líderes mundiais devem investir na melhoria das condições de vida, para que todos tenham direito às “vantagens urbanas”. Referia-se ao “conjunto de oportunidades” que as cidades concentram. Desde serviços básicos como saneamento, saúde, educação, equipamentos públicos e emprego formal, que, segundo a funcionária, “nunca foram tão valiosos para o desenvolvimento humano”.
Tibaijuka destacou que estes desafios impõem “novas conexões e alianças” em ter todas as áreas de governo, da presidencial à municipal, para otimizar os recursos financeiros e operacionais existentes. Um informe da ONU-Habitat apresentado antes do Fórum, intitulado “Estado das cidades do mundo 2010/2011”, indica que 227 milhões de pessoas no mundo deixaram de viver em assentamentos precários entre 2000 e 2010. Mas, segundo alertou, ainda restam 827 milhões de pessoas nestas condições nas grandes cidades, 61% delas na África e 24% na América Latina. O estudo diz que há 55 milhões de novos habitantes de favelas que se somaram à população urbana mundial. Para a responsável da ONU-Habitat, esse tipo de conglomerado habitacional é “a forma mais cruel da divisão urbana”, temas que exortou a serem discutidos internacionalmente junto a outros como contaminação ambiental e crescimento descontrolado. O Fórum, que recebe 16 mil participantes de todo o mundo, discute uma agenda de seis temas: Levando adiante o direito à cidade, Unindo o urbano dividido, Acesso igualitário à moradia, Diversidade cultural nas cidades, Governabilidade e participação e Urbanização sustentável e inclusiva.
Em mensagem enviada ao encontro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ratificou o chamado aos governos. Disse que a comunidade internacional é responsável por investir nestas melhorias. O Presidente Luiz Inácio Lula da silva assegurou ter tomado medidas nesse sentido “como nunca antes na história” do País. Entre outras, detalhou programas de distribuição de renda, planos de moradia e saneamento básico para todos. Na abertura do Fórum, Lula disse que no século atual é responsabilidade dos governantes “projetar uma cidade com melhor qualidade de vida”.
“A segunda coisa mais importante é reparar os desmandos causados por muitos administradores do século XX, que permitiram que muitas cidades, no Brasil e no mundo, se transformassem em uma grande favela”, acrescentou Lula. O Presidente atribuiu a falta de obras de saneamento nos bairros pobres a uma questão eleitoral. Disse que dá mais votos inaugurar uma ponte. E acrescentou que a “pequenez” dessa gente é não ter percebido que a “imagem mais digna” que um governante pode deixar como administrador é a de “uma criança podendo brincar descalço na rua sem pisar em esgoto a céu aberto”.
O mencionado informe da ONU especifica que na última década o Brasil reduziu sua população de favelas em 16%, ou 10,4 milhões de pessoas. A ONU-Habitat toma como parâmetros para classificar esses assentamentos precários, acesso à água potável, saneamento básico, qualidade da moradia e densidade de habitantes por metro quadrado. A ONU atribuiu a redução das favelas no Brasil a políticas sócio-econômicas implementadas nos últimos anos. Também a redução das taxas de crescimento de população e do êxodo de camponeses para a cidade. O Presidente Lula confirmou esses dados, após convidar os participantes do fórum a visitar as favelas cariocas próximas, embora admitindo seus perigos de violência.
Criado em 2001 pela Assembleia Geral da ONU, o Fórum Urbano Mundial reúne delegados de governos, da sociedade civil e do setor privado. Mas os participantes do Fórum Social Urbano, que acontece na zona portuária do Rio de Janeiro, não se consideram representados pelo encontro oficial. Convocados por organizações sociais, de luta pela moradia, de camponeses, estudantes e sindicalistas, este encontro paralelo surgiu – como o Fórum Social Mundial, em contraponto ao Fórum Econômico de Davos – explicou à IPS Guilherme Matos, um de seus organizadores.
Este estudante de planejamento urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o fórum da ONU “tem pouco espaço para o debate popular”, por questões de organização e também conceituais. O Fórum Social Urbano, que começou com uma manifestação de aproximadamente mil pessoas, também contará com especialistas em temas de criminalização da pobreza e violência urbana, justiça ambiental na cidade, grandes projetos urbanos e megaeventos.
Fonte: mwglobal.org/ipsbrasil.net
Autora: Fabiana Frayssinet

23 março, 2010

O que fracassou em Copenhague?

O que fracassou em Copenhague?


Analistas e ativistas foram unânimes em afirmar o fracasso da 15ª Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP-15), realizada na capital da Dinamarca em dezembro de 2009. A COP-15 reuniu nada menos que 119 chefes de governo de 192 países, um feito inédito.
O evento foi acompanhado com grande expectativa pelos povos do mundo todo que já sofrem as trágicas conseqüências do aquecimento global – tsunamis na Ásia, furacões nos EUA, ondas de calor na Austrália, tempestades no Brasil, degelo das calotas polares no Ártico e na Antártida.
A conferência culminava dois anos de negociações no âmbito da ONU e visava elaborar um programa de cooperação internacional para combater as mudanças ambientais que ameaçam a vida na Terra. O seu objetivo central era garantir a fixação de metas para emissão de gases que provocam efeito estufa e evitar o aquecimento global acima de 2ºC até 2050 – após esse limite as conseqüências das mudanças climáticas seriam irreversíveis. Para que isso aconteça o mundo precisaria reduzir suas emissões em 80% nas próximas quatro décadas.

