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06 novembro, 2010

O voto do Nordeste e as elites

O voto do Nordeste e as elites

A ampla vantagem da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno no Nordeste reacende o preconceito de parte de nossas elites e da grande mídia face às camadas mais pobres da sociedade brasileira e em especial face ao voto dos nordestinos. Como se a população mais pobre não fosse capaz de compreender a vida política e nela atuar em favor de seus interesses e em defesa de seus direitos. Não "soubesse" votar.
Desta vez, a correlação com os programas de proteção social, em especial o "Bolsa Família" serviu de lastro para essas análises parciais e eivadas de preconceito. E como a maior parte da população pobre do país está no Nordeste, no Norte e nas periferias das grandes cidades (vale lembrar que o Sudeste abriga 25% das famílias atendidas pelo "Bolsa Família"), os "grotões"- como nos tratam tais analistas ? teriam avermelhado. Mas os beneficiários destes Programas no Nordeste não são suficientemente numerosos para
responder pelos percentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno : mais de 2/3 dos votos no MA, PI e CE, mais de 50% nos demais estados, e cerca de 60% no total ( contra 20% dados a Serra).
A visão simplista e preconceituosa não consegue dar conta do que se passou nesta região nos anos recentes e que explica a tendência do voto para Governadores, parlamentares e candidatos a Presidente no  Nordeste. A marca importante do Governo Lula foi a retomada gradual de políticas nacionais, valendo destacar que elas foram um dos principais focos do desmonte do Estado nos anos 90. Muitas tiveram como norte o combate às desigualdades sociais e regionais do Brasil. E isso é bom para o Nordeste.
Por outro lado, ao invés da opção estratégica pela "inserção competitiva" do Brasil na globalização - que concentra investimentos nas regiões já mais estruturadas e dinâmicas e que marcou os dois governos do PSDB -, os Governos de Lula optaram pela integração nacional ao fundar a estratégia de crescimento na produção e consumo de massa, o que favoreceu enormemente o Nordeste. Na inserção competitiva, o Nordeste era visto apenas por alguns "clusters" (turismo, fruticultura irrigada, agronegócio graneleiro...)
enquanto nos anos recentes a maioria dos seus segmentos produtivos se dinamizaram, fazendo a região ser revisitada pelos empreendedores nacionais e internacionais.
Por seu turno, a estratégia de atacar pelo lado da demanda, com políticas sociais, política de reajuste real elevado do salário mínimo e a de ampliação significativa do crédito, teve impacto muito positivo no Nordeste. A região liderou - junto com o Norte - as vendas no comercio varejista do país entre 2003 e 2009. E o dinamismo do consumo atraiu investimentos para a região. Redes de supermercados, grandes magazines, indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao
mesmo tempo em que as pequenas e medias empresas locais ampliavam sua produção.
Além disso, mudanças nas políticas da Petrobras influíram muito na dinâmica econômica regional como a decisão de investir em novas refinarias (uma em construção e mais duas previstas) e em patrocinar - via suas compras - a retomada da indústria naval brasileira, o que levou o Nordeste a captar vários estaleiros.
Igualmente importante foi a política de ampliação dos investimentos em infra-estrutura - foco principal do PAC - que beneficiou o Nordeste com recursos que somados tem peso no total dos investimentos previstos superior a participação do Nordeste na economia nacional.

No seu rastro,a construção civil "bombou" na região.

A política de ampliação das Universidades Federais e de expansão da rede de ensino profissional também atingiu favoravelmente oNordeste, em especial cidades médias de seu interior. Merece destaque ainda a ampliação dos investimentos em C&T que trouxe para Universidades do Nordeste a liderança de Institutos Nacionais ? antes fortemente concentrados no Sudeste - dentre os quais se destaca o Instituto de Fármacos ( na UFPE) e o Instituto de Neurociências instalado na região metropolitana de Natal sob a liderança do cientista brasileiro Miguel Nicolelis que organizará uma verdadeira cidade da ciência num dos municípios mais pobres do RN ( Macaíba).
Igualmente importante foi quebrar o mito de que a agricultura familiar era inviável. O PRONAF mais que sextuplicou seus investimentos entre 2002 e 2010 e outros programas e instrumentos de política foram criados ( seguro safra , Programa de Compra de Alimentos, estimulo a compras locais pela Merenda Escolar, entre outros) e o recente Censo Agropecuário mostrou que a agropecuária de base familiar gera 3 em cada 4 empregos rurais do país e responde por quase 40% do valor da produção agrícola nacional.
E o Nordeste se beneficiou muito desta política, pois abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro. Resultado: o Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no país com 5,9% de crescimento ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior a de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da RAIS.
Daí a ampla aprovação do Governo Lula em todos os Estados e nas diversas camadas da sociedade nordestina se refletir na acolhida a Dilma. Não é o voto da submissão - como antes - da desinformação, ou da ignorância. É o voto da auto- confiança recuperada, do reconhecimento do correto direcionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados - alguns ainda incipientes e outros insuficientes. É o voto na aposta de que o Nordeste não é só miséria (e, portanto, "Bolsa Família"), mas uma região plena de potencialidades.

Fonte: Outras Palavras
Autora: Tânia Bacelar de Araujo é especialista em desenvolvimento regional, economista, socióloga e professora do Departamento de Economia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

28 maio, 2010

O que queremos para nossa agricultura

O que queremos para nossa agricultura

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Em vez de priorizar o lucro de grandes fazendeiros, temos que respeitar o equilíbrio do ambiente e produzir alimentos sadios
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As transformações do mundo nas últimas décadas fizeram com que o centro de acumulação do capital fosse para a esfera financeira e para as corporações transnacionais. Isso trouxe graves consequências e promoveu um enfrentamento crescente entre dois modelos de produção na agricultura.
O modelo dos capitalistas é uma aliança entre grandes proprietários de terras, empresas transnacionais e sistema financeiro. As empresas fornecem insumos, compram os produtos, controlam o mercado e fixam preços dos produtos agrícolas.
Os grandes proprietários (cerca de apenas 40 mil, que possuem mais de mil hectares) entram com a terra, destruindo a biodiversidade e superexplorando os trabalhadores, para repartir a taxa de lucro da agricultura das empresas.
Esse modelo foi autodenominado de agronegócio. Adota a monocultura, para ampliar a escala de produção, com o uso intensivo de venenos e maquinaria pesada.
Essa matriz tecnológica provoca um desequilíbrio climático e ambiental para obter lucros e fazer negócios a quaisquer custos.
O próprio sindicato das empresas de defensivos agrícolas anunciou exultante que, na safra passada, utilizou 1 bilhão de litros de agrotóxicos (cinco litros por habitante). Somos o maior consumidor mundial de venenos.
Isso degrada o solo, afeta o lençol freático, contamina até as chuvas, além dos alimentos.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Instituto Nacional do Câncer têm alertado que o aumento de câncer está ligado ao crescente uso de agrotóxicos.
Os ricos e a classe média alta compram produtos orgânicos, mais caros. No entanto, o povo está à mercê dos produtos contaminados.
O agronegócio ainda aumenta a concentração da terra e da produção, pela necessidade de ganhar escala no plantio. O Censo de 2006 aponta que a concentração da terra é maior do que na década de 1920.
Estamos fazendo o caminho inverso ao da reforma agrária. Cerca de 80% das nossas melhores terras são usadas para produzir para exportação três produtos: soja, milho e cana. Além disso, o agronegócio é cada vez mais dependente do financiamento público.
Para produzir um valor anual de R$ 120 bilhões, esse modelo retira crédito nos bancos públicos (da poupança recolhida nos depósitos à vista), ao redor de R$ 90 bilhões.
Ou seja, é a população brasileira que financia o agronegócio, ao contrário da propaganda mentirosa que só exalta seus "benefícios".
Os movimentos sociais, junto com ambientalistas, igrejas e cientistas, temos alertado sobre esses problemas. Propomos outro modelo de agricultura, que priorize a produção diversificada, máquinas agrícolas adequadas a pequenas unidades, agroindústrias cooperativadas e técnicas agroecológicas.
Em vez de priorizar o lucro de grandes empresas e fazendeiros, temos que respeitar o equilíbrio do ambiente, produzir alimentos sadios, fortalecer o mercado interno, aproximando produtores e consumidores. Nossa proposta de reforma agrária popular é a adoção desse modelo, e não apenas distribuir lotes para os sem-terra.
O que está em jogo é a organização da agricultura brasileira.
O povo não tem dinheiro para financiar candidatos, mas o agronegócio anunciou a aplicação de R$ 800 milhões para eleger candidatos. Mas temos o voto e poder de mobilização. É preciso, nesse período eleitoral, cobrar dos candidatos posições claras. Os nossos recursos naturais devem ser utilizados em benefício do povo brasileiro.
A sociedade brasileira, cedo ou tarde, deverá decidir se o país continuará produzindo alimentos com venenos, porque dão lucros, ou se dará prioridade a alimentos saudáveis e à preservação ambiental.
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Fonte: Folha de São Paulo - 28/05/2010
Autor: JOÃO PEDRO STEDILE , 56, economista, é integrante da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Via Campesina Brasil.

20 maio, 2010

Gargalos travam competitividade brasileira

Gargalos travam competitividade brasileira

Carga tributária e deficiências na infraestrutura deixam Brasil no 38º lugar em ranking sobre ambiente econômico que inclui 58 países .
Estudo destaca a má qualidade da educação e burocracia excessiva para abrir empresas; melhoria na gestão privada é elogiada.


