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01 agosto, 2010

Infra-estrutura a serviço do grande capital

Infra-estrutura a serviço do grande capital

Com as bênçãos de Washington e o apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), dez países sul-americanos vêm levando adiante a um conjunto de obras gigantescas, voltadas para ajustar as economias da região aos interesses do mercado globalizado e das empresas transnacionais

Quem reduz o cenário político da América do Sul ao contraste entre um pólo esquerdista (Venezuela, Bolívia e Equador) e um conservador (Colômbia, Peru, Paraguai), separados por uma zona cinzenta de posições intermediárias (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai), deveria rever esse mapa ideológico simplista, comum à maioria das análises, a partir do avanço silencioso de uma iniciativa que transcende as clivagens entre os governos. Com as bênçãos de Washington e apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os dez países sul-americanos citados [1] vêm levando adiante a implementação de um conjunto de obras gigantescas, voltadas para ajustar as economias da região aos interesses do mercado globalizado e das grandes empresas - locais ou multinacionais. Desde de 2000, quando foi criada, a Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), um megaprojeto que engloba transportes, energia e comunicações, tem implementado uma estratégia que viabiliza a inserção da América do Sul na economia globalizada de modo absolutamente coerente com a lógica neoliberal. A região é encarada como fornecedora de produtos agrícolas, matérias-primas e recursos energéticos para os centros dinâmicos do capitalismo.
De acordo com a página da IIRSA na internet, seu objetivo é "promover o desenvolvimento da infra-estrutura com base em uma visão regional, procurando a integração física dos países da América do Sul e a conquista de um padrão de desenvolvimento territorial eqüitativo e sustentável". A iniciativa prevê a execução de 348 obras em vinte anos, num investimento de aproximadamente 38 bilhões de dólares. Esses projetos, dos quais 31 são considerados de curto prazo, se articulam ao redor de 12 "eixos de integração" que abarcam todo o território sul-americano e, em vários casos, apresentam superposições e interconexões.
Os "eixos" são, na essência, corredores destinados a facilitar a exportação de bens primários para os mercados dos países desenvolvidos. O Eixo Amazônico, um dos mais importantes, se destina a ligar portos no Pacífico - Paita, no Peru; Esmeraldas, no Equador; e Tumaco, na Colômbia - com o Atlântico, na foz do Rio Amazonas, em Belém. Por esse corredor passariam produtos andinos (principalmente, minérios) rumo à Europa, e, no sentido oposto, produtos amazônicos, como carne e madeira, em direção ao mercados da Ásia e da América do Norte.
O Eixo Interoceânico Central, que envolve territórios do Brasil, Bolívia e Peru, deverá reduzir enormemente os custos de transporte do agronegócio brasileiro em suas exportações pelo Pacífico. Este é um objetivo central de duas das mais polêmicas entre as obras previstas: o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, (que inclui, além de três represas, uma hidrovia) e a Rodovia Interoceânica, de 2.586 quilômetros em território peruano, atravessando os Andes. O pacote da IIRSA também inclui, em outros de seus "eixos", uma rede de gasodutos destinada a integrar as reservas de gás da Bolívia e do Peru ao mercado internacional e a Hidrovia Paraná-Paraguai, que pretende ligar, através de 3.442 km de rios navegáveis, o porto fluvial de Cáceres, no Mato Grosso, com Buenos Aires, no Atlântico, oferecendo mais uma saída para a soja e demais commodities da região.
O IIRSA surgiu como uma iniciativa do BID, em agosto de 2000, em parceria com a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Fundo para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). O então presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso foi o anfitrião do encontro fundador, em Brasília, que contou com a adesão de todos os países sul-americanos, exceto a Guiana Francesa. Desde então, muita coisa mudou no cenário político regional, mas a iniciativa segue adiante, com o apoio de todos os governos participantes - e, o que é muito significativo, sem sofrer questionamentos sérios dos presidentes identificados com plataformas de esquerda. Quem tem criticado esse ambicioso esquema de integração física são os movimentos sociais, cientistas e entidades não-governamentais ligados à defesa do meio ambiente. As críticas se referem tanto ao impacto social, econômico e ambiental dos projetos, traçados sem levar em conta as necessidades das populações afetada pelas obras, quanto à própria estratégia que permeia toda a iniciativa.
Na visão dos opositores da IIRSA, o empreendimento se insere na mesma lógica neoliberal que se expressou nas privatizações e na abertura comercial das duas últimas décadas. Eles acreditam que essas obras aumentarão a dependência da América do Sul em relação às nações ricas, agravarão os desequilíbrios entre os países da região e no interior de cada um deles e, nesse processo, acelerarão o esgotamento de recursos naturais valiosos, em prejuízo das gerações futuras. Há também descontentamento com a hegemonia de grupos empresariais brasileiros, em especial o agronegócio e as grandes construtoras, os setores que mais têm a ganhar com o empreendimento.
Os críticos chamam a atenção, logo de saída, para o flagrante descaso com relação aos efeitos nefastos sobre as comunidades ribeirinhas, os indígenas e os camponeses das regiões onde se situam as obras. "Os modelos de integração até agora propostos desconsideram as identidades das populações locais, suas culturas e seus territórios", assinala Magnólia Said, presidente do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar), de Fortaleza. Em vez de serem consultados, prossegue ela, os moradores são compelidos a "integrar-se a uma ordem de desenvolvimento na qual os únicos interesses que irão continuar valendo são os interesses do mercado".
A maior parte dos projetos da IIRSA se situa em regiões de rica biodiversidade, ecossistemas frágeis e populações altamente vulneráveis a alterações ambientais. Por mais que as obras se anunciem como "sustentáveis", o impacto ambiental é inegável e, em alguns casos, devastador. As hidrovias e as represas alteram o regime de águas dos rios, afetando a pesca e ameaçando de extinção um grande número de espécies aquáticas. As estradas provocam, inevitavelmente, o desmatamento de áreas que vão muito além de suas margens, sem falar em efeitos colaterais como a imigração descontrolada e a poluição ambiental. É sintomático, nesse quadro, que a Rodovia Interoceânica tenha sido aprovada, financiada e esteja sendo construída, desde 2006, sem a realização de estudo prévio de impacto ambiental. De acordo com uma pesquisa do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil Peruana, a região - uma das áreas mais ricas em biodiversidade e, até recentemente, em bom estado de preservação - enfrentará, em 10 anos, todas as mazelas que quase sempre acompanham a instalação de rodovias [2]. Com um agravante: a estrada atravessará uma área onde vivem diversos grupos indígenas em situação de isolamento voluntário, que serão especialmente afetados pela degradação do entorno.
Na linguagem tecnocrática dos planejadores envolvidos na IIRSA, os acidentes geográficos, como a cordilheira dos Andes e a floresta amazônica, são encarados como "barreiras", empecilhos a serem "superados" em nome do progresso. Os recursos naturais, por sua vez, se transformam em "estoques", reservatórios de commodities a serem negociadas no mercado de futuros. "Para se viabilizar - afirma Magnólia - esses projetos vão demandar o desaparecimento de tudo o que é considerado obstáculo: árvores seculares, pequenas cidades, reservas indígenas, comunidades quilombolas, práticas agrícolas consorciadas e traços culturais. Ao mesmo tempo, a exclusão social permanece intocada".
Na Amazônia brasileira, que tem seu território incluído em quatro dos "eixos de integração", a influência das obras se estenderá por 2,5 milhões de hectares, atingindo 107 terras indígenas, cujos residentes representam 22% da população indígena brasileira. Outras 484 áreas prioritárias para a conservação de biodiversidade também seriam afetadas. O título de um recente estudo da organização não-governamental Conservação Internacional dá idéia do que está em jogo: "Uma tempestade perfeita na selva amazônica: desenvolvimento e conservação no contexto da IIRSA" [3]. Seu autor, o cientista norte-americano Tim Killeen, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, avaliou o impacto dos novos projetos de transporte, energia e telecomunicações e conclui que eles poderão destruir grande parte da floresta tropical amazônica nas próximas décadas.
Killeen relaciona as obras previstas na IIRSA ao crescimento das pressões sobre o ecossistema amazônico e suas comunidades tradicionais. Entre essas pressões encontram-se a exploração madeireira e o desflorestamento - problemas associados à expansão descontrolada da agricultura, à criação de gado e à exploração mineral, bem como ao rápido crescimento dos cultivos para biocombustíveis, tais como a cana-de-açúcar. "A falta de percepção do pleno impacto dos investimentos da IIRSA, especialmente no contexto da mudança climática e de mercados globais, poderá produzir uma tempestade perfeita de destruição ambiental", escreveu Killeen. "A maior área de floresta tropical do planeta e os múltiplos benefícios que ela proporciona estão ameaçados".
O desafio, segundo o pesquisador, é o de conciliar as expectativas legítimas de desenvolvimento com a necessidade de conservar o ecossistema amazônico. Mas essa preocupação, que deveria estar no centro do processo de decisões da IIRSA, manifesta-se de forma superficial. A sustentabilidade ambiental e social é encarada, no fundo, como uma questão de relações públicas (como "vender" o projeto à opinião pública) e de gestão de conflitos (como contornar as eventuais resistências da sociedade civil). Cifras grandiosas emolduram a retórica desenvolvimentista dos arautos da IIRSA: megawatts de eletricidade, milhares de quilômetros de estradas, juntamente com uma mapa todo recortado por rotas que o discurso oficial alardeia como vetores de progresso. Já o impacto ambiental é encarado sempre de uma forma pontual, no âmbito restrito de cada obra, como aponta a Conservação Internacional. "A estratégia de implementação [da IIRSA] é completamente fragmentada, dificultando a percepção de seus impactos econômicos, sociais, culturais e ambientais", afirma o estudo da entidade.
Em certos casos, a fragmentação ocorre dentro do próprio projeto, o que dificulta a avaliação do impacto social e ambiental, como ocorreu com os estudos sobre o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira [4]. A hidrovia projetada tornará mais barato o custo de transporte da soja e estimulará um aumento dramático na produção, aumentando a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não é levado em conta nas projeções de impacto ambiental. A Conservação Internacional alerta que a ampliação da infra-estrutura em regiões como a Amazônia, em que a capacidade de atuação do Estado é precária, costuma trazer consigo efeitos incontroláveis como a imigração de populações em situação de miséria, o agravamento das deficiências em educação, saúde, moradia e saneamento, a perda da qualidade da água, o aumento indiscriminado da coleta e da caça para a sobrevivência, a ampliação das áreas desmatadas, a grilagem de terras, as doenças contagiosas, a criminalidade e a prostituição. Nada disso figura nos relatórios oficiais, sempre otimistas, encaminhados às agências de financiamento.
O déficit de democracia na IIRSA é gritante. Regra geral, os projetos já são anunciados como fatos consumados. O debate se restringe, então, às maneiras de se adaptar a algo apresentado como irreversível, movido por forças acima da vontade humana. Em muitos casos, a população nem mesmo é informada sobre as conseqüências das obras que estão sendo planejadas. Um exemplo da falta de transparência é o da usina hidrelétrica do Garabí, na bacia do Rio Uruguai, maior obra da IIRSA em área de Mata Atlântica. O projeto original, que afetará fortemente a biodiversidade em terras situadas no Brasil, Uruguai e Argentina, foi interrompido no início da década de 1990 diante da forte oposição das populações ribeirinhas, de entidades ambientalistas e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Naquela ocasião, a previsão era de um impacto ambiental catastrófico, com a destruição de várias cachoeiras e a inundação uma enorme área nos três países, inclusive no Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul. Em 2005, o projeto foi retomado, mas as discussões têm acontecido a portas fechadas, apenas com representantes dos governos e das empresas construtoras. O presidente Lula, em seu recente encontro com a chefe de Estado argentina Cristina Kirchner, em 22 de fevereiro, anunciou a retomada das obras, e a população local permanece sem saber dos riscos a que será submetida.
No eterno impasse entre crescimento econômico e proteção ambiental, a pergunta que raramente vem à tona se refere aos verdadeiros interesses existentes por trás desses planos faraônicos de infra-estrutura. A quem servirá a energia a ser produzida? Quem vai lucrar com o transporte de mercadorias pelos rios que se tornarão navegáveis? Qual é a estratégia que move esses empreendimentos? Para o sociólogo Luiz Fernando Novoa, da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, a IIRSA se rege pelos interesses das grandes empresas, principalmente norte-americanas e, em segundo lugar, brasileiras, que passarão a controlar os recursos naturais da América do Sul numa escala sem precedentes. "Os projetos são voltados para a competitividade externa da região e não para gerar interdependência entre seus países", afirma Novoa. "Há uma hierarquia de prioridades que não corresponde aos interesses de nossas populações".
A lógica da IIRSA, segundo Novoa, é a da criação de verdadeiros "territórios empresariais", desvinculados das trajetórias, da cultura e da dinâmica interna dos povos. "A governança que os grandes conglomerados empresariais pretendem estabelecer é a que proporciona capacidade de administração meticulosa da expansão das fronteiras dos negócios", afirma. "O Estado nacional, a população e o meio ambiente ficam à mercê dos investimentos privados, à disposição de seus requerimentos e de suas condicionalidades. E assim nos transformamos em estrangeiros em nossos próprios países."
O que ocorre no setor de produção de eletricidade é ilustrativo. "A demanda crescente por energia está diretamente relacionada à expansão da produção de bens eletrointensivos, como o alumínio e a celulose", aponta Elisângela Soldatelli Paim, coordenadora de projetos do Núcleo Amigos da Terra Brasil, de Porto Alegre. A represa de Tucuruí, construída na década de 1970 às custas de uma imensa devastação ambiental e da expulsão de mais de 20 mil pessoas, serve essencialmente a três grandes fábricas de alumínio, ali instaladas devido às reservas de bauxita do Pará. Uma delas é norte-americana e outras duas pertencem à Companhia Vale do Rio Doce, em sociedade com capitais japoneses. A União subsidia a energia que abastece essas três empresas, mas os moradores deslocados, além de não terem recebido indenização, não têm eletricidade nas suas casas. A produção de alumínio é feita de um modo predatório, que conduz à rápida exaustão das reservas minerais, num esquema típico das chamadas "economias de enclave". A geração de empregos é reduzida. Grande parte do alumínio produzido segue para os Estados Unidos, o Japão e a China, enquanto os danos sócio-ambientais do empreendimento - as "externalidades", em tecnocratês - são absorvidos localmente.
A IIRSA, com sua ênfase na remoção dos entraves à circulação de mercadorias e à exploração dos recursos naturais, segue uma estratégia compatível com os objetivos da Alca (Área de Livre-Comércio das Américas), defendida pelo governo norte-americano. Os Estados Unidos, não por acaso, estão impulsionando uma iniciativa de moldes semelhantes, o Plano Puebla-Panamá (PPP), projeto similar ao da IIRSA e que tem como objetivo "integrar" sete países da América Central e o sul do México [5]. Encarados em conjunto, os dois megaprojetos se encaixam perfeitamente, configurando um espaço latino-americano totalmente adequado aos objetivos do máximo aproveitamento dos recursos naturais e humanos em benefício do capital privado.
Nesse contexto, os opositores da IIRSA têm manifestado estranheza diante do apoio que a iniciativa tem recebido dos governos esquerdistas da região. A Venezuela de Hugo Chávez, ao mesmo tempo em que destoa do modelo integracionista neoliberal com iniciativas como a Alba, a Telesur e o Banco do Sul, não apenas participa da IIRSA, com vários empreendimentos em seu território, como propõe a construção do Gasoduto do Sul. Trata-se de uma obra faraônica que, estendendo-se do Caribe à Argentina, cortará a floresta amazônica do mesmo modo que as empreitadas mais agressivas da IIRSA, afetando o meio ambiente e pondo em risco o modo de vida de populações locais. Os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, fizeram declarações, em dezembro de 2006, durante a Cúpula Social de Cochabamba, de que a IIRSA deve ser "reorientada" a fim de corresponder aos interesses dos povos. No entanto, a Bolívia e o Equador estão comprometidos com vários projetos do IIRSA - e nem todos eles atendem a critérios sociais e ambientais aceitáveis. O governo de Morales chegou a opor resistência ao Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira em razão dos impactos que essa obra provocará no lado boliviano, mas mudou de posição diante da perspectiva de obter apoio brasileiro para outros projetos. "Esses governos ainda estão presos a um ?desenvolvimentismo econômico? predatório em relação aos bens naturais e às populações", avalia Mariângela Soldatelli Paim, do Núcleo Amigos da Terra Brasil. "A questão é que o modelo capitalista neoliberal que depende e resulta na exploração da natureza e dos povos não está sendo combatido nas suas estruturas."
A adesão dos governos "bolivarianos" à IIRSA deixa no ar uma pergunta: existe alternativa? O sociólogo Luiz Fernando Novoa acredita que sim. "Ao criticar a IIRSA não estamos dizendo que não é necessário construir rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, ou investir no setor elétrico e nas telecomunicações", esclarece. O que ele propõe - refletindo, em grande medida, um consenso entre os opositores do modelo neoliberal de integração - é uma mudança no foco dos projetos de infra-estrutura, de modo a priorizar os mercados internos e o desenvolvimento social. "A geração e a distribuição de energia no continente deve ser pensada em função do incremento do dinamismo econômico regional, e não em função das necessidades de suprimento de cadeias transnacionais de produção", exemplifica.
Igualmente, do seu ponto de vista, a "interligação