O que, de fato, fracassou em Copenhague?

A abordagem adotada para o problema das mudanças climáticas restringiu a questão aos seus efeitos, qual seja, o aquecimento da temperatura do planeta causado pelas emissões de dióxido de carbono. Além disso, circunscreveu as possibilidades de ação àquelas que significassem novos negócios para as grandes corporações transnacionais, expandindo o "capitalismo verde" movido a agrocombustíveis, alimentado por transgênicos resistentes a um clima mais adverso e pelas negociações de créditos de carbono em bolsa de valores.
Sem dúvida que as emissões destes gases representam um grave problema ambiental e de saúde. Hoje são 30% mais altas do que na época em que a Convenção sobre Mudança do Clima foi firmada, na Cúpula da Terra realizada no Rio de Janeiro, em 1992.
No ritmo atual de crescimento, estas emissões poderiam mais do que triplicar até o fim deste século, o que significa 50% de risco de que a temperatura global subisse 5°C. A esse nível, o aquecimento global impacta de forma catastrófica os biomas, comprometendo as formas de vida das populações que os habitam. No Brasil, espaço da maior biodiversidade da Terra e que abriga um quinto das espécies do planeta, a Amazônia teria 40% de sua cobertura florestal transformada em savana e o rio São Francisco teria sua vazão reduzida em 70%.
Ocorre que os países centrais do capitalismo, que emitem as maiores quantidades de dióxido de carbono – como EUA, Inglaterra, Alemanha e Japão – e as maiores economias da periferia, com suas indústrias poluidoras – China, Brasil, Rússia – pactuaram e garantiram que não se abordassem na conferência as causas das emissões. Ou seja, esses países preservaram o modelo de produção e consumo hoje hegemônico em seus territórios e na maioria do planeta onde imperam os seus próprios interesses. O resultado evidente será o sacrifício da natureza, a ampliação das desigualdades sociais e a inviabilidade futura da vida no planeta.
Mesmo diante do tão limitado enfoque adotado, o documento final da conferência registra o fracasso das negociações. O texto prevê apenas redução de 50% das emissões de dióxido de carbono em 2050 e não determina metas obrigatórias para redução até 2020. Antes do início da cúpula, os países estipulavam como objetivo mínimo definir em Copenhague metas de redução para os próximos dez anos. Nem isso se conseguiu e este fracasso ameaça a eficácia do já superado Protocolo de Kyoto, de 1997, cujas metas de redução para 2012 eram próximas de 6%.
Em relação aos outros pontos da agenda defendida pelos países que comandaram a cúpula, o documento também é vago. Não detalha o funcionamento do fundo a ser criado pelos países ricos para financiar os países mais afetados pelo aquecimento global, deixando brechas para que seja disputado também por grandes corporações interessadas em negócios vinculados aos agrocombustíveis e comércio de carbono. Obviamente, o texto nem menciona possibilidade de controle social sobre os recursos deste fundo, deixando aberta a possibilidade de corrupção.
O governo do Brasil seguiu a estratégia adotada desde Kyoto e manteve-se alinhado aos interesses dos países europeus e suas poderosas corporações transnacionais. Coube a Lula, com ampla cobertura da mídia internacional, o papel de reforçar a necessidade de EUA e China cumprirem a agenda de redução de emissões, ao mesmo tempo em que tentava fazer com que os países periféricos se comportassem dentro da agenda limitada que orientou a conferência. Esta postura foi contraponto às manifestações contundentes de alguns países africanos e latino-americanos – notadamente as intervenções do presidente da Bolívia, Evo Morales, que rechaçou não apenas a abordagem reducionista assumida na conferência sobre o problema climático, como também a forma pouco democrática com que a cúpula foi conduzida.
Copenhague, entretanto, também evidenciou sinais de esperança. As manifestações populares, fortemente reprimidas pela polícia local, chegaram a reunir 100 mil pessoas em marcha pela capital dinamarquesa e um fórum não-governamental – o Klima Fórum – promoveu dezenas de debates com cientistas, militantes e representantes de alguns governos da América Latina e África e propiciou alianças fundamentais em torno de programas de ação que ampliaram a agenda de luta anticapitalista com as necessárias preocupações ecológicas.
Entre os principais consensos do Klima Fórum, resumidos em documento intitulado "Mudemos o sistema, não o clima", consta abandonar completamente os combustíveis fósseis nos próximos 30 anos e reconhecer e compensar a dívida climática e os efeitos negativos das mudanças climáticas sobre as populações afetadas.
A eficácia no enfrentamento das mudanças climáticas dependerá da abordagem que for dominante nas ações dos países e das Nações Unidas até o próximo encontro de cúpula, que deve acontecer no final de 2010, na Cidade do México. A depender da agenda hoje hegemônica, não há esperança de avanços que signifiquem superar as causas efetivas dos problemas ambientais que ameaçam a vida na Terra.