Gargalos institucionais (como leis defasadas e sobrecarga tributária) e de infraestrutura (logística e tecnologia) ainda travam a competitividade do Brasil no cenário internacional.
A oitava economia do mundo ocupa apenas o 38º lugar num ranking com 58 países feito pela faculdade suíça Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Administração, em parceria no Brasil com a Fundação Dom Cabral (FDC).
O estudo, que mede o ambiente de negócios, considera dados oficiais e entrevistas com empresários.
A posição brasileira, contudo, já foi pior. Pelo terceiro ano consecutivo, o Brasil subiu no ranking. As duas posições avançadas em 2010 foram conquistadas graças à melhora na gestão das empresas e à resiliência do mercado de trabalho durante a crise.
Quesitos como flexibilidade ante novos desafios e adaptabilidade a mudanças puxaram o Brasil para uma posição menos desconfortável. O desempenho econômico, especialmente no que diz respeito à atividade doméstica, seguiu como outro ponto de relativo conforto.
As principais fraquezas, contudo, continuam na falta de eficiência do governo em todas as esferas -nesse segmento, o Brasil está entre os lanternas, em 52º- e na infraestrutura deficitária, segmento que inclui logística, tecnologia, ciência, educação, saúde e ambiente.
Leis defasadas, carga tributária alta, ausência de marcos regulatórios, burocracia excessiva para abrir empresas e firmar contratos de exportação são algumas das travas, que "seguram" a competitividade.
"Na variável sobre a facilidade de fazer negócios nos países, numa escala de 1 a 7, o Brasil está em 2,3. As empresas têm a percepção de que o Brasil é um país importante para estar, mas que requer mais cuidado e custo. No tempo para abertura de empresas, estamos entre os piores", diz Carlos Arruda, professor da Dom Cabral responsável pelos dados brasileiros.
"Esse é o pilar mais crítico, que impacta os demais, principalmente o de infraestrutura, que depende de ações do governo." Durante a entrevista, por Skype, de Arruda à Folha, a conexão foi cortada três vezes. O quesito infraestrutura tecnológica (que mede a qualidade de serviços como a banda larga ofertada no país) o Brasil ficou na 53ª posição.
Em infraestrutura como um todo, o Brasil caiu de 46º para 49º, afetado principalmente pela precariedade dos portos e das hidrovias e pelo preço dos serviços de telefonia celular.
Para Juan Quirós, vice-presidente da Fiesp e ex-presidente da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o estudo leva a concluir que as áreas mais sensíveis para a competitividade no Brasil são saúde e educação (40ª e 53ª posições, respectivamente) e que é preciso "modernizar" a legislação.
Exemplo desses problemas, diz, são as barreiras para investimento externo em saúde.
"Subir [no ranking] é positivo, mas temos de focar o que pode nos levar para a 30ª posição. Estamos cansados de diagnósticos. Agora, temos de agir."

Mundo afora

Pela primeira vez em décadas, os EUA saíram da primeira posição do ranking, ultrapassados pelos pequenos Cingapura e Hong Kong, que conseguiram se organizar de forma mais competitiva.
Os países europeus, fortemente afetados pela crise econômica global, foram os que mais perderam posições, abrindo espaço para economias com classe média ascendente, como Taiwan (foi do 23º lugar para o 8º) e Malásia (do 18º ao 10º).

Fonte: Folha de São Paulo - 20/05/10

18 maio, 2010

A Brasília utópica e seu lado B

A Brasília utópica e seu lado B

Uma cidade inventada para ser o marco de uma nova era de um país. Brasília era a síntese da proposta modernista de desenvolvimento que Juscelino Kubitschek desenhava para o Brasil há cinquenta anos. Hoje o Distrito Federal, que gira em torno da capital do país, é uma síntese nacional: uma região com muitas riquezas, mas profundamente desigual.
O estabelecimento da capital federal no interior do país, que já constava de um dispositivo na Constituição de 1891, foi o mote para a aventura da construção do novo Brasil, mesclando a modernidade do capitalismo com o monumentalismo da cidade, expresso em suas largas avenidas. A capital foi projetada para coordenar a expansão econômica e social que fatalmente, acreditava-se, o país atingiria. “O problema da utopia da modernidade é que sempre há o não moderno, que se transforma, mas continua o mesmo conduzindo o processo.”, afirma Marília Luíza Peluso, professora do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo artigo de Peluso, para representar a emergência de um país em desenvolvimento, a capital federal foi forjada com base num urbanismo modernista que, segundo a autora, era utópico, pois buscava descontextualizar a cidade de seu ambiente. Entretanto, era justamente essa descontextualização que representaria a imagem de um grande país que buscava um novo futuro, enterrando nosso passado colonial. Ainda segundo o artigo, os padrões do urbanismo modernista restringiam os desejos e as diferenças dos habitantes das cidades. No caso de Brasília, a cidade foi concebida com tudo que seria necessário para o bem-estar dos moradores e sua função de capital federal, afastando as mazelas dos grandes centros. “(Lúcio) Costa projetou uma cidade muito singela, mas complexa em sua concepção. O plano detalhava o núcleo urbano em termos de locais de trabalho e habitação, comércio, lazer e circulação com uma simplicidade que permitiu sua implantação em três anos e 10 meses”, ressalta Peluso.
Brasília, atualmente, é a segunda cidade com a maior renda per capita do país (R$ 40.696, segundo o IBGE) e a primeira segundo o levantamento feito pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que usa o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Entretanto, segundo documento do próprio organismo internacional, a classificação pode ser enganosa, pois a ONU considera “Brasília” como todo o Distrito Federal, sem considerar as diferenças entre o Plano Piloto (e as regiões administrativas mais próximas, como o Lago Sul, Lago Norte, Sudoeste/Octogonal e Park Way, de maior poder aquisitivo) e as cidades-satélites em seu entorno. Ainda segundo o documento, datado de 2003, se fosse considerada como uma região metropolitana, Brasília ficaria em 11º entre as regiões metropolitanas brasileiras com maior IDH. Por outro lado, em um levantamento da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) realizado em 2000, utilizando a metodologia do IDH, mas aplicando em cada região administrativa separadamente, o Lago Sul registrava o melhor IDH do mundo, superando a Noruega, país com melhor IDH na ocasião.
Apesar disso, Peluso não pensa Brasília como uma “ilha da fantasia”. A cidade, segundo ela, é chamada assim com a conotação de não levar em consideração os desejos e aspirações do país, mas a pesquisadora entende a capital como uma síntese do Brasil porque, como cidade nova, acabou atraindo pessoas de todos os estados, que levaram seus hábitos, costumes e também suas contradições e conflitos enraizados secularmente nesses mesmos hábitos e costumes.
A pesquisadora acredita que, apesar de ser uma cidade planejada, não há mudança no caráter contraditório das relações sociais, pois no território onde foi construída, as práticas que se instauraram em seguida à inauguração reproduzem as mesmas relações seculares. “Brasília é singular em suas formas do Plano Piloto, mas tão antiga quanto o Brasil em suas periferias e invasões.”, resume.
Construída em ritmo acelerado, Brasília demandou um imenso contingente de trabalhadores que, após a inauguração, se estabeleceram na região. Para acomodar a população, os administradores lançaram mão, ano após ano, da construção de cidades-satélites. Segundo Peluso, o inglês Sir William Holford, membro do júri que escolheu o plano piloto de Brasília, propôs as cidades-satélites como forma do crescimento da capital, supondo que ela excederia os 500 mil habitantes para os quais foi projetada. A ideia de cidades-satélites e cidades-jardins data dos fins do século XIX e princípios do século XX, como forma de crescimento das cidades com qualidade de vida.

As cidades-satélites

Atualmente, o DF é constituído por 30 regiões administrativas (RA), englobando o Plano Piloto e as cidades-satélites. Todas são politicamente dependentes e administradas pelo Governo do Distrito Federal (GDF).
Taguatinga, a primeira cidade do DF, foi inaugurada antes da capital, em 1958. Essa satélite é resultado da transferência de uma invasão denominada Vila Sarah Kubitschek, formada por migrantes impedidos pela então Guarda Especial de Brasília, responsável pela manutenção da ordem pública durante a construção da capital, a chegar à região. Em dez dias, cinco mil pessoas foram levadas do local da invasão para a nova cidade.
Gama nasceu na época da inauguração de Brasília. O nome é herdado de uma fazenda que existia na região. A cidade recebeu 30 famílias que foram retiradas da local onde hoje é o lago Paranoá. Mais tarde, o território daquela região administrativa foi desmembrado em três: o próprio Gama, o Núcleo Urbano de Santa Maria (1989) e o Recanto das Emas (1993).
Há também locais que já eram habitados muito antes da concepção de Brasília e que foram incorporados ao quadrilátero DF logo após a sua criação. A data oficial da fundação de Planaltina é 1859, mas historiadores acreditam ser ainda mais antiga, do final do século XVIII. Fruto da exploração de ouro e pedras preciosas e da passagem dos bandeirantes pela região, Planaltina era conhecida anteriormente como Mestre D´armas. Em 1892, a comissão Cruls, responsável pela demarcação do território onde seria instalada a capital federal, se instalou no povoado. Anos depois, em 1955, com a delimitação definitiva dos limites do DF, parte da cidade foi incorporada ao território da capital, enquanto a parte restante passou a se chamar Planaltina de Goiás.
O Núcleo Bandeirante, ou a Cidade Livre, como era conhecida durante a construção de Brasília, foi erguido pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) – criada por JK para aquele mega empreendimento de engenharia – para ser uma cidade comercial e de serviços, fornecendo uma mínima infraestrutura para a região. De caráter provisório, o Núcleo foi planejado para deixar de existir após a inauguração da capital. Os moradores, entretanto, se organizaram e criaram um movimento de resistência para permanecer no local. O presidente João Goulart, em 1961, criou a cidade, que permaneceu ainda muitos anos com pouca infraestrutura.
Ceilândia talvez seja a cidade-satélite mais emblemática no processo que culminou na desigualdade encontrada na região. Em 1969, o DF contava com cerca de 15% da população da época vivendo em favelas. Uma entidade criada para resolver o problema, a Comissão de Erradicação de Invasões (CEI), delimitou uma área para transferir os moradores de nove invasões. Em março de 1971, iniciou-se a transferência das famílias e, nove meses depois, ela foi concluída. O nome da cidade derivou da comissão que a inaugurou. Em 1999, Ceilândia respondia por 18% de toda população do DF.
A partir dos anos 1980, Brasília ganhou mais nove cidades-satélites, criadas pelo então governador do DF, Joaquim Roriz. As cidades foram legalizações de assentamentos e invasões, com uma população oriunda principalmente do Nordeste e de cidades de Goiás. Atualmente, cerca de 90% da população do DF mora nas cidades-satélites. A partir da redemocratização, o problema habitacional se incorporou ao discurso dos políticos. “Tenho dúvidas que fosse no sentido de resolvê-lo ou de obter votos simplesmente. Creio que as soluções propostas aliviaram um tanto o problema habitacional. Como foram feitas muito rapidamente e pouco planejadas, trouxeram prejuízo para todo o Distrito Federal”, afirma Peluso. Outro problema, que segundo ela, não é exclusividade do DF, é a grilagem de terras. A prática modificou o desenho do quadrilátero e, onde era pra existir núcleos afastados e separados por áreas preservadas, a ocupação foi contínua, sem nenhum cuidado com o meio ambiente. “Os problemas ambientais que encontramos agora só tendem a se tornar muito mais graves no futuro”, alerta a pesquisadora.