Fonte: Le Monde Brasil
Autor: Igor Fuser é jornalista, professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e integrante da redação da revista Caros Amigos.
[1] Integram ainda a IIRSA a Guiana e o Suriname.
[2] Marc Dourojeanni, "A Estrada Interoceânica no Peru", em O Eco, 30/6/2006.
[3] "IIRSA pode colocar em risco floresta amazônica", em Conservação Internacional Notícias, 1/10/2007.
[4] Telma Delgado Monteiro, "Hidrelétricas do rio Madeira", em amazonia.org.br, 6/2/2006.
[5] Igor Ojeda e Luis Brasiliano, "As veias cada vez mais abertas da América Latina", Brasil de Fato, 7/2/2008.

20 abril, 2010

A origem da expressão "Tio Sam"

A origem da expressão "Tio Sam"



O nome Tio Sam vem de Samuel Wilson, cujo apelido era Uncle (tio) Sam.
De onde vem a expressão “Tio Sam” para designar os Estados Unidos?

Vem de Samuel Wilson (1766-1854), cujo apelido era Uncle (tio) Sam. Responsável pelo fornecimento de carne para o exército americano na guerra de 1812 com a Inglaterra, o comerciante Wilson carimbou as embalagens com um enorme US, para designar o destinatário, United States. Como, porém, essa ainda não era a abreviação oficial do país, um empregado de Wilson imaginou que aquelas letras representassem as iniciais do apelido do patrão. O erro propagou-se e o envio das rações militares passou a ser atribuído à generosidade desse personagem, que conquistou o carinho de todo o país e com ele acabou sendo identificado. Em 1961, o Congresso dos Estados Unidos oficializou a expressão Tio Sam como símbolo nacional.

Revista Superinteressante

02 abril, 2010

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

Barack Obama é o quarto presidente estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, unindo-se a outros dentro de uma longa tradição de pacificação que desde sempre serviu aos interesses dos EUA. Os quatro presidentes deixaram sua marca em nossa “pequena região” ("nosso quintal"), que "nunca incomodou ninguém", como caracterizou o secretário de Guerra, Henry L. Stimson, em 1945. Dada a postura do governo de Obama diante das eleições em Honduras, em novembro último, vale a pena examinar esse histórico.

Theodore Roosevelt

Em seu segundo mandato como presidente, Theodore Roosevelt disse que a expansão de povos de sangue branco ou europeu durante os quatro últimos séculos viu-se ameaçada por benefícios permanentes aos povos que já existiam nas terras onde ocorreu essa expansão (apesar do que possam pensar os africanos nativos, americanos, filipinos e outros supostos beneficiados).
Portanto, era inevitável e, em grande medida, desejável para a humanidade em geral que o povo estadunidense terminasse por ser maioria sobre os mexicanos ao conquistar a metade do México, além do que estava fora de qualquer debate esperar que os (texanos) se submetessem à supremacia de uma raça inferior. Utilizar a diplomacia dos navios de artilharia para roubar o Panamá da Colômbia e construir um canal também foi um presente para a humanidade.

Woodrow Wilson

Woodrow Wilson é o mais honrado dos presidentes premiados com o Nobel e, possivelmente, o pior para a América Latina. Sua invasão do Haiti, em 1915, matou milhares de pessoas, praticamente reinstaurou a escravidão e deixou grande parte do país em ruínas.
Para demonstrar seu amor à democracia, Wilson ordenou a seus mariners que desintegrassem o Parlamento haitiano a ponta de pistola em represália pela não aprovação de uma legislação progressista que permitiria às corporações estadunidenses comprar o país caribenho. O problema foi resolvido quando os haitianos adotaram uma Constituição ditada pelos Estados Unidos e redigida sob as armas dos mariners. Tratava-se de um esforço que resultaria benéfico para o Haiti, assegurou o Departamento de Estado a seus cativos.
Wilson também invadiu a República Dominicana para garantir seu bem-estar. Esta nação e o Haiti ficaram sob o mando de violentos guardas civis. Décadas de tortura, violência e miséria em ambos países foram o legado do idealismo wilsoniano, que se converteu em um princípio da política externa dos EUA.

