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21 março, 2010

República Democrática do Congo: Europa se suja com minerais sangrentos

República Democrática do Congo:  Europa se suja com minerais sangrentos

A organização Global Witness pediu à União Europeia (UE) que proíba o tráfego de minerais extraídos da República Democrática do Congo (RDC), pois alimentam a brutal guerra civil nesse país africano.

“Pedimos à UE que aprove uma lei que exclua do mercado europeu os minerais procedentes da conflitiva região oriental da RDC”, disse Lizzie Parsons, da Global Witness (Testemunha Global), uma organização internacional que investiga os vínculos entre exploração de recursos naturais e violações de direitos humanos.
Os grupos armados manejam a maior parte do comércio de minerais do leste da RDC, segundo a entidade. Obtêm lucros multimilionários por meio do controle abusivo das minas e da exigência de subornos ou impostos. Companhias dos Estados-membros da União Europeia estão entre os compradores. O comércio ilegal de minerais é conhecido por ser um dos fatores que avivam a violência e contribui para as violações de direitos humanos desde o começo da guerra nesse país.
Ativistas pelos direitos humanos há tempos denunciam que as organizações rebeldes da RDC vendem minerais para comprar armas. Além disso, cometem terríveis atropelos contra a população civil, desde assassinatos em massa, violações e torturas até recrutamento forçado de menores. A Global Witness reuniu informações na região nos últimos meses, e visitou minas controladas por grupos armados. Os insurgentes seriam muito mais pobres e teriam muito menos armas se não existisse o comércio de minerais. “Sabemos que representam uma proporção significativa de sua renda”, disse Parsons.
A Global Witness quer que os que recebem mineral da RDC identifiquem as minas de onde são retirados. Também recomenda inspeções e auditorias que sustentem essas declarações. Algumas empresas se esforçam, mas não é suficiente, segundo a organização. “As políticas das empresas ficam no papel. Há outras, como a norte-americana Apple, que nem mesmo reconhece o problema”, ressaltou Parsons.
Os chamados “minerais sangrentos”, como estanho, tantálio e tungstênio, são levados da RDC para a Ásia-Pacífico, onde são transformados em matéria-prima muito valiosa para a indústria de produtos eletrônicos, como câmeras fotográficas digitais, telefones celulares, computadores portáteis ou reprodutores multimídia portáteis como os i-Pods da Apple. Os governos pouco fazem para deter o comércio de minerais sangrentos, segundo a Global Witness. Um projeto de lei foi apresentado ao Senado dos Estados Unidos, em maio de 2009, para obrigar as empresas desse país a revelar a origem de seu fornecedor.
A UE confirmou sua vontade de cooperar de maneira mais formal e no âmbito judicial na luta contra a exploração ilegal desses minerais, segundo o representante especial do bloco para a região dos Grandes Lagos, Roeland van de Geer. Mas até agora não aprovou nenhuma lei que impeça os minerais procedentes da RDC de entrarem em território europeu.
“Alguns especialistas sugerem uma adaptação do ‘modelo Kimberley’, que regula os diamantes, mas outros acreditam que é pouco provável que as leis internacionais sirvam para lutar contra a exploração ilegal de minerais”, disse Van de Geer. O processo Kimberley é um sistema de certificação integrado por dezenas de governos para evitar o comércio de diamantes cuja exploração custeia guerras.
O escritório do representante da UE funciona como secretaria de uma equipe de trabalho dedicada ao tema da exploração dos recursos naturais no leste da RDC. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma resolução que prepara o caminho para congelar os ativos e proibir as viagens de companhias que apoiam de forma indireta as organizações armadas da RDC por meio da compra de minerais sangrentos.
A exploração ilegal de recursos naturais não é um fenômeno novo na região oriental da RDC. Pelo contrário, é uma característica do conflito que começou em 1996 e que está bem documentado por organizações não governamentais e pelo Grupo de Especialistas das Nações Unidas sobre Exploração de Recursos Naturais desse país.

Fonte: mwglobal.org/ipsbrasil.net

10 março, 2010

Conflitos na Nigéria envolvem questões religiosas e disputas por terras

Conflitos na Nigéria envolvem questões religiosas e disputas por terras


AFP Moradores de Zot, a 10 km ao sul da capital Jos, veem os estragos causados pelo conflito

A origem dos conflitos de domingo (7) entre muçulmanos e cristãos que deixaram 500 mortos e 200 feridos na Nigéria, segundo alguns relatos, não se limita apenas a disputas religiosas. Por trás da violência está, também, a briga por terra e recursos naturais.
O ataque do último fim de semana é o mais recente episódio do confronto étnico-religioso do Estado de Plateau, região onde o norte mulçumano da etnia fulani encontra-se com o sul cristão da etnia berom.
Para o nigeriano Chima Korieh, professor assistente do Departamento de História da Universidade de Marquette, nos Estados Unidos, existem aspectos religiosos que explicam os confrontos, mas não se pode descartar as questões econômicas e políticas.
“A maior parte desta região é habitada por cristãos, mas há muitos muçulmanos emigrando para lá. Isso tem feito com que haja contestação em torno dos recursos [naturais] e da terra. Os cristãos acham que os muçulmanos querem tomar o que é deles, e o governo não tem feito nada” explica Korieh.
Os fulanis são nômades e pecuaristas que foram para a região de Jos - capital do Estado de Plateau - em busca de pasto. Já os berons são agricultores e controlam as terras férteis.
“É preciso ir à raiz do problema. O problema de acesso aos recursos, [definir] a quem pertence os recursos e de quem é a terra. Se nada for feito, isso [os confrontos] continuará acontecendo”, afirma Koriech.
Segundo explica o professor nigeriano, as disputas na região são antigas e têm crescido nos últimos anos. Os conflitos envolvendo cristãos e muçulmanos na Nigéria deixaram mais de 12 mil mortos desde 1999, quando foi implantada a sharia (lei islâmica) em 12 Estados do norte do país.
“Em 1967, antes da Guerra Civil na Nigéria começar, tivemos muitos assassinatos entre muçulmanos e cristãos no norte. [O primeiro conflito de] 1999 não foi um caso isolado, é algo que vem crescendo na Nigéria desde a década de 50 do século passado”, afirma.
O último confronto tinha ocorrido em janeiro deste ano, quando cristãos atacaram e mataram mais de 300 muçulmanos. Os ataques do último fim de semana seriam uma vingança por parte dos fulanis.