As diferenças

Segundo um levantamento realizado pela ONU (que considera todo o DF), Brasília é uma das vinte cidades do mundo com maior índice de desigualdade social, segundo o coeficiente de Gini, usado para calcular a desigualdade de distribuição de renda. A pontuação atingida pela capital (0,6) é semelhante ao índice nacional (0,58), o que reforça a visão da cidade como um espelho do país. Quanto mais próximo a um é o índice, maior a desigualdade.
As disparidades que o brasiliense, ou o candango, encontra entre o Plano Piloto e as cidades-satélites são grandes, tanto em termos de infraestrutura como sociais. Segundo Sérgio Cássio de Souza, fundador da ONG Grupo Atitude, que realiza trabalhos de cunho social com jovens de Ceilândia, não há na cidade-satélite recursos suficientes para realização de eventos culturais e a administração do Distrito Federal investe pouco na região administrativa. As opções de emprego na cidade são restritas. “O jovem da Ceilândia tem empregos pontuais. Não temos muitas oportunidades de trabalho com carteira assinada. Na maior parte das vezes, trabalhamos em Taguatinga, que tem um comércio mais desenvolvido, e em Brasília, que tem mais opções de trabalho, porque tem os ministérios e muitas vagas em órgãos públicos”, afirma Souza.
Hernandez Moura Silva, doutorando na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e ex-morador do Plano Piloto, conta que também trabalhou em um órgão público, o Ministério do Meio Ambiente, durante a faculdade. Silva morou em Brasília entre a adolescência e o final da graduação. Vindo de Sergipe, ele ajuda a representar como se forma a diversidade da população brasiliense.
Falando sobre as opções culturais ou de lazer do Plano Piloto, Silva observa que os adolescentes brasilienses se queixam da falta de acesso a elas. Como Brasília tem um território muito extenso e as distâncias são grandes, é preciso usar carro para chegar aos pontos culturais ou de lazer. Segundo ele, o transporte público é deficiente e não atende às necessidades. Talvez, por essa ociosidade, comenta Silva, existam tantas gangues de jovens em Brasília que cometem delitos como vandalismo, por exemplo.
Em Ceilândia, o problema não é o acesso, mas a falta de opções. “Não temos muitas opções de lazer na cidade. De um modo geral, o jovem se reúne em grupos, mas não se diverte”, conta Souza. Frequentar os bares brasilienses, porém, não parece uma solução. Souza conta que ele e alguns amigos foram advertidos pela polícia, que abordou o ônibus em que estavam, em direção à Brasília, a não irem à capital à noite, pois jovens de Ceilândia só iriam para o Plano Piloto naquele horário para cometer delitos.

O lado B de Brasília

Brasília foi um celeiro de bandas de rock nos anos 1980. Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Plebe Rude, foram formadas por jovens da capital federal influenciados pelo punk rock que fazia sucesso nos Estados Unidos. Por concentrar o staff da diplomacia brasileira (e suas famílias), os jovens tinham acesso facilitado à produção musical do exterior.
E quando o assunto é identidade cultural, a distância entre Ceilândia e o Plano, de 25 km, parece ainda maior. “O rock que foi produzido em Brasília nos anos 1980 não chegou às cidades-satélites, por exemplo. Não tivemos nossos representantes. Foi só a burguesia que tocou suas guitarras e cantou suas músicas. Não nos confraternizamos”, enfatiza Souza.
Silva, por outro lado, acha que o rock está enraizado na cidade. “Os adolescentes se envolvem. Muita gente tem vontade de montar uma banda de rock, inspirados na Legião, Plebe Rude”, comenta. “Mas tem outras opções também, Brasília é eclética”, ressalta. Silva se refere a lugares como o Clube do Choro, bastante badalado na capital, os diversos barzinhos, onde foram lançadas artistas como Cássia Eller e Zélia Duncan, opções como o Teatro Nacional, o Teatro da Caixa e o Teatro dos Bancários, além do circuito alternativo de cinema no cine Brasília – que abriga um festival nacional de cinema –, na Cultura Inglesa e na Academia de Tênis.
A distância também aparece na identidade do candango. Silva acredita que o brasiliense já incorporou o candango como gentílico e há certo orgulho em adjetivar a cultura como candanga. Souza discorda e prefere se chamar “ceilandense”. “Brasília ainda é outro lugar, com valores diferentes e histórias bem diferentes das nossas. Aqui temos, na maioria, nordestinos que vieram para construir a cidade”, comenta Souza.
Brasília é multifacetada, mestiça e paradoxal, assim como o Brasil. Também como a nação, ainda é uma jovem senhora. À capital restam muitas questões para resolver com suas cidades mais próximas e com o resto do país. Os próximos cinquenta anos dirão se ela conseguirá avançar onde precisa (ou se os avanços serão para todos).

Fonte: Com Ciência
Autor: Márcio Derbli

08 maio, 2010

Tecnologia nacional para extrair petróleo e gás do pré-sal

Tecnologia nacional para extrair petróleo e gás do pré-sal

Produção em 2020 deverá atingir mais de 1,8 milhão de barris/dia

Desde o anúncio da existência de reservas de petróleo e gás na faixa do subsolo oceânico brasileiro que antecede a densa camada de sal – o chamado pré-sal – muito se tem noticiado sobre o tema: regulamentações, sistemas de exploração e produção, privilégios, concorrência, investimentos e retornos. Mas para entender as discussões é preciso também conhecer os aspectos científicos e tecnológicos e seus desdobramentos.
A descoberta do “ouro negro” na bacia sedimentar de Santos (RJ e SP) e no Parque das Baleias (ES – pertencente à Bacia de Campos) data de 2006 e tem desviado as atenções do mundo, então focadas na produção da cana-de-açúcar para fabricação de etanol, no contexto de crise energética e preocupações ambientais.
O petróleo encontrado situa-se numa área de 800 quilômetros de extensão entre os estados do Espírito Santo e Santa Catarina, em profundidades que ultrapassam os 7 mil metros em relação ao nível do mar, o que exige um domínio tecnológico nada trivial para que seja extraído e bem aproveitado. As reservas do pré-sal ainda não foram totalmente identificadas e mensuradas. Apenas os volumes de produção potencial nas áreas de Tupi, Iara, Guará e Parque das Baleias foram anunciados, o que já representa mais que o dobro da produção originada pelas demais reservas já conhecidas no país.
Os volumes totais previstos vão de 10,6 a 16 bilhões de barris de óleo equivalente (boe - que inclui petróleo e gás) recuperáveis, assim distribuídos: 5 a 8 bilhões de boe em Tupi; 3 a 4 bilhões de boe em Iara; 1,1 a 2 bilhões de boe em Guará e 1,5 a 2 bilhões de boe no Parque das Baleias (que inclui Jubarte, Baleia Branca e Baleia Azul). A Petrobras prevê que esses campos produzirão mais de 1,8 milhão de barris por dia em 2020. Somando-se o restante da produção brasileira, o país deverá gerar cerca de 4 milhões de barris/dia. “Mas essas estimativas dependerão também da taxa de sucesso atingida, que é considerada alta quando o aproveitamento das jazidas é de 70 a 80%”, explica José Goldenberg, professor do Programa de Pós-graduação em Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP.
Toda a euforia em torno da descoberta de petróleo no pré-sal explica-se no contexto de previsões de aumento da demanda mundial e de aproximação do prazo de esgotamento das jazidas conhecidas, de extração mais fácil. “Infelizmente, o mundo ainda é muito dependente desse recurso não-renovável”, diz Goldenberg. Segundo as previsões da Agência Internacional de Energia (AIE) para 2010, a demanda mundial de petróleo deve crescer, em função da recuperação da economia mundial – e sobretudo da Índia, China e países ricos do Ocidente –, para quase 1,5 milhão de barris por dia, chegando a 86,3 milhões de barris diários.

Tecnologia para a descoberta

Mas o petróleo existente na camada pré-sal não é de fácil extração e mesmo sua descoberta envolveu esforços significativos. Graças aos avanços na área de sísmica de reflexão foi possível detectar jazidas abaixo de uma camada salina que chega a 2 mil metros de espessura e com temperaturas muito elevadas. Os materiais para prospecção e extração são submetidos a variações de temperatura superiores a 80º C. Atualmente, a geofísica é capaz de oferecer novas tecnologias capazes de melhorar o imageamento dos dados em profundidade, como fontes acústicas com maior potência, coletas repetitivas (4D) e técnicas wide azimuth para melhorar a resolução do sinal sísmico no reservatório.
A prospecção do petróleo em grandes profundidades é feita principalmente por meio de atividades sísmicas, autorizadas somente com a obtenção de licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Petrobras obteve essa licença em áreas localizadas na Bacia de Santos e estimou que, para os campos de Tupi e Iracema, do bloco chamado BM-S-11, as reservas são de 5 a 8 bilhões de barris de óleo recuperáveis.