Jimmy Carter

Para o presidente Jimmy Carter, os direitos humanos eram a alma de nossa política externa. Robert Pastor, assessor de segurança nacional para temas da América Latina, explicou que havia importantes distinções entre direitos e política: lamentavelmente a administração teve que respaldar o regime do ditador nicaragüense Anastásio Somoza, e quando isso se tornou impossível, manteve-se no país uma Guarda Nacional treinada nos EUA, mesmo depois de terem ocorrido massacres contra a população com uma brutalidade que as nações reservam para seus inimigos, segundo assinalou o mesmo funcionário, e onde morreram cerca de 40 mil pessoas.
Para Pastor, a razão era elementar: os EUA não queriam controlar a Nicarágua nem nenhum outro país da região, mas tampouco queriam que os acontecimentos saíssem do seu controle. Queriam que os nicaragüenses atuassem de forma independente, exceto quando essa independência afetasse os interesses dos Estados Unidos.

Barack Obama

O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. A quartelada refletiu abismais e crescentes divisões políticas e socioeconômicas, segundo o New York Times. Para a reduzida classe social alta, o presidente hondurenho Manuel Zelaya converteu-se em uma ameaça para o que esta classe chama de democracia, que, na verdade, é o governo das forças empresariais e políticas mais fortes do país.
Zelaya adotou medidas tão perigosas como o incremento do salário mínimo em um país onde 60% da população vive na pobreza. Tinha que ir embora. Praticamente sozinho, os EUA reconheceram as eleições de novembro (nas quais saiu vitorioso Pepe Lobo), realizadas sob um governo militar e que foram uma “grande celebração da democracia”, segundo o embaixador de Obama em Honduras, Hugo Llorens. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina.
Depois das eleições, Lewis Anselem, representante de Obama na Organização de Estados Americanos (OEA), aconselhou aos atrasados latinoamericanos que aceitassem o golpe militar e seguissem os EUA no mundo real e não no mundo do realismo mágico.
Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar. O governo estadunidense financia o Instituto Internacional Republicano (IRI, na sigla em inglês) e o Instituto Nacional Democrático (NDI) que, supostamente, promovem a democracia. O IRI apóia regularmente golpes militares para derrubar governos eleitos, como ocorreu na Venezuela, em 2002, e no Haiti, em 2004. O NDI tem se contido. Em Honduras, pela primeira vez, esse instituto concordou em observar as eleições realizadas sob um governo militar de fato, ao contrário da OEA e da ONU, que seguiram guiando-se pelo mundo do realismo mágico.
Devido à estreita relação entre o Pentágono e o exército de Honduras e à enorme influência econômica estadunidense no país centroamericano, teria sido muito simples para Obama unir-se aos esforços latinoamericanos e europeus para defender a democracia em Honduras. Mas Barack Obama optou pela política tradicional.
Em sua história das relações hemisféricas, o acadêmico britânico Gordon Connell-Smith escreve: "Enquanto fala, da boca para fora, em defesa de uma democracia representativa para a América Latina, os Estados Unidos têm importantes interesses que vão justamente na direção contrária e que exigem um modelo de democracia meramente formal, especialmente com eleições que, com muita freqüência, resultam numa farsa".
Uma democracia funcional pode responder às preocupações do povo, enquanto os EUA estão mais preocupados em construir as condições mais favoráveis para seus investimentos privados no exterior? Requer-se uma grande dose do que às vezes se chama de ignorância intencional para não ver esses fatos. Uma cegueira assim deve ser zelosamente guardada se é que se deseja que a violência de Estado siga seu curso e cumpra sua função. Sempre em favor da humanidade, é claro, como nos lembrou Obama mais uma vez ao receber o Prêmio Nobel.

Fonte: patrialatina.com.br
Autor: Noam Chonsky
Tradução: Katarina Peixoto
Postado em 09/01/2010

04 março, 2010

Argentina: petróleo e Malvinas no debate pela soberania

Argentina: petróleo e Malvinas no debate pela soberania


Foi reaberta a polêmica sobre as Malvinas em cima de um assunto estratégico: a exploração de petróleo. A notícia remete a investimentos ingleses nas ilhas argentinas usurpadas pelo Reino Unido e à decisão do governo platino de impedir o transporte de materiais associados à dita exploração. Essa medida governamental é sustentada pelo descumprimento inglês de acordos diplomáticos entre ambos os países. Acordos que funcionaram entre 1995 e 2007 e foram reiteradamente descumpridos pelas licitações de áreas petroleiras autorizadas pela Inglaterra nas Malvinas.
As repercussões e declarações em cada país motivam as mais diversas especulações, inclusive belicistas (ao melhor estilo Thatcher em 1982), no ambiente eleitoral britânico, mas o importante é a discussão sobre o uso soberano dos recursos naturais, um tema que transcende a exploração de hidrocarbonetos e se projeta sobre a exploração dos minérios, da terra e sua produção agrícola e pecuária, especialmente em tempos de subida nos preços dos alimentos e deterioração do poder de compra dos setores de menor renda.

O capital sem fronteiras

O fato são as concessões para explorar e prospectar jazidas localizadas em mar argentino. São ações de empresas transnacionais sobre um potencial de 200 bilhões de barris de petróleo.
Não é besteira lembrar o peso estratégico da produção petroleira nas condições do modelo produtivo vigente e que a Argentina é dos poucos países que não administra soberanamente as suas reservas. Noventa por cento das reservas de petróleo do mundo são administrados pelos Estados nacionais. Claro que também se verifica a dependência da atividade petroleira em relação às corporações privadas que controlam todo o seu pacote tecnológico, além da comercialização, financiamento e transporte. Não é suficiente a soberania sobre as jazidas, sendo estratégico o pacote tecnológico completo, o know-how da exploração, prospecção e distribuição do hidrocarboneto. É todo um assunto para pensar a questão energética a partir de um enfoque alternativo, pois não se trata somente de recuperar a petroleira estatal, senão de articular um trabalho de ciência e tecnologia nos marcos da cooperação e integração regional.
O episódio que comentamos é articulado pela empresa Desire Petroleum e um de seus principais acionistas, o Banco Barclays, instituição financeira organizadora selecionada pelo governo argentino para a reabertura da troca da dívida externa na suspensão dos pagamentos. Trata-se de uma combinação de dois temas centrais, a exploração de petróleo e a negociação dos créditos externos. Convenhamos que a questão envolve sócios locais da iniciativa inglesa, já que o detido embarque de tubos sem costura provinha da empresa Techint. Este consórcio atua na exploração petrolífera em território argentino através da Tecpetrol e cabe a interrogação sobre se a tentativa exportadora da Techint não desautoriza a ação do grupo na exploração petrolífera em nosso país (Argentina).
É um raciocínio extensivo à atividade petrolífera inglesa, da Barclays e da banca britânica, assim como de todas as empresas externas, especialmente inglesas, que operam no país. Recordemos que existem disposições da Secretaria de Energia que proíbem expressamente operar na plataforma continental argentina sem autorização da autoridade competente do país, situação que inclui as empresas "controladoras, controladas, acionistas e associadas".

Pensar e agir soberanamente

São questões a considerar no marco do recrudescimento da crise da economia mundial, onde se discutem a questão fiscal da Europa, o déficit dos Estados europeus e seu financiamento pela banca européia. A resposta à crise do capital e dos Estados hegemônicos passa pelo ajuste das contas públicas, afetando salários e gasto estatal social, e por uma nova escalada da ofensiva do capital pelo aumento da exploração da força de trabalho e dos recursos naturais.
É tempo para pensar na administração soberana da economia, em soberania alimentar, energética e financeira. O que estamos sugerindo é combinar ações diplomáticas com um debate sobre a soberania da ordem econômica. Por acaso é utópico pensar nisso, quando a tendência é de alta do preço do petróleo, das taxas de juros (agora aumentadas pelo Federal Reserve dos EUA) e dos preços dos recursos naturais? O debate não é ocioso, ainda mais quando o país negocia o tratado de livre comércio entre o Mercosul e a Europa para maio, nos festejos do bicentenário.
O assunto é que não são discussões diferentes, o livre comércio que afeta e afetará a debilitada indústria local é parte da estratégia ofensiva do capital mundial pela expansão de sua atividade em recursos naturais, finanças e comércio.
O que sugerimos é a oportunidade para a discussão sobre a organização econômica local e sobre as bases da soberania, agora que se acaba de anunciar o funcionamento de uma articulação entre o Ministério da Economia e o Banco Central para redefinir o ‘modelo produtivo’ surgido da suspensão dos pagamentos, nos fins de 2001, e da desvalorização cambial dos inícios de 2002. Dali veio o grande crescimento econômico dos últimos anos. Sustenta-se agora que, além do dólar alto, faz falta financiamento para ampliar o investimento e a acumulação.
Pretendemos argumentar que engordar o mesmo modelo produtivo não serve. Requer-se avançar em outro sentido, onde o eixo seja a soberania e a satisfação de necessidades sociais, mediante a extensa a pobreza na Argentina.

Fonte: Correio da Cidadania - 25/02/10
Autor: Julio Gambina é professor de Economia Política na Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosário e membro do CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais).

02 março, 2010

Terremoto no Chile

Terremoto no Chile


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Chile envia Exército às ruas após tremor

Número de mortos depois de terremoto de 8,8 graus chega a 711; população saqueia supermercados em cidades afetadas.
Governo decreta estado de "exceção constitucional por catástrofe" nas regiões de Maule e Bío Bío; cidades têm toque de recolher imposto.