Fonte: Correio da Cidadania
Autores: Thomaz Ferreira Jensen, Elisa Helena Rocha de Carvalho e José Juliano de Carvalho Filho 

Brasil e Estados Unidos: a visita de Hillary Clinton

Brasil e Estados Unidos: a visita de Hillary Clinton

O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos mantém-se regular nos últimos anos, sem nenhuma altercação de monta. A razão básica para a cordialidade tem sido a entusiasmada manutenção das diretrizes econômicas, estruturadas ainda durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso.
Do ponto de vista comercial, houve a correta tentativa de diversificação dos parceiros comerciais no início da gestão Lula, porém limitada, em decorrência da especialização crescente do Brasil no agronegócio, a fim de cativar o mercado de certos países, em detrimento do seu setor manufaturado, cujo campo de atuação poderia estender-se mais à América do Sul e África.
No tocante aos Estados Unidos, a relação é estreita, próxima da com a China, apesar de um ou outro arrufo – cite-se a recente vitória do Brasil na Organização Mundial do Comércio, em vista da concessão indevida de auxílio do governo norte-americano ao setor algodoeiro.
Há poucos dias, a titular do Departamento de Estado, Hillary Clinton, esteve durante dois dias no Brasil, um dos cinco países visitados em sua excursão na América Latina – ao assumir um cargo no Executivo, faz-se oportuno consignar que o parlamentar estadunidense não pode meramente licenciar-se. A renúncia é obrigatória, o que auxilia a preservar o equilíbrio entre os três poderes.
Oficialmente, a pauta de Clinton no Brasil era ampla, mas, na prática, centrou-se no Irã, país com o qual Washington relaciona-se problematicamente desde 1979, quando houve a substituição da corrompida monarquia secular por uma teocracia islâmica, do ramo xiita. Em sua análise, o país caminha para tornar-se uma ditadura militar, por causa do crescente papel na política da Guarda Revolucionária Islâmica.
Constata-se de modo geral a ausência de divergências significativas bilateralmente, mas, no multilateral, há sim, em face da aspiração brasileira de assentar-se de maneira definitiva no Conselho de Segurança das Nações Unidas, local em que está mais uma vez temporariamente.
Os Estados Unidos desejam que o Conselho de Segurança estabeleça mais sanções ao Irã por causa do caráter aparentemente militar de sua política nuclear. De acordo com a Casa Branca, Teerã busca enriquecer o urânio acima do uso civil, em torno de 20%. Em tal posicionamento, acompanham-nos Grã-Bretanha, França e Rússia.
Por outro lado, a China, para a qual o Irã é o terceiro fornecedor de petróleo, recomenda um esforço maior nas negociações, antes de um enrijecimento nas Nações Unidas, posição compartilhada pelo Brasil.
De todo modo, o prazo para a definição de uma postura final de Brasília é a viagem de Lula em maio ao Irã. No entanto, não está cristalina a justificativa da posição brasileira concernente a isso – seria credenciar-se para mediar conflitos na região médio-oriental, com o fito de demonstrar a capacidade de atuação do país?
A dificuldade de Washington em granjear apoio político junto à América Latina em questões como a iraniana deriva da conservação das linhas gerais da política externa do governo Bush. Na campanha, os democratas haviam reconhecido o distanciamento norte-americano da região, ainda que temporariamente justificado em função da intensificação de esforços no combate ao terror.
Assim, ofertou-se a possibilidade de renovar o diálogo. Contudo, a postura da Casa Branca relativamente ao golpe de Estado em Honduras melindrou muitos países latino-americanos, diante da aceitação tácita de Washington, mesmo ad hoc, de uma ruptura institucional como o encaminhamento para a solução de conflitos políticos.
Desta maneira, a política externa estadunidense caminha para a ‘normalidade’ na região, termo caro aos conservadores para expressar acomodação de governos nos quais se manifestava a possibilidade de mudança quando da campanha eleitoral. Assim, mantém-se a mesma desconfiança dos anos anteriores por parte dos sul-americanos.
Um dos meios utilizados pelos republicanos para a quietação é dificultar a nomeação dos indicados às embaixadas e secretarias, ao adiar a sua sabatina. Em alguns casos, o Executivo recua e aponta nomes mais moderados, com o objetivo de conseguir a aprovação.
Às vezes, o atraso é meramente disposto como uma mensuração de poder entre os dois partidos, ao não direcionar-se diretamente ao nome apresentado. É o caso dos comissionamentos no Brasil, aprovado o nome de Thomas Shannon em dezembro último, e na Secretaria de Assuntos Hemisféricos (voltada para as Américas), autorizado o de Arturo Valenzuela em novembro do ano passado.

Fonte: Correio da Cidadania - 16/Março/2010

Autor: Virgílio Arraes