Qualidade superior

O óleo do pré-sal é de densidade considerada média, baixa acidez e baixo teor de enxofre, características de um óleo de boa qualidade e preço satisfatório no mercado petrolífero. A qualidade do petróleo é medida pela escala API, desenvolvida pelo Instituto Americano de Petróleo (API, na sigla em inglês), segundo a qual um óleo com densidade maior que 30° API é classificado como leve, enquanto um óleo pesado tem menos de 19° e apresenta alta viscosidade e alta densidade. A referência internacional de alta qualidade é o petróleo com mais de 40° API, como é o petróleo árabe. No Brasil, o petróleo de melhor qualidade foi descoberto em 1987, em Urucu, na Amazônia, e possui 44° API. Por ser um óleo muito leve, a partir dele são produzidos principalmente derivados de alto valor agregado, como o diesel e a nafta. “No entanto, a produção diária de 50 mil barris desse óleo de excelente qualidade é muito pequena”, esclarece o engenheiro Antônio Pinto, gerente de concepção e alinhamento de projetos da Petrobras.
Na Bacia de Campos, responsável por aproximadamente 90% do petróleo produzido em território nacional (extraído da camada pós-sal), a densidade média do óleo extraído é próxima de 20° API, ou seja, um óleo mais pesado. A extração desse óleo é muito mais complexa e cara do que a do óleo leve. Seu refino torna-se também mais dispendioso, em muitos casos inviabilizando comercialmente a produção.
A baixa qualidade desse óleo explica porque a autossuficiência volumétrica alcançada pela Petrobras em 2007 não a livrou da dependência de importações do óleo leve, usado para fazer um mix que torne o processo menos oneroso. Por isso a empresa importa óleo leve, e exporta petróleo pesado, desequilibrando sua balança comercial. “Por sua qualidade superior, o óleo encontrado no pré-sal de Tupi, na Bacia de Santos, com 28,5° API, traz boas perspectivas, mesmo diante dos altos custos de extração”, diz Antônio Pinto. A Petrobras é a operadora desse campo, onde detém 65% de participação, sendo que a empresa britânica British Gas (BG Group) possui 25%, e a portuguesa Petrogal/Galp, 10%.
A empresa brasileira desenvolveu projetos de perfuração que permitiram atravessar a camada de sal e perfurou o primeiro poço para buscar petróleo no pré-sal (Parati) em 2005. O processo demorou mais de um ano para ser concluído e custou US$ 240 milhões. Segundo o assistente da área de exploração e produção da Petrobras no pré-sal, Alberto Sampaio, a companhia já consegue perfurar um poço em um período de três a quatro meses, a um custo de US$ 100 milhões. “Estamos trabalhando para reduzir cada vez mais o tempo de perfuração e seu custo. Essas são metas constantes para a Petrobras”, diz Sampaio.
Quanto à qualidade do gás do pré-sal, Sampaio explica que se trata de um gás rico, no qual se encontra uma grande variedade de componentes intermediários (como propano, butano e outros) que permitem a extração de muitos produtos de valor alto. O ponto negativo, lembra Sampaio, é que o gás de alguns reservatórios do pré-sal é contaminado com uma grande quantidade de dióxido de carbono (CO2). Em Tupi, a presença de CO2 pode variar de 8 a 12%. “Vamos separar o CO2 do gás por meio da tecnologia de separação por membranas, desenvolvida por fornecedores. O equipamento identifica as moléculas e as separa. A contaminação desaparece, mas, evidentemente, o custo aumenta”, diz Antônio Pinto.

Grandes desafios

O campo de Tupi está operando em teste de longa duração (TLD) desde maio do ano passado e a previsão é que essa fase termine em outubro deste ano. A produção estimada inicialmente para o TLD de Tupi era de 14 mil boe por dia, mas após a última paralisação das operações (ocorreram duas, por razões técnicas), em setembro de 2009, foi ampliada a vazão dos poços, levando a uma produção constante de 20 mil boe por dia. “Dessa forma, poderemos cumprir a previsão inicial de produção para o período do TLD feita junto à ANP”, diz Antônio Pinto. Jubarte também iniciou a fase de TLD, em agosto de 2009, mas apenas Tupi entrará em fase experimental de produção em 2010, no mês de dezembro. Esse é o prazo estabelecido para a declaração de comercialidade da área de Tupi junto à Agência Nacional do Petróleo (ANP). Só então será possível obter a concessão definitiva.
O piloto de Tupi terá produção de 100 mil barris por dia, segundo Antônio Pinto, e já poderá ser explorado comercialmente. Para ele, “muitos desafios terão de ser vencidos até lá. As necessidades de redução de custos não estarão todas solucionadas, o preço do petróleo no mercado internacional será outro parâmetro importante, mas isso não impedirá a produção do piloto para fins comerciais”.
Entre os grandes desafios está o barateamento do custo de produção e do transporte do gás, da plataforma à costa, economicamente inviável se ocorrer apenas por gasodutos. “Ainda assim, temos um projeto de construção de um gasoduto que ligará Tupi ao campo de Mexilhão, na Bacia de Santos”, diz Sampaio. Outras alternativas podem ser aplicadas, como GTL (gas to liquid) e GTS (gas to solid). A primeira delas está sendo desenvolvida pela Petrobras em parceria com empresas estrangeiras que detêm essa tecnologia. A outra saída é a queima do gás, mas o limite de queima permitido pela ANP é muito inferior ao que deverá ser gerado na produção dos poços de petróleo do pré-sal. Assim, para que a produção dos poços da área do pré-sal tenha sucesso comercial, esse gargalo precisa ser resolvido (ver artigo de Ricardo Carvalho Rodrigues nesta revista). No transporte do óleo, a Petrobras informou que terá provavelmente a convivência entre navio e oleoduto.
Para a extração de petróleo, a grande dificuldade tecnológica relaciona-se menos à profundidade do que à instabilidade da camada de sal. A Petrobras possui vários poços de extração de petróleo em águas profundas e domina essa tecnologia, mas é a primeira vez que enfrenta o desafio de atravessar uma camada salina menos dura do que a rochosa, mas também menos estável. Essa tecnologia pioneira está sendo desenvolvida em parceria com o Núcleo de Transferência de Tecnologia (NTT) da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que há anos trabalha em parceria com a Petrobras.
A corrosão é também um obstáculo a ser enfrentado para a perfuração dos poços no pré-sal. Os tubos e as válvulas instaladas no fundo do mar terão de resistir à alta concentração de CO2 e enxofre de alguns poços, e à agressividade química do sal. Para lidar com esse problema, Sampaio informa que a Petrobras utiliza ligas de aço especiais, desenvolvidas por empresas multinacionais.
A resistência do aço contra possíveis trincas no ambiente hostil do pré-sal deverá ser aumentada com a introdução no mercado da tecnologia CLC (Continuous on Line Control) pela Usiminas, prevista para 2011. A empresa fez um acordo de transferência dessa tecnologia com uma de suas acionistas, a japonesa Nippon Steel. Darcton Damião, diretor de pesquisa e inovação da Usiminas, explica que a tecnologia baseia-se num sistema de resfriamento acelerado das chapas de aço. “É o estado da arte em resistência de aço e atenderá às necessidades da indústria de óleo e gás, sobretudo para operações no pré-sal”, diz.
Outro importante desafio é compreender melhor a formação geológica do petróleo e do gás do pré-sal. O sucesso da exploração dos novos campos depende de uma maior familiaridade com as tão particulares características das rochas carbonáticas microbianas brasileiras, as únicas no mundo que alojam hidrocarbonetos. É preciso investigar mais sobre essas rochas e as três camadas rochosas onde estão o petróleo e o gás do pré-sal: rocha geradora, rocha reservatório e rocha selante (camada de sal). Para isso, a Petrobras firmou uma parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp).
A organização logística é mais um gargalo: como suportar o transporte das pessoas e o suprimento de cargas e diesel para a operação das sondas e das plataformas de produção? A distância das acumulações do pré-sal da costa é de aproximadamente 300 quilômetros, que é o alcance máximo da autonomia de voo da maior parte dos helicópteros. O tempo de navegação dos rebocadores também é relativamente grande, em função dessa distância. A solução, ainda em avaliação pela empresa, pode incluir a implantação de bases intermediárias entre a plataforma e a costa (hubs), onde haja diesel e carga armazenados e transferência de pessoas de um transporte para outro.
Outras pesquisas sobre o pré-sal e formas de vencer seus desafios vêm sendo desenvolvidas em parcerias entre empresas, universidades e institutos de pesquisa, muitas em caráter sigiloso, visto que a exploração desse mercado parece muito atraente e envolve interesses concorrentes. Segundo Sampaio, não há barreiras para a produção originária das acumulações do pré-sal.