A confirmação de 711 mortos e um número incontável de feridos. Saques a supermercados e farmácias em diversas cidades onde a população ficou sem acesso a gêneros de primeira necessidade. Ameaça de desabastecimento de combustível na capital, Santiago. Esse era o cenário do Chile ontem, após o terremoto de 8,8 graus na escala Richter que atingiu o país na madrugada de sábado.
A presidente, Michelle Bachelet, enviou o Exército para controlar os distúrbios nas áreas mais afetadas e decretou estado de "exceção constitucional por catástrofe" em Maule (que contabiliza 541 mortos, sendo 356 na cidade de Constitución) e Bío Bío, onde se localiza Concepción. Esta está sob o comando das Forças Armadas e com toque de recolher instaurado, depois que a administração local alertou que a situação estava "saindo do controle".
O governo fez acordo com cadeias de supermercados para a distribuição gratuita de água e outros gêneros de primeira necessidade, na tentativa de evitar saques. Há relatos, porém, de que aproveitadores invadem supermercados para roubar outros tipos de produtos.
O Ministério da Defesa admitiu ontem um erro na administração da tragédia, quando descartou a possibilidade de tsunami na costa sul. Ondas gigantes atingiram as regiões de Maule e Bío Bío. Fora do Chile, não foram registradas mortes ou danos graves provocados pelas ondas das áreas do Pacífico onde foram emitidos alertas.
Bachelet -que ontem se encontrou com o presidente eleito, Sebastián Piñera- afirmou que "o passar das horas" revelou que o país está "diante de uma catástrofe de dimensões impensáveis" e que serão necessários "gigantescos esforços" para a recuperação dos danos. O governo centralizou esforços em normalizar as estradas, com pontes provisórias para substituir as que ruíram.
O aeroporto internacional de Santiago, fechado desde sábado, autorizou excepcionalmente alguns pousos. Prevê-se para a manhã de hoje a divulgação da data em que o funcionamento será regularizado. Na tentativa de voltar para casa, cerca de 300 brasileiros recorreram à Embaixada do Brasil em Santiago no fim de semana. Segundo a equipe consular, "a principal demanda é o "Me tira daqui!", impossível de ser atendida no momento, com o aeroporto fechado".
Ao longo do dia de ontem, foram registradas mais de cem réplicas do terremoto em todo o país. Às 8h26, Santiago sentiu sua réplica mais intensa -6,1 graus na escala Richter. Mas os habitantes da capital reagiram com calma. "A história nos mostra que, depois de um grande terremoto, as réplicas são de menor intensidade", diz o taxista Fernando Sepúlveda.
Com a gasolina escasseando nos postos, enormes filas de carros em frente às bandeiras com bombas ainda cheias foram a cena mais repetida do trajeto. As duas principais refinarias do país se encontram em áreas muito afetadas, o que dificulta o transporte do combustível até a capital. Ontem, o serviço de metrô permanecia quase totalmente suspenso.
As cicatrizes do tremor em Santiago, porém, são ínfimas diante da magnitude do abalo. Estão interditadas calçadas em frente a igrejas e prédios cujas cúpulas ameaçam desabar parcialmente. Mas a maioria das construções parece intacta.

Por terra, viagem a país exige desvios

Aterrados pela perspectiva de serem novamente surpreendidos durante o sono por um terremoto, moradores da capital chilena preferiram passar a madrugada a céu aberto. Fogueiras em frente às casas cumpriam a função de aquecer os insones e também de iluminar os quarteirões ainda sem energia.
Essa era a cena que Santiago oferecia na madrugada do último domingo a quem conseguiu entrar na cidade -por terra, já que o aeroporto estava fechado.
A reportagem da Folha usou o caminho a partir da Argentina, atravessando a fronteira da Província argentina de Mendoza com o Chile, numa viagem que consumiu quatro horas mais do que o habitual.
Três empresas de ônibus argentinas executam esse trajeto. Uma delas suspendeu o serviço na noite de sábado. A travessia das cordilheiras inclui um extenso túnel, que desemboca na Aduana. Cruzá-lo quando o solo se movimenta parece mesmo temerário, mas as autoridades não o interditaram, medida que é comum de maio a setembro.
Na fronteira, os numerosos jornalistas que buscam chegar ao Chile sentem pequenas trepidações, confirmadas pelos funcionários: "Está tremendo o dia todo".
Próximo da entrada em Santiago, as condições da estrada, até então boas, complicam-se. Numerosas interrupções obrigam a desvios e voltas.
O fim do caminho é o lobby do hotel, em que turistas aflitos buscam um transporte que os leve pelo trajeto inverso.

Avião da FAB traz 12 brasileiros do Chile


Embaixador diz que passageiros estavam no país em missão diplomática, porém site da Força Aérea descreve um deles como turista.
Embaixada não descarta a possibilidade de brasileiros mortos e feridos no tremor; desabrigados estão sendo levados para albergues.

Um grupo de 12 brasileiros foi trazido de volta do Chile ontem. Eles pegaram carona em um avião da FAB que havia levado o ministro da Justiça e o procurador-geral chilenos, que estavam no Brasil, de volta a Santiago a pedido do governo de Michelle Bachelet.
Segundo o Comando da Aeronáutica, a seleção dos passageiros ficou a cargo da Embaixada do Brasil em Santiago. Nove eram civis, e três, militares.
Em Brasília, o Itamaraty disse que não divulgaria identidades e destino dos passageiros. Cerca de 300 brasileiros pediram ajuda à representação diplomática no Chile para voltar ao Brasil.
Já a FAB divulgou nome e imagens de alguns dos passageiros e qualificou pelo menos um deles como turista. Por sua vez, o embaixador brasileiro no Chile afirmou que essa informação era "equivocada" e que todos os integrantes do voo eram parte de comitiva que preparava a ida do presidente Lula ao país.
Informado de que a FAB narra em seu site a volta de uma enfermeira que estava no Chile para participar de congresso, o embaixador Mario Vilalva insistiu que "a ideia era transportar funcionários". Mas a possibilidade de embarcar um brasileiro chegou a ser cogitada, afirmou. "Havia uma pessoa cuja mãe tinha falecido no Brasil, mas ele não conseguiu voltar a tempo do enterro."
Vilalva não descarta a possibilidade de que haja brasileiros entre os mortos e feridos, apesar de ainda não haver notícias nesse sentido. Há brasileiros desabrigados pelos tremores sendo encaminhados para albergues. Hoje, moram no Chile cerca de 12 mil brasileiros.
Em nota, o Itamaraty informou que o governo "segue, com preocupação, o desenvolvimento dos acontecimentos após o terremoto que atingiu o Chile". A assistência consular recebeu ontem reforço com a chegada de um diplomata com experiência para atender residentes brasileiros e turistas.
O atendimento na embaixada é feito durante todo o dia e conta com sete funcionários destacados para o serviço. "Um funcionário sozinho fez cem atendimentos na manhã de hoje [domingo]", estima Vilalva.

Reclamação

Isolado em Santiago, um grupo enviado pelos ministérios da Educação e da Cultura criticou o atendimento da embaixada brasileira no dia dos tremores. Ao procurar ajuda, não conseguiram contato com funcionários para esclarecimentos.
A comitiva -da qual faz parte Ana Maria Machado, secretária-geral da Academia Brasileira de Letras- foi ao país para participar de congresso.
O presidente da ABL, Marcos Vilaça, enviou fax ao Itamaraty demonstrando desconforto em relação ao tratamento dado aos brasileiros. Segundo Vilaça, a delegação "não estava recebendo a atenção adequada".
A maioria dos que procuram a embaixada está em busca de informações a respeito do aeroporto internacional. Outros pedem certificados para justificar ausências no trabalho ou ligam do Brasil em busca de notícias de amigos e familiares.
A agência de notícias France Presse afirma que já há voos internacionais pousando em Santiago, em caráter excepcional. As decolagens continuavam canceladas, devido a danos no setor de passageiros. Segundo informações oficiais, a normalização do aeroporto ainda deve levar 48 horas.

Um país resiste melhor do que um aglomerado


O pequeno intervalo entre o terremoto no Haiti e o do Chile leva, inexoravelmente, a uma pergunta: como é que um tremor bem mais intenso provoca bem menos danos e mortes?
A resposta é simples: o Chile é um país, pobre, mas razoavelmente organizado; o Haiti é um aglomerado, ainda mais pobre, muitíssimo mais pobre.
É óbvio que o fato de o Chile ser e saber ser um "país sísmico" também faz diferença: a cada dez anos, há um abalo grave no Chile, vítima de dez pequenos tremores diários e 3.500 movimentos sísmicos anuais.
Já o Haiti conheceu no dia 12 de janeiro seu primeiro terremoto grave em uma geração.
Mas o país sofre frequentes desastres naturais que, houvesse um poder público minimamente funcional, teriam levado a pelo menos algum nível de preparação. Mas não. Patrick Midy, um arquiteto de destaque no Haiti, disse à agência Associated Press que sabia de apenas três prédios preparados para terremotos no país inteiro.
No Chile, há toda uma legislação sobre construções voltada para minimizar os efeitos de abalos sísmicos, bem como a preparação da população. No Haiti, mês e meio depois do terremoto, boa parte das vítimas ainda está entregue a sua própria iniciativa. É óbvio que nem Chile nem Haiti podem evitar terremotos. O que um Estado pode fazer é, um, preparar-se e à população para minimizar os danos e, dois, reagir a qualquer emergência da melhor forma.
No Haiti, o poder público virtualmente desapareceu após o terremoto. Dê-se o desconto devido ao fato de que só sobrou de pé um ministério. Nem mesmo o palácio presidencial resistiu. Mas, se houvesse, antes, um Estado minimamente organizado, ele voltaria a funcionar, com inevitáveis limitações, assim que a ajuda estrangeira transformou o aeroporto da capital em centro operacional.
Repito o que disse Miguel Ángel Herrero, diretor-regional da ONG Intermón-Oxfam para a América Central e o Caribe, após o desastre haitiano: "Ninguém pode evitar um terremoto como o que ocorreu, mas podemos, sim, fazer algo para reduzir a vulnerabilidade de quem tem que viver com esse perigo".
As vulnerabilidades, no Haiti, eram -e são- infinitamente maiores do que no Chile. Como diz Herrero, "a pobreza atrai o desastre". É cruel, mas é um fato: em qualquer desastre natural, os mais pobres são sempre as maiores vítimas. E não há, nas Américas, maior número de pobres, em relação à população, do que no Haiti.

Valparaíso se apaga; Concepción enfrenta saques


Por todo o Chile, as cenas de tensão durante e após o tremor se repetiram, mas com efeitos diferentes -alguns dos mais graves em Concepción, 500 km ao sul de Santiago, que enfrentou ontem um toque de recolher devido aos saques.
Às 3h44 da madrugada de anteontem, a reportagem da Folha sentiu o chão do bar/restaurante de Valparaíso (a 120 km de Santiago) começando a tremer, dando a impressão inicial de que em um determinado momento todas as pessoas que estavam no local haviam começado a dançar a um só tempo.
Em alguns poucos segundos, a natureza do ocorrido começou a ficar clara. Foi quando todos os presentes, em desespero, tomaram o rumo da rua, já repleta dos turistas e nativos que haviam tido o mesmo impulso e saído às pressas de estabelecimentos contíguos.
A cidade se apagou. E todos os bares que fazem do local um dos mais frequentados pontos de atividade noturna da turística cidade litorânea foram fechados. Aglomerados, atônitos e em meio a correria desenfreada, jovens e adolescentes na maioria disputavam táxis para retornar a hotéis e residências.
Junto com a luz, caiu a comunicação, agravando a sensação de desamparo. Em meio à confusão, pessoas choravam, e quem parecia melhor entender a situação eram os nativos, menos desacostumados a abalos.
A pé, a reportagem da Folha retornou ao hotel, localizado nas proximidades, por ruas escuras e vazias. Apenas pela manhã foi possível ter compreensão de que a cidade e o país haviam sofrido um terremoto.
Apesar dos momentos de desespero presenciados, as marcas da destruição em Valparaíso eram poucas, resumindo-se a algumas fachadas destruídas.
Até o fechamento da estação rodoviária, pessoas disputavam as últimas passagens para Santiago. No caminho, percorrido em cerca de uma hora e meia -tempo usual para o trajeto-, poucos sinais do tremor, e nenhum desvio na estrada.
A viagem de Santiago a Concepción, que durou oito horas, teve cenário diferente. Na estrada, mais de dez desvios causados por desníveis e quedas de pontes atrasaram a viagem.
A comunicação era escassa, e a cidade estava sem luz ontem à noite -todos os semáforos estavam desligados e não havia internet disponível. À tarde, as pessoas saqueavam abertamente postos de gasolina, levando combustível para casa em garrafas pet. Também quebravam cadeados em lojas. A polícia parecia não se importar. Mas às 21h, começou o toque de recolher, garantido por mais de 1.300 militares que se espalharam por ruas desertas.