Fonte: Notícias UOL - 10/03/10

17 janeiro, 2010

AIDS NA ÁFRICA: uma assustadora e grave epidemia

AIDS NA ÁFRICA: uma assustadora e grave epidemia


Milhões de infectados vivem no continente, onde a doença se alastra enquanto o resto do mundo assiste a tudo calado.

Com pouco mais de 10% da população mundial, a África subsaariana espantosamente possui 70% de todas as pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo. Os dados fornecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas) indicam que em 2003 cerca de 37,8 milhões de pessoas viviam com o vírus no planeta, sendo que, desse grupo, a África subsaariana detém 25 milhões.

No continente, vários países apresentam a doença de maneira generalizada, com a população contaminada superior a 1% do total de habitantes. Na África, especialmente na sua porção meridional, a propagação do vírus vem crescendo em todas as classes sociais, não se restringindo apenas aos chamados grupos de risco.

A situação africana é tão grave que a ONU considera que a Aids já virou uma epidemia em alguns países. Desde a década de 1980, aproximadamente 11 milhões de pessoas morreram na África meridional, vítimas da doença, e atualmente sete países apresentam mais de 15% da população total infectada com o vírus. Botsuana e Suazilândia são os países com maiores taxas, respectivamente 38,8% e 37,3%. Logo atrás vêm Lesoto (28,9%), Zimbábue (24,6%), África do Sul (21,5%), Namíbia (21,3%) e Zâmbia (16,5%). O Brasil tem 540.000 pessoas infectadas, uma taxa de contaminação de 0,35% da população.

Em Botsuana, o país mais afetado pelo HIV; mais de um terço da população adulta está infectado. Lá um recém-nascido tem como expectativa de vida apenas 36 anos, praticamente metade do que viveria se a doença não existisse. Burkina Fasso, 20° país mais afetado pela doença, possui 330.000 adultos soropositivos, e a expectativa de vida caiu oito anos.

Os dados estatísticos mostram que as mulheres africanas se contaminam mais precocemente que os homens e que a diferença entre homens e mulheres contaminadas continua crescendo. Hoje, para cada grupo com 13 mulheres infectadas, existem 10 homens na mesma situação. Em 2002, essa proporção era de 12 para 10. Em alguns países a situação é mais séria: na África do Sul, para 10 homens soropositivos, existem 20 mulheres contaminadas. Em países como Quênia e Mali, a média é de 45 mulheres contaminadas para cada 10 homens!

Um conjunto de fatores explica esse percentual tão elevado de pessoas infectadas. As mulheres dificilmente conseguem praticar o sexo seguro, e, quando tentam, sofrem freqüentemente maus-tratos de seus parceiros. A pobreza impulsiona a chamada "indústria do sexo", com crescente participação de jovens, muitas vezes menores de idade, se prostituindo nas áreas urbanas. Também contribui a elevada migração e lideranças políticas ineficazes, que durante anos poucas mudanças realizaram na saúde pública para reduzir esses números. Na África do Sul, muitas pessoas acreditam numa lenda que o portador do vírus que mantiver relações com uma mulher virgem conseguirá se livrar da doença. Assim, o crescimento de estupros e da Aids está fortemente associado nesse país, que apresenta 50.000 casos de violência sexual por ano (alguns afirmam que o número é bem maior, podendo chegar à triste e incrível marca de 1 milhão).

Na África é raro o uso de novas drogas que retardam o desenvolvimento da doença. Estima-se que nos próximos dez anos 22 milhões de pessoas morrerão vítimas de doenças desenvolvidas a partir da Aids.

Uganda foi o país africano com os maiores avanços no combate à Aids. No começo da década de 1990, o país apresentava 12% da população total infectada com o vírus. Em 2003, conseguiu reduzir esse número para 4,1%. Em sua capital, Campala, a população contaminada em 1992 era de 29%, passando para 8% em 2002. No entanto, o governo ugandense se preocupa com um fato: a redução da epidemia pode levar os jovens a serem menos conscientes das situações de riscos, já que a doença mostra-se menos devastadora que há dez anos.

Na África ocidental, o número de infectados é bem menor que na porção meridional, oscilando geralmente entre a 5% dos habitantes, com nenhum país ultrapassando os 10%.

O impacto da Aids também é baixo no norte do continente. Nos países localizados na região do Sahel (Argélia, Tunísia e Marrocos), as taxas giram em tomo de 1 % de pessoas com o HIV. No entanto, os baixos números muitas vezes ocultam problemas, como o elevado nível de contaminação em determinados grupos sociais. Exemplo disso é o Senegal, que possui uma taxa de contaminação inferior a 1 %. Porém a parcela da população ligada à prostituição apresenta crescente contaminação, pulando de 5% para 8% em 1992 e de 14% para 23% em 2002.

Autor: Vagner Augusto da Silva