Quem participa

A petroleira nacional Petrobras, empresa com maior presença nas atividades de exploração e produção do pré-sal (ver box Marco Regulatório), possui inúmeros projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias ligadas ao pré-sal. Seu centro de pesquisas, o Cenpes, está organizado em 30 unidades-piloto e 137 laboratórios. Um dos programas do Cenpes é o Pró-Sal – Programa Tecnológico para o Desenvolvimento da Produção dos Reservatórios Pré-Sal –, que tem dezenas de projetos voltados para a busca de soluções nas áreas de engenharia de poço, engenharia de reservatório e garantia de escoamento.
Além disso, a Petrobras realiza parcerias tecnológicas no âmbito da Rede Galileu – uma rede de alto desempenho envolvendo quinze universidades brasileiras, especializada em mecânica computacional e visualização científica para solucionar seus problemas de engenharia – e em acordos de cooperação com várias universidades e institutos de pesquisa, como a Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e outros. Conforme informou a Petrobras, por meio de sua assessoria de imprensa, entre 2006 e 2009 a empresa investiu cerca de R$ 1,8 bilhão em universidades e institutos de pesquisa brasileiros. As obrigações dos contratos de concessão levaram a empresa a instituir o modelo de redes temáticas em 2006, e desde então o número de temas abordados cresceu. Hoje já são 50 redes, reunindo 80 instituições no país.
Parques tecnológicos, como o de Santos e do Rio, abrigam unidades de várias empresas e institutos de pesquisa em projetos conjuntos sobre o pré-sal. “O parque da UFRJ destaca-se também na incubação de empresas. Das 53 empresas nascidas no parque, 40% são da cadeia de petróleo, a exemplo da TGT, Ambidados, Virtually e Pam Membranas”, diz Maurício Guedes, diretor do parque.
Participam também dos estudos e desenvolvimentos sobre o pré-sal diversas outras empresas de diferentes portes que atuam em mercados afins, com ou sem parcerias com a Petrobras – como os fornecedores Schlumberger, Usiminas, Baker Hughes, Confab, StrataGeo Soluções Tecnológicas, Flamoil Serviços, Lupatech, Fugro Lasa, PGS Petroleum Geo Services, CGG Veritas, entre outros.
Grandes multinacionais concorrentes do próprio ramo do petróleo também se destacam na introdução de tecnologias desenvolvidas no mundo todo para exploração do pré-sal, como as norte-americanas Exxon, Amerada Hess e Anadarko, as portuguesas Galp e Partex, a espanhola Repsol, a anglo-holandesa Shell e a inglesa BG.

Riscos ambientais

Se muitas perspectivas econômicas apontam para a lucratividade dos negócios ligados ao pré-sal, o que dizer dos riscos ambientais envolvidos? O CO2, principal gás causador do efeito estufa, está presente em alta concentração nos hidrocarbonetos do pré-sal. Separá-lo do gás natural e reinjetá-lo em seu reservatório subterrâneo é uma das propostas de solução da Petrobras, que declarou intenções de não lançar o CO2 na atmosfera, o que exige mais investimentos e tecnologia.
Ainda que a concepção do processo de reinjeção do gás no subsolo tenha sucesso, o refino do petróleo, bem como a fabricação de seus derivados e os subprodutos de sua utilização são fortemente emissores de CO2, sem falar nos tradicionais riscos de vazamentos no mar e as sérias consequências sobre a vida marinha e as cadeias alimentares do planeta. Soluções para esses problemas também devem entrar na pauta dos investidores no pré-sal.
Dois projetos da Petrobras desenvolvidos por docentes do campus da Unesp do litoral paulista, em São Vicente, e aprovados pelo Promimp, buscam garantir ações rápidas e eficientes contra acidentes associados à extração e produção de petróleo na Bacia de Santos. Um deles propõe a instalação de filtros à base de carvão ativado no fundo do mar, para a absorção do óleo em casos de vazamentos em navios ou plataformas. O outro visa à implantação de um centro de referência regional para estudos, controle e monitoramento de ambientes aquáticos e terrestres, com o objetivo de proteger a biodiversidade das regiões exploradas.
A obtenção da licença do Ibama para a prospecção do subsolo por atividades sísmicas depende da avaliação do estudo de impacto ambiental apresentado pela empresa que recebeu a concessão da área, em conformidade com as normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). As áreas de águas rasas (de profundidade até 400 metros) e do entorno do Atol de Abrolhos (BA) – habitat de baleias jubarte – são protegidas pelo Ibama e não podem receber atividades de exploração. Mas suspeita-se que, nas regiões prospectadas, os pulsos sonoros da atividade sísmica possam ser causadores de desequilíbrios na fauna marinha, resultando em encalhes de golfinhos e baleias, bem como de alterações nos comportamentos de acasalamento e desova, e mesmo no desvio de rotas de tartarugas marinhas.

Marco Regulatório

O marco regulatório do pré-sal ainda está para ser aprovado pelo governo brasileiro. Os contratos firmados nas áreas já concedidas (28% da área total) seguirão o regime de concessão, segundo o qual as atividades não sofrem interferência do governo, respeitada a regulação existente (criada em 1997). Assim, o petróleo e o gás extraídos dessas áreas pertencerão aos concessionários, após o pagamento de royalties e outras participações governamentais.
Atualmente, o governo propõe a alteração do regime para o de partilha, para obter maior controle da exploração, mediante quatro projetos de lei (PLs) levados à apreciação do poder legislativo em agosto de 2009. Os PLs contemplam a instituição do sistema de partilha; a criação de uma empresa estatal (a Petro-Sal); a formação de um fundo social com recursos gerados no pré-sal e a cessão à Petrobras do direito de exercer as atividades de exploração e produção em determinadas áreas do pré-sal, até o limite de 5 bilhões de barris, em troca indireta de ações da estatal (cessão onerosa).
A Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural SA — a Petro-Sal — foi criada em novembro de 2009 e será responsável pela gestão dos contratos da partilha de produção e dos contratos para a comercialização de petróleo e gás natural da União. À Petrobras caberão as atividades de exploração e produção. Segundo a proposta do governo, a Petrobras irá operar todos os blocos sob o novo sistema, com participação mínima de 30%, o que é alvo de críticas.
Para Wagner Freire, ex-diretor de exploração e produção da Petrobras e atual presidente da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Petróleo (ABpip), não há razão para essa proteção à Petrobras. Ele cita os exemplos dos Estados Unidos e do México, em que várias empresas independentes participam do mercado de petróleo com direitos iguais. “Privilégios como os que recebe a Petrobras não se vê em outro lugar do mundo. Não há razões naturais que os justifiquem”, argumenta Freire.
Dos sete principais blocos da Bacia de Santos, apenas um, o bloco BM-S-22, não tem o controle da Petrobras, mas sim da Exxon, que descobriu petróleo no bloco. Sob a regulamentação do regime de concessão, o bloco é detido também pela Hess (com 40%) e pela Petrobras (com 20%).

Fonte: Conhecimento e Inovação
Autora: Flávia Gouveia

02 abril, 2010

A difícil transição paulista

A difícil transição paulista

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O Estado de São Paulo vive um de seus maiores desafios históricos: como continuar sendo a locomotiva econômica que dirige o país?
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Quando se completa a primeira década do século 21, o Estado de São Paulo demonstra viver um de seus maiores desafios históricos, qual seja, o de continuar sendo a locomotiva econômica que dirige o país. Na perspectiva recente, isso parece estar comprometido diante de importantes sintomas de decadência antecipada.
Entre 1990 e 2005, por exemplo, o Estado paulista registrou o segundo pior desempenho em termos de dinamismo econômico nacional, somente superando o Rio de Janeiro, último colocado entre os desempenhos das 27 unidades da Federação.
Atualmente, o Estado paulista responde por menos de um terço da ocupação industrial nacional - na década de 1980, era responsável por mais de dois quintos dos postos de trabalho em manufatura.
Simultaneamente, concentra significativo contingente de desempregados, com abrigo de um quarto de toda mão de obra excedente do país - há três décadas registrava somente um quinto dos brasileiros sem trabalho.
Em consequência, percebe-se a perda de importância relativa no total da ocupação nacional, que decaiu de um quinto para um quarto na virada do século passado para o presente.
Se projetada no tempo, essa situação pode se tornar ainda mais grave, com São Paulo chegando a responder por menos de 20% da ocupação nacional, por um terço de todos os desempregados e apenas por um quinto do emprego industrial brasileiro no início da terceira década do século 21.
Essa trajetória pode ser perfeitamente revertida, uma vez que não há obstáculo econômico sem superação.
A resposta paulista, contudo, precisaria vir da montagem de uma estratégia inovadora e de longo prazo que não seja a mera repetição do passado.
Na visão da antiga oligarquia paulista, governar seria fundamentalmente abrir estradas, o que permitiria ocupar o novo espaço com o natural progresso econômico. Por muito tempo, o Estado pôde se privilegiar dos largos investimentos governamentais em infraestrutura, o que permitiu transitar das grandes fazendas produtoras e exportadoras de café no século 19 para o imenso e diversificado complexo industrial do século 20.
Em apenas duas décadas, o Estado paulista rebaixou a concentração de quase dois terços de sua mão de obra no setor primário para menos de um terço, dando lugar ao rápido crescimento do seu proletariado industrial.
Com isso, a ocupação em manufatura convergiu para São Paulo, passando a representar 40% de todos os empregos industriais do país na década de 1960, contra um quarto em 1940.
Em virtude disso, o protagonismo paulista reverberou nacionalmente por meio do ideário de que seria a locomotiva a liderar economicamente o Brasil grande. Tanto que não era incomum à época que as lideranças de outros Estados sonhassem com a possibilidade de repetir o caminho paulista. O principal exemplo se deu com a implantação de uma "mini-São Paulo" no meio da Floresta Amazônica, por intermédio da exitosa implantação da Zona Franca de Manaus.
Para as décadas vindouras, o futuro tende a exigir a ampliação predominante do trabalho imaterial, cujo principal ativo é o conhecimento.
Não significa dizer que as bases do trabalho material (agropecuária e indústria) deixem de ser importantes, pois é estratégico o fortalecimento das novas fontes a protagonizar o dinamismo econômico do século 21.
Se houver força política nesse sentido, o Estado de São Paulo poderá transitar para a continuidade da condição de liderança econômica da nação, passando a responder por 40% do total do trabalho imaterial do país.
Os esforços de transformação são inegáveis, pois, além da necessária oxigenação de suas instituições, os próximos governos precisariam inverter suas prioridades, com a adoção, por exemplo, de um gigantesco e revolucionário sistema educacional que assegure as condições necessárias do acesso de todos ao ensino, do básico ao superior, ademais da educação para a vida toda e com qualidade.
Na sociedade do conhecimento em construção, a liderança econômica não surgirá da reprodução de sistemas de ensino comprometidos com o passado, tampouco de relações governamentais com profissionais da educação compatíveis com o século 19.
Ainda há tempo para mudanças contemporâneas, sobretudo quando a política pública é capaz de romper com o governo das ideias ultrapassadas. Sem isso, o fantasma da decadência reaparece, fazendo relembrar as fases de liderança econômica de Pernambuco durante a colônia e do Rio de Janeiro no império.