País foi cenário, em 1960, do mais forte sismo já registrado


Tremor de 9,5 graus na escala Richter matou então 1.655 pessoas do Chile até o Japão, o Havaí e as Filipinas, atingidos por tsunamis
"Tradição sísmica" está na raiz do relativamente baixo número de mortos e de uma recuperação que será, para analistas, pouco traumática

Assolado anteontem pelo quinto maior terremoto desde pelo menos o século 20, o Chile ostenta ainda na sua história o maior abalo sísmico já registrado em todo o mundo. No dia 22 de maio de 1960, tremor de 9,5 graus na escala Richter matou 1.424 pessoas no país e devastou região próxima à que foi seriamente atingida desta vez.
Segundo registro do Centro de Pesquisa Geológica dos EUA, que mantém um histórico dos maiores terremotos do mundo, o apocalíptico choque sísmico devastou a cidade de Valdivia -850 km ao sul da capital-, deixou 2 milhões de desabrigados e até 3.000 feridos.
O tremor provocou tsunamis que vitimaram 138 pessoas no Japão, onde chegou um dia depois, 61 no Havaí (EUA) -que registrou ondas de até 10,6 metros- e 32 nas Filipinas, além de causar danos materiais na Costa Oeste americana.
No Chile, grande parte das mortes decorreu também de ondas que chegaram a 11,5 metros na cidade de Puerto Saavedra, onde escombros de construções foram arrastados por 3 km continente adentro, e a oito metros na cidade de Corral.
Dois dias depois da tragédia, um vulcão nos Andes entrou em erupção, fenômeno atribuído à forte movimentação sísmica que precedeu e sucedeu o terremoto. Abalos secundários foram sentidos por todo o ano.
A dimensão da catástrofe contribuiu para que o Chile, um dos países com maior histórico de tremores do mundo, reforçasse as condições de segurança antissísmica, estabelecendo códigos estritos para construção civil e um sistema de socorro para eventos dessa natureza.
A "tradição sísmica" faz especialistas preverem um caminho muito menos traumático que o do Haiti. Apenas horas depois do terremoto, que em Santiago atingiu 7 graus, a infraestrutura elétrica e de comunicações voltava ao normal em vários pontos. O aeroporto da capital, fechado após o tremor, operava ontem "voos excepcionais" e deve reabrir em até 48 horas.
Segundo a empresa americana de avaliação de risco Eqecat, os danos materiais podem chegar a US$ 30 bilhões, o equivalente a 15% do PIB do Chile.

Fonte: Folha de São Paulo - 01/03/10

Saques se disseminam por Concepción


Após tremor, segunda maior cidade do país registra saldo de um morto e 160 pessoas detidas durante toque de recolher
Para conter saqueadores, presidente anuncia envio de 7.000 soldados; segundo ela, terremoto de 8,8 graus foi "enorme catástrofe"

Dois dias após o terremoto de 8,8 graus que atingiu o Chile, deixando ao menos 723 pessoas mortas, o Exército tentava restaurar a ordem em Concepción. A cidade foi uma das mais atingidas pelo tremor e palco de saques feitos por quem tenta garantir o que comer.
Um toque de recolher foi imposto às 21h de domingo, mas não houve obediência imediata da população. Muitas pessoas carregavam livremente bens retirados de supermercados e lojas do centro.
Foi somente por volta das 22h que a polícia começou a rondar, anunciando o toque de recolher em alto-falante e abordando os transeuntes.
Nos bairros residenciais, moradores fizeram trincheiras na entrada das ruas para se proteger de possíveis saques.
Durante o toque de recolher, 160 pessoas foram detidas, e um homem foi morto por disparo de arma de fogo.
Às 7h de ontem, a fila de carros para comprar combustível num posto fora da cidade chegou a 1 km. No centro, a polícia coordenava a venda e havia limite de 20 litros por pessoa.
Pela manhã, a polícia não conseguia deter saques e usou gás lacrimogêneo contra dezenas de pessoas que tentavam saquear um supermercado. No confronto, os saqueadores atearam fogo ao prédio e a uma loja de departamentos vizinha.
Os bombeiros resgataram uma pessoa em chamas do interior do complexo comercial.
"Aqui estão saqueando inclusive os quartéis", disse o comandante do Corpo de Bombeiros de Concepción, Jaime Jara. Segundo ele, os vândalos buscavam água e gasolina. A corporação deixou de atender emergências enquanto a segurança dos profissionais era revista. "Compreendemos que as pessoas precisam comer, mas saquear hospitais e consultórios... O que faremos para atender nossa gente?", disse Jara.
À tarde, a presidente chilena, Michelle Bachelet -que classificou o terremoto como uma "enorme catástrofe"- anunciou a mobilização de 7.000 soldados, que chegarão hoje à região. Segundo ela, eles irão se somar aos mais de mil militares que já estão na cidade.
Enquanto as forças de segurança tentam restaurar a ordem em Concepción, continuam as buscas por sobreviventes em meio aos escombros de prédios que desabaram.
Equipes de resgate conseguiram ouvir o som feito por pessoas presas num edifício de 70 apartamentos, que ruiu com o tremor. Os trabalhos de perfuração das paredes tiveram início imediatamente. Bombeiros conseguiram tirar dos escombros 25 pessoas e nove corpos.
Concepción, a segunda maior cidade chilena, continuava sem eletricidade. Água era um item escasso -a população recolhia o líquido de uma fonte usando baldes e garrafas.
Um pequeno avião que se dirigia à cidade para verificar o estado de albergues caiu, matando os seis tripulantes.

Caminho para o sul é retrato da devastação


De um lado, poucos veículos civis e muitos militares. Do outro, um gigantesco congestionamento de carros. A estrada que liga Santiago a Constituición, a cidade com maior número de mortos (356) no terremoto do último sábado no Chile, era ontem um retrato das consequências do desastre.
Ao iniciar o percurso de 380 quilômetros rumo ao sul, no início da tarde de ontem, a Folha se deparou com uma pista quase livre. Nos primeiros 60 quilômetros percorridos, apenas outros 45 carros foram avistados. O contraste com a imagem do lado contrário era total.
Um comboio de 11 tanques e 13 caminhões do Exército chileno tambem seguia em direção à área em que o governo Michelle Bachelet decretou "exceção constitucional por catástrofe". A medida permitiu instituir toque de recolher e entregar às Forças Armadas a segurança da cidade, que anteontem convivia com ameaça de convulsão social.
Apesar de leve, o tráfego avançava lentamente rumo a Constituición. Havia desvios na estrada devido a quedas de pontes e estreitamentos de pistas em trechos em que o asfalto ruiu. A cobrança de pedágios foi suspensa diante dessas condições.
No caminho, o rádio informava que o fornecimento de energia ainda não tinha sido restabelecido em Constituición, mais de 60 horas após o terremoto. Tampouco havia retornado o fornecimento de água. A comunicação por telefone fixo inexistia.
Quanto mais a reportagem se aproximava da cidade, mais drásticos eram os rastros deixados pelo terremoto. Do que até a madrugada de sábado era uma extensa ponte sobre um rio, restava apenas a pilastra central despida de braços de concreto -um palito solto no ar.

Efeitos do sismo não devem afetar rumo da economia chilena


Embora o Chile ainda calcule os prejuízos causados pelo terremoto de sábado, os efeitos do sismo no sistema produtivo local devem se concentrar no primeiro semestre do ano, sem interromper a trajetória de recuperação da economia, uma das mais sólidas da América Latina.
Para especialistas consultados pela Folha, a injeção de recursos públicos e privados necessária para a reconstrução do país ajudará a manter a atividade. A boa situação fiscal e uma regra que permite ao governo gastar até 2% a mais do que o previsto no Orçamento em situações excepcionais também pesam a favor do país.
"Os impactos negativos na economia vão se refletir no primeiro trimestre. À medida que empresas e governo começarem a injetar recursos para repor a infraestrutura haverá um impacto positivo", disse o economista Alejandro Fernández.
A dimensão do esforço de reconstrução opõe o governo que sai ao que chega. O presidente eleito, Sebastián Piñera, que assume no dia 11, estimou esse custo em US$ 30 bilhões -ou cerca de 15% do PIB chileno.
A estimativa de Piñera coincide com número da consultoria americana Eqecat, especializada em desastres naturais, descartado ontem pelo atual ministro da Fazenda, Andrés Velasco. "É um número que vem do exterior, de empresa que tem um modelo puramente teórico, sem nenhuma informação de campo", afirmou.
Com uma economia dependente da exportação de matérias-primas como o cobre, o Chile foi atingido em cheio pela crise mundial -estima-se que o PIB tenha caído 1,8% em 2009. Mas a adoção de políticas de incentivo e a recuperação do preço do cobre ajudaram a tirar o país da recessão -as apostas são de avanço de até 5,5% no PIB em 2010.
Além da infraestrutura logística, como estradas, portos e redes de telecomunicação, o sismo afetou setores-chave da economia -há, por exemplo, relatos de vinícolas destruídas. Mineradoras de cobre interromperam atividades por cortes de energia.
Mas mesmo que precise de US$ 30 bilhões para se reerguer, o Chile pode pagar metade desse valor com recursos de seus fundos soberanos, alimentados por uma regra de superavit estrutural que obriga o país a economizar até 1% do PIB quando a economia vai bem.
"Para arcar com o resto, o país tem como se endividar", afirma o economista Óscar Landerretche. A dívida pública chilena está em 9% do PIB -no Brasil, esse índice é de 47%.