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MARCIO POCHMANN, 47, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

Fonte: Folha de São Paulo - 30/03/10

20 março, 2010

A modernização conservadora

A modernização conservadora

Os críticos do governo Lula reiteram, sem pestanejar, que Lula não teria rompido com a modernização conservadora. Reconhecem, porém, que houve algum tipo de ruptura ao optar por um modelo de desenvolvimentismo que privilegia o capital nacional. Daí a tese deles de que Lula estaria reorganizando o capitalismo brasileiro, mesmo não sendo avesso ao capital transnacional.
Alguns acreditam que, sob o governo Lula, o capitalismo brasileiro se tornou um global player, levando o país a um desenvolvimento que vai reiterar as mais doces expectativas acalentadas pela esquerda e pelos progressistas nos anos 1950 e 1960. O problema residiria na verticalização e centralização do Estado, capaz de esvaziar o debate público, a única forma de impedir que os mercados interno e externo se transformem no monopólio de um grupelho.
Reclamam, então, que Lula não atacou nem feriu de morte a hegemonia dos poderosos do agronegócio, das finanças e da grande indústria, permitindo que eles, ao se aninharem no interior do Estado, possam se apropriar das riquezas que serão geradas pelo desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Postulam então que esse capitalismo seja organizado numa social-democracia avançada, com um Estado forte, mas sob controle da sociedade.
Com isso, a montanha crítica consegue, no máximo, parir um rato. Não discute, sequer, se nas presentes condições brasileiras, seria possível ter uma modernização não-conservadora. Isto é, uma modernização impulsionada por um Estado que ousasse combinar a construção de instrumentos de propriedade social (estatais e públicas) com a democratização da propriedade capitalista, evitando a formação de monopólios e oligopólios e utilizando mecanismos diferenciados para desenvolver as forças produtivas em combinação com uma constante e progressiva redistribuição de renda.
A história demonstrou que os Estados de bem-estar da social-democracia só conseguiram combinar a construção de instrumentos de propriedade social com a democratização da propriedade capitalista, assim como manter uma razoável redistribuição de renda, em condições históricas muito especiais. Isto é, enquanto podiam dominar mecanismos econômicos e políticos que lhes permitia transferir riquezas dos países dependentes da periferia, e enquanto estavam sob a pressão comparativa dos países socialistas europeus.
Quando essas condições se reduziram ou deixaram de existir, e o capitalismo se reestruturou em corporações transnacionais, a social-democracia teve que se transformar em social-liberalismo. Tornou-se incapaz de gerir um capitalismo que, ao mesmo tempo em que se desenvolvia, permitia que se redistribuísse a riqueza gerada de uma forma menos desigual. Assim, as sociais-democracias européia e brasileira não mudaram sua natureza por maldade, mas pela imperiosidade das novas condições do capital.
Por outro lado, o socialismo voltou à pauta. Porém, mais pelo fracasso do neoliberalismo e pelas contradições do capital do que pela ação dos socialistas. Portanto, deduzir que o retorno da problemática socialista à pauta social represente a criação imediata das condições para a transformação radical da sociedade brasileira é não só um sonho, mas um desejo voluntarista de primeira ordem.
Além disso, não devemos esquecer que, em nosso país, o capitalismo se desenvolveu tendo por base grandes empresas estatais e privadas, estas últimas também com o apoio do Estado. Ao contrário de outros países, em que o capital criou uma massa considerável de pequenos capitalistas, com força social e política, aqui isso não ocorreu.
Na verdade, a democratização da propriedade capitalista sempre foi vista como uma ideologia comunista, por paradoxal que isso possa parecer. A reforma agrária, de conteúdo essencialmente burguês, sempre foi tratada como uma reivindicação comunista.
As mobilizações sociais ocorridas no Brasil nos últimos 60 anos foram incapazes de impor a democratização da propriedade da terra e a democratização da propriedade capitalista. Nas zonas rurais, hoje o Brasil corre o risco de ver os remanescentes do latifúndio improdutivo serem transformados em grandes explorações agrícolas capitalistas, ou o chamado agronegócio, ao invés de ver ampliadas as explorações camponesas.
A tendência é de que as explorações camponesas sejam engolidas pela rápida expansão do agronegócio, transformando os lavradores autônomos em proletários rurais, operários industriais ou lumpensinato. Em outras palavras, as pequenas-burguesias industrial e agrícola no Brasil continuam sem ter força social suficiente para impor seus interesses próprios.
Nessas condições, a proposta de romper com a modernização conservadora pode ser muito bonita e teoricamente ideal, mas sua execução prática demandaria não apenas um governo como o de Lula, mas também um Estado suficientemente forte para realizar uma modernização democrática e popular. Nesse sentido, um Estado social-democrata, pela mudança da natureza da social-democracia, romperia com a modernização conservadora por seu lado pior. Isto é, liquidando a modernização, a exemplo do que fez FHC, mesmo que seu candidato fale em Estado ativo.
Nas condições presentes, para não paralisar a modernização, a pretexto de que ela é conservadora, talvez a política mais adequada resida em introduzir modificações que permitam reforçar a participação do capital estatal no pacto com os capitais privados nacionais e estrangeiros, ampliar significativamente a presença do pequeno capitalismo (ou capitalismo democrático) na sociedade e criar condições favoráveis para a participação democrática e popular nas decisões do Estado.
Ou seja, no contexto atual, o que pode realmente introduzir mudanças na modernização conservadora é o desenvolvimento da musculatura das empresas estatais, da força econômica da pequena-burguesia urbana na indústria e nos serviços e da pequena-burguesia rural na agricultura, e da força social dos trabalhadores assalariados urbanos e rurais na sociedade e na participação política.

Fonte: Correio da Cidadania.
Autor: Wladimir Pomar.

Asiáticos acirram disputa por trem-bala

Asiáticos acirram disputa por trem-bala

Grupos do Japão e da Coreia do Sul se unem a empreiteiras nacionais para o leilão; chineses podem entrar sozinhos na concorrência.
Andrade Gutierrez deve se aliar a empresas japonesas como Mitsui, Toshiba e Mitsubishi, e grupo Bertin, às coreanas Samsung e Hyundai.
Às vésperas do lançamento do edital de licitação do trem-bala Rio-SP, os possíveis interessados na obra -a maior do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), orçada em R$ 34 bilhões- já estão se organizando para a disputa.
No radar das autoridades do governo encarregadas do empreendimento já apareceram duas combinações: a empreiteira Andrade Gutierrez com os grupos japoneses (Mitsui, Toshiba, Hitachi, Mitsubishi e Japan Railway) e o Grupo Bertin com os sul-coreanos (Samsung e Hyundai).
A posição dos chineses intriga as autoridades brasileiras. A princípio, a impressão é que a associação seria com a Odebrecht. Agora não há mais tanta certeza, e a avaliação é que os chineses poderão entrar sozinhos, para negociar a associação com algum grupo nacional já com a obra assegurada.
As últimas semanas foram de intensa negociação dos empresários com o governo para a modificação de aspectos do edital considerados inadequados. Em muitos pontos, o governo cedeu. Agora, a expectativa é em relação à aprovação dos estudos pelo TCU (Tribunal de Contas da União) e de eventuais mudanças que o órgão venha a sugerir.

Regras

A construção do trem-bala exigirá pesado financiamento público. Para minimizar esse aspecto, uma das regras do edital prevê que o vencedor seja a empresa ou o consórcio que pedir menos dinheiro ao Estado. Esse critério terá peso de 70% na classificação.
O valor da tarifa também será levado em consideração, com peso de 30%. Quem pedir a menor tarifa leva vantagem, respeitado o teto estabelecido pelo governo: R$ 0,50 por quilômetro, ou R$ 206,15 entre os centros das duas cidades (da estação Barão de Mauá, no Rio, até o Campo de Marte, em SP).
O governo brasileiro participará do consórcio vencedor por meio de uma empresa pública, que aportará até R$ 3,4 bilhões. Haverá financiamento direto da União, de até R$ 20,8 bilhões, com prazo de vencimento de 30 anos. O Estado terá uma "golden share" (ação especial) na empresa vencedora, o que dará ao governo poder de veto para seis questões: 1) mudança de denominação social; 2) mudança de sede; 3) mudança de objeto da empresa; 4) liquidação, fusão ou incorporação; 5) mudança de dispositivos estatutários; e 6) mudança na própria "golden share".
A empresa pública terá como objetivo absorver a tecnologia de transporte ferroviário de passageiros em alta velocidade. A tecnologia deve ser usada nos próximos projetos: ligação Viracopos-Belo Horizonte e São Paulo-Curitiba.

Transnordestina

Depois de muitas dificuldades para tocar o projeto, o governo comemorou o acerto entre o grupo Odebrecht e a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) para a conclusão da ferrovia Transnordestina. Segundo a Folha apurou, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá comparecer à cidade de Salgueiro (PE) e visitar fábricas de dormentes e produção de brita. Inicialmente prevista para o final de 2010, a obra deverá ficar pronta em abril de 2012.
O projeto, de R$ 5,4 bilhões, prevê a ligação da cidade de Eliseu Resende (PI) aos portos de Suape (PE) e Pecém (CE). São 1.728 km de novos trilhos e 550 km de remodelação. A cidade de Salgueiro fica a meio caminho entre a origem da ferrovia, no sul do Piauí, e o porto de Suape.