Fonte: Folha de São Paulo - 02/03/10

23 fevereiro, 2010

A OEA autônoma conquistou seu espaço

A OEA autônoma conquistou seu espaço

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A OEA plural está emergindo como referência política. Assim, soa estranha a concepção dos que querem uma instituição "alinhada"
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Nos últimos dias temos visto algumas opiniões críticas serem expressas com relação à Organização dos Estados Americanos, personalizadas na figura de seu secretário-geral, José Miguel Insulza.
O objetivo das críticas é, sem dúvida, bloquear a possibilidade de Insulza ser reeleito para seu cargo.
O que lemos - relatórios apresentados ao Senado dos EUA, informes de opinião, entrevistas - revela apenas a ponta do iceberg. Mais importante foi o que ficou invisível: as pressões que certos setores da política norte-americana e seus aliados mais tradicionais exercem, dentro e fora de seu país, sobre compatriotas e estrangeiros visando evitar a reeleição.
Os argumentos usados na crítica são fracos e pouco coerentes com os objetivos que se pretendem defender.
Na verdade, o ataque a Insulza não expressa uma polêmica sobre a melhor forma de defender a democracia - antes, é uma forma de luta para ocupar posições de poder.
Um primeiro argumento procura demonstrar que o secretário-geral da OEA não defende a democracia com eficácia e que seu viés ideológico - socialista - o leva a perdoar os erros dos amigos e exagerar os dos adversários.
As lições de democracia são francamente irritantes para os que sofreram ditaduras que mataram e torturaram, para os que foram perseguidos e tiveram que passar boa parte de suas vidas no exílio, para os que fizeram política lutando contra as ditaduras, para os que não herdaram a democracia, mas lutaram para conquistá-la.
Mais ainda quando essas acusações são feitas por pessoas que não manifestaram receios semelhantes em cultivar boas relações com os regimes autoritários do mundo.
Assim como os críticos que acusam Insulza não sabem defender a democracia, eles esquecem que ele foi perseguido pela ditadura por 17 anos, que foi gestor dos consensos no Chile e um dos principais arquitetos da transição e da complexa busca de equilíbrios entre direitas e esquerdas.
Há pouco mais de dois anos, Insulza apresentou para o Conselho Permanente da OEA uma agenda para a discussão da Carta Democrática. Nela se insinuava a ideia de que as ameaças à democracia são mais amplas do que as que existiam em décadas passadas.
Antes, o risco era a destituição dos presidentes. Hoje, podem ser o cesarismo, a pobreza, um Poder Executivo que avança sobre os outros Poderes ou sobre a própria sociedade. A sugestão de debater a questão não foi levada adiante. Apesar disso, alguns acusam o secretário-geral de não se preocupar com o desempenho dos governos democraticamente eleitos.
A impressão que se tem é que o problema é outro. Hoje, a OEA existe politicamente na América Latina e é vista como ator político. Até agora, para muitos países, a organização era a extensão da política externa de um de seus Estados-membros e, assim, sua voz não era levada em conta.
Nesse contexto, soa estranha a concepção daqueles que -em nome da promoção da democracia- querem uma OEA absolutamente alinhada, mesmo que o preço para isso seja a irrelevância da instituição. É difícil entender a utilidade de controlar uma voz que não é ouvida. A não ser que o objetivo real seja evitar que uma voz plural e crescentemente independente ocupe um espaço político na região.
A OEA plural, que recebe críticas da direita e da esquerda (alguns esquecem os epítetos lançados contra Insulza por personagens da região que, segundo os relatórios críticos, seriam seus "protegidos"), está emergindo como referência política. Ela vem levando adiante dezenas de missões eleitorais sem que um único país (nem governo nem oposição) tenha feito objeções ao trabalho da organização. Vem mediando processos de crises políticas, como na Nicarágua, salvando a paz e encaminhando o país em seu processo institucional. Vem atuando de modo preventivo, com discrição, em muitas situações delicadas, evitando a escalada de conflitos.
Essa é uma organização que trabalha sobre a base do consenso. A maior parte de suas decisões é tomada por acordos unânimes. É difícil adotar decisões operacionais com a concordância de todos, mas, quando se consegue, essas decisões têm força e legitimidade. Talvez seja o caso de discutir algumas questões novamente, mas em nenhum caso se pode ignorar essa prática essencial da OEA.
Insulza soube criar uma direção política em um sistema multilateral no qual a prática é conseguir, na medida do possível, a concordância de todos. Chama a atenção o fato de que os que têm anos de atividade política não tenham destacado a conquista que isso representa: tomar decisões sem a discordância de nenhum membro e que, além disso, sejam práticas.
A OEA autônoma, reflexo da pluralidade de seus Estados-membros, conquistou definitivamente um espaço na região. Hoje ela pode fazer mais pela democracia porque não obedece às ordens de ninguém, mas soube construir consensos no território imensamente difícil das diferenças e rivalidades políticas.

Fonte: Folha de São Paulo - 23/02/10
Autor: DANTE CAPUTO é ex-ministro das Relações Exteriores da República Argentina (1983 e 1989) e ex-secretário de Assuntos Políticos da OEA (2005 a 2009).

20 fevereiro, 2010

Estados Unidos: o primeiro ano de Obama

Estados Unidos: o primeiro ano de Obama


Ao completar o primeiro ano de mandato, as comparações entre a gestão de Barack Obama e a de seus predecessores, especialmente os vinculados ao Partido Democrata, são inevitáveis.
Ainda que pouco mais de doze meses de desempenho sejam escassos para avaliar uma administração, eles fornecem, no entanto, indicativos suficientes para identificar-se o norte adotado por um presidente.
No presente caso, verifica-se que a decepção ainda não superou totalmente a esperança, voltada, na mensagem democrata, para uma larga mudança, ou, ao menos, a tentativa de efetivá-la de maneira inexorável – excetuem-se, sem sombra de dúvida, os esforços direcionados para a aprovação de uma reforma na área de saúde, tema em que se debruça o seu partido de modo baldado desde Jimmy Carter.
Se positiva a opinião, cotejam-no com Franklin Roosevelt, em termos de reestruturação social em tempos de crise, ou com John Kennedy, em dinamismo e jovialidade; se negativa, com Lyndon Johnson, em termos de condução inepta de uma confrontação, ou com Jimmy Carter, em uma administração interna incapaz.
Na política externa, embora a apresentação se mostre distinta da do seu simplório predecessor, a execução não se alterou. Houve contatos iniciais com Irã, China, Rússia e Israel com o objetivo de distensionar determinadas questões, porém não se conseguiu a obtenção, até o momento, de um encaminhamento satisfatório para todos os envolvidos.
Ao eleitor americano, a sua primeira preocupação refere-se à política econômica, tendo em vista a preservação de seu emprego que traz consigo, em muitos casos, benefícios indiretos, como plano de saúde ou fundo de aposentadoria privado, por exemplo.
Ao chegar à Casa Branca, duas responsabilidades de porte assomaram no horizonte democrata: a econômica, em razão da falência de uma boa parte do segmento imobiliário e financeiro no final do mandato de Bush, e a externa, em vista das duas campanhas na região médio-oriental e cercanias.
Na primeira, ao longo do processo eleitoral, Obama manifestou a sua discordância no tocante ao teor da lei Gramm-Leach-Bliley, de novembro de 1999, que havia permitido desregulamentar o setor financeiro, ao revogar parcialmente uma legislação decorrente do primeiro mandato do presidente Franklin Roosevelt.
Naquele tempo, a contenção da cupidez do setor financeiro e o estímulo a obras de infra-estrutura proporcionariam aos democratas a vitória na eleição parlamentar de 1934.
Nos anos 30, o objetivo da Lei Glass-Steagall havia sido o de reduzir a especulação financeira, uma das responsáveis pela derrocada econômica de 1929. A partir de 1980, quando da ascensão neoconservadora nos Estados Unidos - sacramentada na eleição presidencial do final daquele mesmo ano -, o seu conteúdo foi sendo progressivamente desarticulado.
Quase duas décadas depois, as fusões de porte entre grupos de investimentos e de bancos foram novamente facultadas, o que propiciou a moldura para a crise de 2008, amenizada graças à boa disposição da Casa Branca em arcar com parte considerável do prejuízo – mais de 500 bilhões de dólares –, a fim de restringir os efeitos adversos.
Curiosamente, ambas as alterações ocorreram durante presidências democratas, na parte final de suas gestões.
No momento de uma derrocada financeira de porte, como a de 2008, os grãos sacerdotes neoliberais normalmente interrompem a idolatria de seu bezerro de ouro - o mercado – e direcionam, de maneira momentânea, porém fervorosa, as suas preces e, por conseguinte, a sua esperança ao Estado.
De forma quase miraculosa, este os atende, sendo-lhes o seu guardião protetor, a despeito do menosprezo sacerdotal a ele empenhado na maior parte do tempo.
Ao assumir o posto presidencial, Obama alterou à primeira vista o seu posicionamento de questionamento, ao convidar para integrar a área econômica antigos colaboradores de Clinton que, na época, haviam sido favoráveis à Lei Gramm. Entre eles, destaque-se Lawrence Summers, titular da Fazenda entre 1999 e 2001.
Na segunda, durante a campanha, Obama demonstrou a sua insatisfação relativamente não só às duas guerras, disseminada ao correr do processo eleitoral, mas ao tratamento jurídico dispensado aos prisioneiros, excluídos de modo arbitrário das convenções de Genebra por uma interpretação capciosa da área jurídica governamental.
A elucidação heterodoxa do status dos cativos afegãos e mais tarde iraquianos possibilitou às forças armadas a aplicação cotidiana de técnicas de interrogatório outrora consideradas abusivas, como afogamentos ou privação de sono, por exemplo.
Transcorrido 1\4 de sua administração, não há mudança de curso na política externa. Diante do presente quadro, a oposição republicana aproveita a inação administrativa em vários segmentos e acusa o governo de tibieza ante os grandes problemas.
Evoca como contraposição à inatividade democrata o dinamismo da gestão Reagan, a qual em seu primeiro semestre conjugou ações em que se reduziram os gastos sociais e ampliaram-se os militares, não obstante desfrutar de maioria – estreita – no Senado apenas.
Deste modo, a importância do primeiro ano de mandato de um administrador presidencial decorre da convergência política maior entre o eleito e o eleitor no tocante à materialização das expectativas compartilhadas entre si durante a campanha eleitoral.
Logo depois, o cotidiano de um homem de Estado à frente do poder consome-lhe desproporcionalmente a energia, mesmo a criativa, em vista da amplitude de tarefas a que deve se dedicar, ainda que boa parte delas de características comezinhas, como, por exemplo, cerimônias protocolares.
À medida que o tempo se esvai, há no dirigente uma transição na sua vontade política que se desloca da determinação original de governar diferentemente para a acomodação, isto é, de manter-se na mesma rota administrativa, a despeito de ela não ser a mais adequada para a maior parte da população.
É em tal processo que a oposição demonstra a sua capacidade de revigorar-se, ao espezinhar a quietação administrativa da situação. Nesse sentido, os republicanos tentam apresentar à população um quadro de incompetência dos democratas; na eleição legislativa do presente ano, poder-se-á constatar em que medida a população enxergará de maneira positiva a imagem contornada pela oposição.

Fonte: Correio da Cidadania - 20/Fevereiro/2010
Autor: Virgilio Arraes

31 janeiro, 2010

Os Infernos de Obama

Os Infernos de Obama

Sem acordo sobre Honduras: Arturo Valenzuela, o novo secretário assistente do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o hemisfério ocidental, visitou o Brasil em 14 de dezembro, com o objetivo de forçar um acordo sobre o futuro de Honduras. Queria que o governo brasileiro endossasse a farsa eleitoral, em 29 de novembro, que conduziu Porfírio Lobo à presidência (segundo informações não confirmadas, Lobo é associado ao grupo católico fundamentalista Opus Dei). Ou que, pelo menos, emitisse uma declaração para atenuar sua condenação total ao processo. Valenzuela saiu de mãos abanando. Marco Aurélio Garcia, assessor para a política externa do presidente Luís Inácio Lula da Silva, tentou atenuar as discrepâncias em suas declarações à imprensa, mas reiterou a posição brasileira.
Sinal dos tempos: historicamente, Honduras sempre foi a típica “república de bananas”. Está sob intervenção militar dos Estados Unidos desde 1904, quando marines foram convocados para esmagar uma revolta de camponeses contra o regime de superexploração da mão de obra imposto pela sinistramente famosa United Fruit e outras empresas que exploravam cultivos tropicais. Ao longo da Guerra Fria, e em particular nos anos 80, Honduras era conhecida como o “porta aviões não naufragável dos Estados Unidos”, pois o seu território era livremente utilizado pela CIA e por militares ianques para combater movimentos “inimigos”, como o governo sandinista da Nicarágua e a luta revolucionária em El Salvador. Hoje, Washington mal consegue articular um golpe de Estado em Honduras. É um fiasco.
A “ala combativa” dos governos latino-americanos (Venezuela, Bolívia, Argentina, Paraguai, Equador, Nicarágua e, claro, Cuba) condenou inequivocamente o golpe, ao passo que os governos vassalos (sobretudo, México e Colômbia) se calaram, para em seguida reconhecerem o resultado da farsa eleitoral. A posição do Brasil, nesse contexto, tornou-se muito importante para Washington. A manifestação favorável de Brasília poderia compensar a condenação pela maioria esmagadora dos governos do hemisfério ocidental. Mas Lula, ao menos até o momento, não cedeu.
E os atritos com Valenzuela não se limitaram a Honduras. O emissário de Obama foi obrigado a ouvir de García que o Brasil tampouco aprova a recém-assinado acordo de Washington com Bogotá, que permite aos Estados Unidos manter centenas de soldados e civis em até dez bases militares daquele país, pelos próximos dez anos. No auge da “crise das bases”, Lula pediu a Obama que explicasse o acordo numa reunião de cúpula da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas). Obama não aceitou. Finalmente, outro ponto da conversa girou em torno da visita ao Brasil, em novembro, do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A recepção oferecida por Lula produziu ataques histéricos por parte da secretária de estado Hillary Clinton.
Independentemente das razões que levam o governo Lula a assumir uma posição de resistência ao imperialismo estadunidense, quando já cedeu tantas vezes ao longo dos últimos seis anos, o fato é que Washington enfrenta dificuldades inéditas para manter a lógica da Doutrina Monroe. Desde 1823, quando o presidente James Monroe anunciou a sua doutrina, o hemisfério sul é tido como uma espécie de “quintal” dos Estados Unidos, sua “área de influência”, fora do alcance das outras potências colonialistas. O único país que desafiou a doutrina e conseguiu manter a sua soberania foi a pequena ilha cubana (e por isso não é perdoada por Washington). Até anteontem, a hegemonia estadunidense absoluta. Há menos de duas décadas, a Casa Branca pôde ordenar a invasão de Granada (1983) e a do Panamá (1989) sem encontrar qualquer resistência. Hoje, até mesmo o governo Lula, saudado por Obama como alguém “da turma”, enfrenta com palavras e atos a petulância ianque.
A Doutrina Monroe agoniza, e este é um dado central, especialmente numa conjuntura mundial em que a disputa pelo controle das reservas de petróleo, minérios, água e biodiversidade tende a ser um marco determinante do século 21. A agonia da Doutrina Monroe, com o conseqüente alargamento das fissuras entre governos latino-americanos e Washington, abre a possibilidade do desenvolvimento do movimento de massas, em escala jamais vista (como já foi anunciado pelo papel de liderança dos povos originários). Além disso, o enfraquecimento da hegemonia estadunidense na região abre o espaço para o surgimento de alianças e diálogos até há pouco impensáveis (por exemplo: o diálogo entre Venezuela e Irã, ou mesmo a relativa autonomia com que o Brasil recebeu o presidente iraniano).
Mas afirmar que a Doutrina Monroe agoniza não significa, de modo algum, que ela deixou de existir, ou que seus estertores serão breves. Ao contrário. A agonia do Império Romano durou dois séculos, pelo menos, e produziu muitas mortes e sofrimento. Washington não entregará facilmente a rapadura, e tanto o acordo com a Colômbia, a “ressurreição” da Quarta Frota, também denunciada por Lula, e o próprio golpe em Honduras são claros sinais disso.
Sob Obama, a política imperialista dos Estados Unidos mantém toda a agressividade exibida sob George Bush. A diferença é o sorriso na cara. Obama acaba de ser agraciado com o Nobel da Paz, uma indicação muito forte de que os governantes europeus tentam reunificar a “sagrada aliança” com os Estados Unidos, única potência capaz, hoje, de assegurar as condições minimamente necessárias ao funcionamento do capitalismo. A permanência da OTAN, uma aliança militar que, formalmente, perdeu sua função com o fim da Guerra Fria, é a expressão militar da “sagrada aliança” contemporânea.
Obama quer comprometer ainda mais as forças da OTAN – isto é, das potências europeias centrais, incluindo Alemanha, França e Inglaterra – no Afeganistão, como usa a OTAN como ponta de lança contra a Rússia, encarada pela Casa Branca como grande rival pelo controle da Eurásia. As tentativas de incorporar a Ucrânia e a Geórgia, bem como os acordos militares com a Polônia e a ofensiva contra o Irã são expressões dessa política, que, aliás, não é nova: foi anunciada, em 1992, por Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de segurança nacional do governo Jimmy Carter, no livro “The Big Chessboard – American Primacy and its Geoestrategic Imperatives”.
Mas a reviravolta na América Latina não estava nos planos de ninguém. Nem mesmo Brzezinski, com toda a sua inegável capacidade de estrategista, pôde detectar esse “pequeno imprevisto”: os povos da América Latina, incluindo a pequena Honduras, são capazes de dizer não. Trata-se de uma dessas peças que, de vez em quando, a luta de classes prega nas potências hegemônicas, permitindo que o improvável se torne possível.
Obama já enfrenta o inferno no Afeganistão. Ele que se cuide na América Latina.
Fonte: Revista Caros Amigos - Janeiro 2010
Autor: José Arbex Jr.

15 janeiro, 2010

Eua - América Latina

EUA-AMÉRICA LATINA: mais continuidade do que mudanças

Washington, 08/01/2010, (IPS) - O governo de Barack Obama não mudou a forma habitual que os Estados Unidos têm de se relacionar com a América Latina e as esperanças surgidas nesse sentido quando assumiu há quase um ano se desfizeram.

A pior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 30, uma forte batalha legislativa pela reforma do sistema de saúde e as duas guerras na Ásia herdadas de seu antecessor, George W. Bush, deixaram pouco tempo a Obama para ocupar-se das relações com os vizinhos ao sul de sua fronteira, após ter iniciado a sua presidência no dia 20 de janeiro de 2009.

Várias de suas nomeações mais importantes, como as de Artulo Valenzuela para subsecretário de Assuntos do Hemisfério Ocidental e Thomas Shannon para embaixador no Brasil, demoraram meses para serem confirmadas porque senadores republicanos pressionavam para bloquear a volta ao poder do presidente de Honduras Manuel Zelaya. A ala mais direitista do opositor Partido Republicano vê o mandatário institucional hondurenho, deposto em 28 de junho por um golpe cívico-militar, como aliado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um adversário frontal das políticas de Washington.

Embora Obama tenha tido um começo promissor quando prometeu buscar uma “relação baseada no respeito mutuo”, durante a Cúpula das América, realizada em abril em Trinidad e Tobago, Washington manejou de maneira torpe vários assuntos relacionados com a região, o que contribuiu com a crescente desilusão com sua gestão. Mais recentemente, o governo repentinamente deixou de reclamar, ao contrário da quase totalidade dos governos latino-americanos, a reincorporação de Zelaya ao poder antes das eleições de novembro em Honduras.

Os Estados Unidos tampouco consultaram nem tranqüilizaram com antecedência os países da América Latina sobre um novo tratado com a Colômbia, que dá a Washington acesso por 10 anos a sete bases militares nesse país.

“A mudança radical do governo com relação ao reconhecimento da legitimidade das eleições em Honduras antes da restituição de Zelaya parece ter a ver mais com a pressão dos republicanos no Senado para confirmar Valenzuela” em seu cargo, disse Cynthia Arnson, do Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson. “O caso da Colômbia teve mais a ver com um processo profundamente inadequado de consultas e análises com os aliados regionais”, acrescentou Arnson, diretora do departamento latino-americano desse centro de pesquisa com sede em Washington.

Nos dois casos, Washington ficou isolado da maioria do resto do hemisfério, especialmente do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, com Zelaya refugiado desde setembro na embaixada do Brasil. Obama cortejou ostensivamente Lula como o sócio mais importante de Washington na América do Sul, a quem definiu como “meu homem” e o “político mais popular da Terra” na Cúpula dos 20 realizada em Londres no mês de abril. Mas, o mandatário brasileiro acusou recentemente seu colega norte-americano de “ignorar a América Latina” e descumprir as promessas assumidas em Trinidade e Tobago.

“Obama começou com a intenção de forjar uma associação realmente estratégica com o Brasil”, segundo Geoff Thale, do Escritório não-governamental de Washington sobre a América Latina. “Mas, o manejo incorreto da crise em Honduras e o tratado das bases na Colômbia, cujas consequências precisas para a região continuam sem esclarecimento, apesar dos esforços da Casa Branca para tranqüilizar seus governos, causaram um sério atrito e prejudicaram a relação bilateral”, afirmou Thale.

Além desses problemas, o governo Obama tampouco se ocupou dos problemas que mais perduraram em suas relações com a América Latina. Teve vários gestos conciliatórios em relação a Cuba, mas não chegou a levantar o embargo comercial, detestado quase universalmente, nem normalizou as relações com havana, como esperavam muitos de seus partidários nos Estados Unidos e a região.