Aeroporto do Galeão deve ficar fora do traçado

O aeroporto do Galeão (RJ) deverá deixar de ser uma estação obrigatória do trem-bala. A sugestão foi feita por vários possíveis investidores ao governo, que não vê problema em retirá-la, desde que o futuro concessionário dê uma solução alternativa para ligar o aeroporto internacional do Rio de Janeiro a uma das estações do trem-bala. O argumento dos investidores foi o de que a inclusão do Galeão no traçado iria encarecer o projeto em aproximadamente R$ 2 bilhões.
Com a saída do Galeão, as estações obrigatórias serão Barão de Mauá (RJ), Aparecida (SP), Campo de Marte (SP), Guarulhos (SP), Viracopos (SP) e Campinas (SP). Além disso, o empreendedor terá que construir mais duas estações, à sua escolha, no Vale do Paraíba.
Essa não é a primeira concessão que o governo faz para adequar o projeto às necessidades dos interessados privados e, assim, tentar aumentar a competição no leilão. Uma delas foi liberar a tarifa, deixando sob controle da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) apenas o valor da passagem entre o centro do Rio e o de São Paulo, na classe econômica. Todos os demais trechos e classes terão preços livres.
Outra mudança feita pelo governo foi adotar uma metodologia para dar mais garantia aos investidores quanto a uma possível demanda inferior à projetada. A demanda é o fator preponderante para determinar o fluxo de caixa do empreendimento, o que, por sua vez, determina as condições de pagamento dos empréstimos feitos.
Nesse caso, o temor é que uma demanda mais baixa inviabilize o pagamento do financiamento. Para contornar o problema, o governo vai desenvolver uma metodologia de financiamento que permita que os juros do empréstimo e o prazo de pagamento sejam alterados, caso haja menos demanda.

Fonte: Folha de São Paulo - 19/03/2010

Cidades brasileiras integram lista das mais desiguais

Cidades brasileiras integram lista das mais desiguais

Cinco cidades brasileiras estão entre as 20 mais desiguais do mundo. Segundo relatório apresentado, na abertura do 5º Forum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio, revela que Goiânia (10ª), Belo Horizonte (13ª), Fortaleza (13ª), Brasília (16ª) e Curitiba (17ª) são as que apresentam as maiores diferenças de renda entre ricos e pobres no País. O documento "O Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido" também informa que o Brasil é o país com a maior distância social na América Latina.
O Rio de Janeiro, na 28ª posição, e São Paulo, na 39ª, também são cidades consideradas com alto índice de desigualdade, de acordo com o relatório da ONU. Nove municípios na África do Sul lideram o ranking. As capitais da Nigéria, Etiópia, Colômbia, Quênia e Lesoto também estão entre as mais desiguais. No total, 138 cidades de 63 países em desenvolvimento foram analisadas. O relatório baseia suas conclusões no coeficiente Gini - cujos indicadores medem a concentração de renda de um país.
Na avaliação do coordenador do relatório e diretor do Centro de Estudos e Monitoramentos das Cidades do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o mexicano Eduardo Lopez Moreno, existe vínculo direto entre desigualdade e criminalidade. Mais do que custos sociais, o abismo entre ricos e pobres também provoca prejuízos econômicos.
"Estatisticamente falando, existe sim um vínculo. É muito possível que a cidade mais desigual vai gerar muito mais fácil distúrbios e problemas sociais. As autoridades desses países vão deslocar recursos que deveriam ir para investimentos para conter esses movimentos sociais. O custo social acaba se traduzindo em custo econômico", afirmou Moreno.

Favelas

Em termos de favelização, o estudo da ONU apresenta resultados paradoxais para o Brasil. Apesar de ter sido o país que apresentou o maior número absoluto de pessoas que deixaram de viver em condições de favelização na América Latina - 10,4 milhões -, a pesquisa mostrou que o desempenho relativo ficou abaixo dos vizinhos. Enquanto as condições de moradia melhoraram para 16% da população brasileira, este índice ficou em 40,7% na Argentina, 39,7% na Colômbia, 27,6% no México e 21,9% no Peru.
As estimativas apresentadas na pesquisa são de que mais de 227 milhões de pessoas no mundo todo deixaram de viver em regiões faveladas desde o ano 2000. Isso representa uma evolução 2,2 vezes maior do que o estimado nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, que haviam estabelecido objetivo de melhorar as condições de habitação de 100 milhões de pessoas até 2020.
"A situação melhorou em dez anos, mas infelizmente no mesmo período o aumento líquido dos pobres urbanos é de 55 milhões", disse Anna Tibaijuka, diretora-executiva do ONU-Habitat.
De acordo com a metodologia da pesquisa, deixar de viver em condição de favelização não significa necessariamente mudança de residência ou remoção de comunidade. Acesso a saneamento básico e água potável, o material utilizado nas moradias e a densidade das residências são os fatores para avaliar se uma região é ou não favelada.

Fonte: estadao.com.br

11 março, 2010

A população brasileira: a estratégia da colonização e os períodos de imigração

A população brasileira: a estratégia da colonização e os períodos de imigração

Os movimentos populacionais podem ser voluntários ou forçados e o Estado pode ou não exercer alguma forma de controle sobre o fluxo de pessoas (entrada ou saída) em seu território.
A colonização do Brasil não se caracterizou pelo propósito de formar uma nação por parte da Coroa portuguesa, que apenas se limitou a garantir a posse do imenso território. A fórmula encontrada para isso foi a exploração dos recursos naturais, com a instalação de algumas atividades econômicas aproveitando a mão-de-obra indígena, aparentemente numerosa e de baixo custo. Posteriormente os portugueses passaram a buscar trabalhadores em suas colônias da África, o que significou a imigração forçada de um enorme contingente populacional, durante pelo menos dois séculos. Mesmo após 1822, com a proclamação da independência política, a estratégia do Estado e das elites não esteve voltada à formação de uma unidade nacional estruturada nos habitantes de seu vasto território. Leia o texto a seguir, que esclarece essa questão.

 
A imigração para o Brasil iniciou-se em 1530 com a expedição de Martim Afonso de Sousa. Os portugueses que vinham para cá estavam interessados apenas na extração de recursos naturais para comercializá-los na Europa. Com a criação das capitanias hereditárias e o início da lavoura de cana-de-açúcar, houve a fixação de portugueses e escravos negros no país, sobretudo no litoral dos atuais estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Embora nessa época tenham surgido algumas vilas nas áreas que, atualmente, correspondem a São Paulo e Rio de Janeiro, a ocupação do território começa a se impulsionar somente a partir dos séculos XVIII e XIX, com a mineração e atividade cafeeira.
Durante o período colonial, ocorreram diversas invasões estrangeiras no Brasil, sobretudo de franceses, holandeses e britânicos. Alguns deles chegaram a fixar-se em pontos do território, mas acabaram expulsos pelos portugueses, muitas vezes com o apoio de povos indígenas.
Com a abertura dos portos, em 1808, foi permitida a entrada de outros imigrantes europeus livres além dos portugueses, até então os únicos, ao lado dos escravos, que podiam se fixar no Brasil. O fluxo de imigrantes livres, porém, foi muito pequeno, já que praticamente não havia empregos que pudessem ser oferecidos a eles. As funções urbanas (comércio, funcionalismo público e serviços em geral) eram exercidas pelos portugueses e seus descendentes, enquanto as atividades econômicas de base agrária ficavam a cargo dos escravos.
Esse quadro começa a se alterar a partir de 1850, com a proibição do tráfico negreiro (Lei Eusébio de Queirós), maior desenvolvimento das atividades cafeeiras e urbano-industriais e facilidade de acesso à posse de terra na região Sul. Associados, esses fatores tornaram o Brasil um pólo de atração para os imigrantes europeus. Entretanto vale destacar que nesse período os Estados Unidos e a Argentina receberam mais imigrantes que o Brasil, por oferecerem mais oportunidades de ascensão social aos colonos. De qualquer forma, houve uma grande entrada de imigrantes livres até 1929, ano da crise econômica mundial decorrente da quebra da Bolsa de Valores de Nova York.




Na Hospedaria dos Imigrantes, localizada no bairro do Brás (São Paulo), os fazendeiros recrutavam mão-de-obra para trabalhar nas lavouras de café. Hoje na antiga hospedaria funciona o Museu da Imigração, onde é possível obter muitas informações sobre os antepassados de diversos brasileiros.
 




Segundo estimativas do IBGE, entre 1530 e 1808 ingressaram no Brasil cerca de 4 milhões de escravos negros africanos e, no máximo, um milhão de portugueses, que se dirigiam às plantações de cana-de-açúcar na região Nordeste, às minas de ouro do centro-sul de Minas Gerais e Goiás e às cidades que se desenvolveram em conseqüência do crescimento dessas atividades. De 1850 a 1930, aproximadamente 4,3 milhões de imigrantes livres (dos quais os italianos eram a maioria) entraram no país para suprir as necessidades de mão-de-obra nas lavouras cafeeiras, nos centros urbano-industriais e no processo de povoamento da região Sul.
Com a crise mundial de 1929, as regiões do país de economia agroexportadora entraram em colapso. A principal área atingida foi o estado de São Paulo, que enfrentou problemas com a queda do café. A região de Ilhéus passou pela crise do cacau e o restante da Zona da Mata nordestina sofreu com a queda na exportação de açúcar. Nesse contexto, intensifica-se o processo de industrialização brasileira, principalmente na região Sudeste, que passou a receber grandes contingentes de mão-de-obra nordestina. Já a região Sul, que tinha sua economia voltada para o mercado interno, sofreu menos com a crise de 1929.
O deslocamento de nordestinos para o Sudeste era indício de que a oferta de empregos não estava atendendo à demanda, de que o desemprego gerado pela crise mundial estimulava a migração pelo país. Em 1934, percebendo que o número de empregos não era suficiente para ocupar a mão-de-obra disponível no país, o governo Getúlio Vargas criou a Lei de Cotas de Imigração e passou a controlar a entrada de estrangeiros, para evitar que o índice de desemprego aumentasse e provocasse instabilidade social. Segundo essa lei, a cada ano só poderiam entrar no país 2% do total de imigrantes dos 50 anos precedentes, por nacionalidade. Por exemplo, de 1885 a 1934 cerca de um milhão de italianos haviam entrado no Brasil; em 1935 poderiam entrar 2% desse contingente, ou seja, apenas 20 mil. Essa lei não foi aplicada aos portugueses, cuja entrada permaneceu livre.
Na prática, a restrição imposta pela Lei de Cotas mostrou-se não apenas numérica, mas também ideológica. Se o imigrante demonstrasse simpatia aos movimentos anarcossindicalista ou comunista, por exemplo, era impedido de entrar no país. Além disso, 80% das pessoas aceitas eram obrigadas a trabalhar na zona rural. Com essas medidas, ficavam assegurados a manipulação ideológica e o controle social, já que os trabalhadores nordestinos que iam para São Paulo e para o Rio de Janeiro sujeitavam-se a situações de trabalho geralmente rejeitadas pelos imigrantes europeus, que eram mais organizados e politizados. De 1929 a 1945, período marcado pela crise mundial e pela Lei de Cotas, a entrada de imigrantes no Brasil não foi numericamente significativa.