Obama “afastou-se da política de Bush ao restabelecer as viagens para Cuba, conceder vistos a alguns artistas e reiniciar as negociações sobre política migratória”, disse Sarah Stephens, diretora do Centro pela Democracia nas Américas. “Mas manteve grande parte da essência de Guerra Fria de nossa política, como todos os presidentes desde Eisenhower (o general que governou o país entre 1952 e 1961) e, como o resto, não tem o que mostrar”, destacou.

“Embora Cuba não seja muito importante para os Estados Unidos estrategicamente, simbolicamente é tremendamente importante para a América Latina, muita gente da região esperava que Obama, mesmo sem por fim ao embargo, ao menos desse passos significativos nessa direção. O que vemos é muito pouco e muito limitado. A mensagem para a região é que não mudou muito desde Bush”, disse Thale.

Tampouco mudou a política de Washington quanto à Colômbia, de longe o maior receptor da ajuda estrangeira norte-americana, nem a “guerra contra as drogas” que os Estados Unidos realizam principalmente nos países andinos, embora também cada vez mais no México e na América Central. Tão logo chegou à Casa Branca, Obama reconheceu expressamente que se deveria dar maior prioridade à redução da demanda de drogas nos Estados Unidos, uma opinião que respeitados ex-presidentes de Brasil, Colômbia e México compartilharam em uma declaração pública feita em fevereiro.

“Mesmo reconhecendo o lado da demanda do problema, parece que continuamos combatendo pelo lado da oferta”, afirmou William LeoGrande, especialista em América Latina e decano da Escola de Governo da American University, em Washington. “O problema real é qual a estratégia de longo prazo que mude o objetivo de tentar deter a oferta para reduzir a demanda? Porque há quase meio século combatemos a guerra pelo lado da oferta, é está bastante claro que estamos perdendo”, acrescentou.

A reforma das leis de imigração nos Estados Unidos, outro fator de irrigação nas relações com a América Latina, foi deixada de lado por prioridades nacionais mais urgentes. Parece pouco provável também que o tratado de livre comércio com a Colômbia seja levado para ratificação no Congresso neste ano de eleições legislativas parciais, embora esteja pendente há tempos e alguns o consideram outra prova-chave do compromisso de Washington com a região.

“O governo Obama ainda não deixou sua marca nas relações hemisféricas simplesmente porque está afogado por outras crises e prioridades”, disse Arnson. Houve “uma continuidade significativa na prática”, apesar da “profunda mudança no tom e o estilo diplomático, a favor de uma estratégia de maior colaboração”, acrescentou.

Entretanto, LeoGrande vê um problema estrutural maior. “Cada governo que chega promete política nova para a América Latina e nenhum, com exceção de Ronald Reagan (1981-1989) a teve. Todos tiveram de lidar com problemas muito mais graves em outras áreas do mundo”, afirmou. “Assim, a política para a América Latina está em uma espécie de piloto automático, porque os principais funcionários não têm tempo para se dedicar a ela, e os subsecretários não têm autoridade para adotar mudanças fundamentais”, acrescentou. (IPS/Envolverde)
 
Jim Lobe - http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net

04 janeiro, 2010

Imperialismo - José Arbex Jr.

Imperialismo cria o seu universal soldier

Em plena crise, o sistema capitalista mundial encontrou o seu universal soldier, o representante maior dos “valores democráticos ocidentais”, em nome dos quais torna-se palatável a “guerra sem fronteiras” contra o terror, a prática de invasões militares e de matanças indiscriminadas, a intervenção em qualquer parte do planeta. Barack Obama, agraciado com o Nobel da Paz, é o “imperialismo de face humana”, mais ou menos como, nos anos 60, John Kennedy, responsável pela escalada da Guerra do Vietnã, era o ícone glamourizado da barbárie. Obama, aliás, já tem o seu próprio Vietnã: após o gigantesco fiasco no Iraque, a Casa Branca sabe que tampouco pode vencer a Guerra do Afeganistão, como não puderam, antes dela, os impérios britânico e soviético. Pior: a guerra já ultrapassou as fronteiras afegãs e envolve diretamente o Paquistão, país dotado de arsenal nuclear. Apesar disso, Obama estuda o possível envio de novos 60 mil soldados ianques para a região.
Um ano após a sua eleição à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama mantém, fundamentalmente, a mesma política externa de George Bush, exceto pelo fato de que o atual presidente, ao contrário do troglodita que o antecedeu, aceita manter o diálogo com os governos “aliados” europeus. Obama tem consciência do valor ideológico e estratégico da Otan, uma aliança que perdeu a sua razão de ser com o fim do “bloco socialista” e da Guerra Fria, mas que se mantém como guardiã dos interesses imperialistas dos Estados Unidos e da Europa dita ocidental (particularmente, Grã-Bretanha, Alemanha e França). Como ícone da “sagrada família” imperialista ocidental,
Obama faz manobras provocadoras contra a Rússia (sede do império euroasiático eslavo) e cria áreas de atrito até mesmo com a superaliada China. As ameaças de punição contra o Irã e a Coréia do Norte fazem parte desse jogo, assim como a tentativa de instalar mísseis da Otan em antigos países do Leste europeu, na fronteira com a Rússia.
Mas o universal soldier Barack Obama sabe promover a escalada com a fala mansa e jeito soft.
Numa reunião de cúpula do Oriente Médio, realizada em junho, no Cairo, Obama inicia o seu discurso em árabe, com a tradicional saudação As-Salam Aleikum, e compromete o seu governo com a criação de um Estado palestino viável. Mas, em pouco tempo, a euforia cede lugar à frustração. Obama nada faz para impor ao governo israelense a suspensão total da expansão dos assentamentos nos territórios palestinos ocupados, exceto pelos patéticos apelos de seu assessor George Mitchell, ainda ssim mitigados pelos elogios ao primeiro-ministro Benyamin Netaniahu, feitos pela secretária de Estado Hillary Clinton. Sequer o já famoso relatório sobre os crimes cometidos pelo exército israelense em Gaza, feito por Richard Goldstone, enviado especial da ONU para a Palestina, é suficiente para levar Obama a adotar medidas efetivas contra Israel. Ao contrário, os diplomatas estadunidenses fazem o possível para evitar a análise do Relatório Goldstone pelo Conselho de Segurança da ONU.
A escalada militarista da era Obama atinge diretamente a América Latina.
Na Cúpula das Américas, realizada em Trinidad e Tobago, entre 17 e 19 de abril, Obama adota uma postura simpática e amigável, mesmo quando submetido a um bombardeio de críticas. Recebe, com sorrisos, uma cópia do livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, das mãos do presidente venezuelano Hugo Chávez. Ouve e anota denúncias de tentativas de assassinato do presidente boliviano Evo Morales, assim como um longo relato, feito pelo ex e atual presidente da Nicarágua Daniel Ortega, sobre as atrocidades cometidas pela CIA, nos anos 80, contra o regime sandinista. Em seu discurso, assegura que já se foram os tempos em que Washington se considerava na posição de determinar os rumos do hemisfério ocidental, e condena explicitamente “qualquer esforço de subversão violenta de governos democraticamente eleitos”. Como no Cairo, seu discurso dá margem a esperanças de mudanças reais.
E então, Obama decide, nos meses seguintes, prolongar o boicote econômico a Cuba, manter o Plano Mérida para o México e América Central (isto é, verbas e treinamento de esquadrões da morte), sanciona o acordo com o presidente Álvaro Uribe para instalar sete novas bases militares estadunidenses na Colômbia, e mantém em operação a sinistra Quarta Frota dos Estados Unidos, que integra navios, porta aviões e submarinos que operam no Caribe, América Central e América do Sul. A Quarta Frota foi criada em 1943, durante a Segunda Guerra, e desengajada em 1950. Retomou as atividades em 2008, com o suposto objetivo de participar da “guerra ao narcotráfico”. Até mesmo o presidente Lula, saudado e elogiado por Barack Obama, denunciou os movimentos da Quarta Frota na costa brasileira. Lula vê uma conexão entre a reativação da frota e a descoberta das reservas do pré-sal.
Finalmente, coube a administração Obama armar o golpe atrapalhado que, em 29 de junho, depôs o presidente Manuel Zelaya, em Honduras. Novamente, há uma diferença abismal entre o jogo de cena (a condenação formal do golpe pela Casa Branca) e a realidade bruta dos fatos.
Os generais golpistas são todos graduados pela Escola das Américas, centro de formação mantido pelo exército dos Estados Unidos, por onde passaram alguns dos mais célebres ditadores e torturadores latino-americanos durante o período da Guerra Fria. Todos têm relações íntimas com os diplomatas e oficiais estadunidenses baseados em Tegucigalpa, incluindo o general Romeo Vásquez Velásquez, comandante das Forças Armadas de Honduras até as vésperas do golpe (foi destituído por Zelaya dias antes). Ninguém pode imaginar seriamente que os agentes da CIA em Honduras ignoravam os planos. Menos imaginável ainda é a idéia que eles sabiam, mas não informaram a Casa Branca. E mais: o embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llores, é um conhecido agente provocador. Entre outros feitos, ele foi expulso da Bolívia, em setembro de 2008, por sua comprovada participação na tentativa de orquestrar uma guerra civil no país.
A mídia burguesa, para variar um pouco, desinformou sobre as reais motivações do golpe. Ele não aconteceu porque Zelaya pretendia “eternizar-se no poder”, mas por ter cometido o grande pecado de associar Honduras à Alba (Aliança Bolivariana das Américas) e ao Petrocaribe. Isto é, aproximou-se do demônio Chávez. Mas, sobretudo, Zelaya anunciou que transformaria a base militar estadunidense de Soto Cano (situada a 30 km de Tegucigalpa) em aeroporto civil, e que faria isso com financiamento venezuelano.
A base de Soto Cano era utilizada pela CIA, ao longo dos anos 80, como centro de operações contra o governo sandinista da vizinha Nicarágua, e para treinar soldados e oficiais que lutavam na guerra civil de El Salvador. Honduras, aliás, era conhecida como o “porta aviões não naufragável dos Estados Unidos”. Perder esse “porta aviões” era inaceitável, especialmente quando Washington sabia que teria que fechar, em setembro, a sua base militar em Manta, na costa do Pacífico equatoriana, por determinação do presidente Rafael Correa. Por uma incrível coincidência, a retirada das tropas estadunidenses do Equador foi, praticamente, simultânea à assinatura do acordo com a Colômbia e... ao golpe em Honduras.
Com Obama, a agressividade do imperialismo aumenta. Mas a mídia burguesa estampa o seu sorriso.
Fonte: Revista Caros Amigos - Dezembro 2009
Autor: José Arbex Jr.