 
 
 
Os imigrantes europeus fundaram os primeiros sindicatos e organizaram as primeiras greves no país. Na foto, a greve geral de 1917 em São Paulo.
 
 




Do fim da Segunda Guerra até 1973, o Brasil passou por um período de grande crescimento econômico e tornou-se novamente um país de atração populacional. Durante o mandato democrático de Getúlio Vargas (1950-1954) e no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), ocorreu expressiva entrada de investimentos produtivos estrangeiros, que, somados aos estatais e privados nacionais, ampliaram o volume de empregos nas atividades secundárias e terciárias. Apesar de significativa em termos absolutos, a participação percentual da imigração no crescimento populacional era reduzida, atingindo apenas 2,4% na década de 1950. Como estudaremos adiante, a partir da década de 1980 a emigração passou a superar numericamente a imigração como conseqüência da instabilidade política, do desemprego e dos baixos salários. Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores, 1,5% dos brasileiros moravam no exterior em 2003.
 
Entrada de imigrantes no Brasil (1808-1975)
Fonte: Azevedo, Aroldo de. Brasil: a terra e o homem. São Paulo: Nacional/Edusp, vol. II, 1970. [s. p., tabela 4.]

 PRINCIPAIS CORRENTES IMIGRATÓRIAS E EMIGRAÇÃO BRASILEIRAS

Não é possível estimar quantos escravos negros ingressaram no Brasil, quais os anos de maior fluxo, por qual porto entraram e de que lugar da África provieram. O gráfico abaixo contém dados apenas da entrada de imigrantes livres a partir de 1808, não considerando a corrente africana, a mais importante até 1850. Segundo as estimativas, ingressaram no país pelo menos quatro milhões de negros de 1550 a 1850, a maioria de Angola, Ilha de São Tomé e Costa do Marfim.


Entre as correntes imigratórias especificadas no gráfico, a mais importante foi a portuguesa, que se iniciou em 1530 e se estendeu até 1986. Além de serem numericamente mais significativos, os imigrantes portugueses espalharam-se pelo território nacional. A partir de 1986, entretanto, começou a haver uma inversão de fluxo, explicada pelo ingresso de Portugal na União Européia. A melhora das condições de vida nesse país atraiu emigrantes brasileiros. Preocupados com esse fato, os demais membros da União Européia pressionaram Portugal a dificultar a entrada de brasileiros no país, uma vez que esse acesso significa livre trânsito em toda a comunidade européia.
A segunda maior corrente de imigrantes livres foi a italiana; a terceira, a espanhola e a quarta, a alemã. A partir de 1850, a expansão dos cafezais pelo Sudeste e a necessidade de efetiva colonização da região Sul levaram o governo brasileiro a criar medidas de incentivo à vinda de imigrantes europeus para substituir a mão-de-obra escrava. Entre as principais medidas adotadas e divulgadas na Europa, incluíam-se o financiamento da passagem e a garantia de emprego, com moradia, alimentação e pagamento anual de salários.
Embora atraente, a propaganda governamental se revelou enganosa, porque escondia uma realidade perversa: ao fim de um ano de trabalho duro nas lavouras de café, quando deveria receber seu pagamento, o imigrante era informado de que seu salário não era suficiente sequer para pagar as despesas de transporte — que, segundo a propaganda, seria gratuito — e moradia, quanto mais dos alimentos consumidos ao longo do ano. A saída do imigrante da fazenda somente seria permitida quando a dívida fosse quitada. Como não tinha condições de pagar o que devia, ele ficava aprisionado no latifúndio, vigiado por capangas para evitar sua fuga. Na prática, tratava-se de uma escravidão por dívida, comum até hoje em vários estados do Brasil. Essa realidade levou a Alemanha, em 1859, a proibir a imigração para o Brasil.








A cidade de Blumenau foi fundada por imigrantes alemães com base na colonização de povoamento. Na foto, construção em estilo arquitetônico alemão (enxaime), 2003.








Além dos cafezais da região Sudeste, outra grande área de atração de imigrantes europeus, com destaque para portugueses, italianos e alemães, foi o Sul do país. Nessa região, os imigrantes ganhavam a propriedade da terra, onde fundaram colônias de povoamento (pequenas e médias propriedades, mão-de-obra familiar, produção policultora destinada ao abastecimento interno) que prosperaram bastante, tais como Porto Alegre e Florianópolis, fundadas por portugueses; Joinville e Blumenau, por alemães; Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves, por italianos, dentre dezenas de outras cidades menos conhecidas. Os espanhóis não fundaram cidades importantes; em vez disso espalharam-se pelos grandes centros urbanos de todo o Centro-sul brasileiro, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro.
Em 1908, aportou em Santos a primeira embarcação trazendo colonos japoneses. O destino de quase todos foram as lavouras de café do estado de São Paulo. Assim como os colonos das demais nacionalidades, eles sofreram com a escravidão por dívida e tiveram dificuldades de adaptação e integração cultural. As diferenças de língua, religião e cultura, associadas ao receio de se verem escravizados, levaram os japoneses a criar núcleos de ocupação pouco integrados à sociedade. Eles respondem por aproximadamente 5% do total de imigrantes livres que ingressaram no país. Desde meados dos anos 1960, muitos de seus descendentes, já plenamente integrados ao cotidiano nacional, migraram das áreas tradicionais de ocupação da colônia e, em sua maioria, fixaram-se na Grande São Paulo. Da década de 1980 até os dias atuais, porém, outros descendentes, fazendo o caminho inverso de seus ancestrais, emigraram em direção ao Japão como trabalhadores (os chamados decasséguis), ocupando postos de trabalho renegados por cidadãos japoneses, geralmente em linhas de produção industrial.

 
 
 
   
Muitas famílias japonesas instalaram-se próximo aos grandes centros urbanos e cultivam produtos hortifrutigranjeiros.
 
 



As correntes imigratórias de menor expressão numérica incluem judeus (espalhados pelo país e provenientes de diversos países, principalmente europeus), árabes (sírios e libaneses, também espalhados pelo país), chineses e coreanos (mais concentrados em São Paulo) e eslavos (principalmente poloneses, lituanos e russos, mais concentrados em Curitiba e seu entorno). Há também sul-americanos (sobretudo chilenos, bolivianos e argentinos), a maioria na Grande São Paulo.
 
Estrangeiros residentes no Brasil 2000


Migrações no Brasil
 
A população de um país não é apenas modificada pelas mortes e nascimentos de seus habitantes. É preciso levar em conta, também, os movimentos de entrada e de saída, ou seja, as migrações que ocorrem em seu território.
As migrações internas são aquelas que se processam no interior de um país como por exemplo êxodo rural, o que é constante no Brasil.
A história do povo brasileiro é uma história de migrações. As migrações não ocorreram ou ocorrem por causa de guerras, mas pela inconstância dos ciclos econômicos e de uma economia planejada independentemente das necessidades da população.



História

As migrações pelo território brasileiro estão associadas, como nota-se ao longo da história, a fatores econômicos, desde o tempo da colonização pelos europeus. Quando terminou o ciclo da cana-de-açúcar na região Nordeste e teve o início do ciclo do ouro, em Minas Gerais, houve um enorme deslocamento de pessoas em direção ao novo centro econômico do país. Graças ao ciclo do café e, posteriormente, com o processo de industrialização, a região Sudeste pôde se tornar efetivamente o grande pólo de atração de migrantes, que saíam de sua região de origem em busca de empregos ou melhores salários.
Acentuou-se, então, o processo de êxodo rural; migração do campo para a cidade, em larga escala. No meio rural, a miséria e a pobreza agravadas pela falta de infra-estrutura (educação, saúde, etc.), pela concentração de terras nas mãos dos latifundiários e pela mecanização das atividades agrárias, fazem com que a grande população rural se sinta atraída pelas perspectivas de um emprego urbano, que melhore o seu padrão de vida. O fascínio urbano torna-se, então, o principal fator de atração para as grandes cidades.No entanto, o que ocorre é que a cidade não apresenta uma oferta de empregos compatível à procura. Em conseqüência surgem o desemprego e o sub-emprego no setor de serviços, como os vendedores ambulantes e os trabalhadores que vivem de fazer "bicos". E isso necessariamente vai resultar na formação de um cinturão marginal nas cidades, ou seja, o surgimento de favelas, palafitas e invasões urbanas.
Atualmente, nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, é significativa a saída de população das metrópoles em direção às cidades médias do interior. A causa desse movimento é que as metrópoles estão completamente inchadas, com precariedade no atendimento de praticamente todos os serviços públicos, altos índices de desemprego e criminalidade. Já as cidades do interior desses estados, além de estar passando por um período de crescimento econômico, oferecem melhor qualidade de vida à população.

Fonte: Mundo Geo