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18 janeiro, 2010

China: A tribo de formigas profissionais

China: A tribo de formigas profissionais

Chen Siwu e Li Yahong

Pequim, 18/1/2010, (IPS) - Todos os dias, Yang Hongwei sai do trabalho e pega um ônibus para voltar para casa, e no caminho observa em silêncio as residências de estilo europeu, os carros de luxo e as luzes brilhantes dos centros comerciais da capital da China.
Esse jovem de 15 anos, natural da província de Heilongjian, sonha com uma vida igual à que vê da janela do ônibus, sem pobreza, e essa esperança o mantém em Pequim desde que se formou na universidade, há três anos.
Mas logo Yang tem que descer do ônibus para a realidade de sua vida, um punhado de maltratados edifícios agrupados junto a ruas cheias de lixo do povoado de Tangjialing, ao norte de Pequim. Caminha rapidamente para a casa onde aluga um quarto de aproximadamente dez metros quadrados, pelo equivalente a US$ 81 mensais, cerca de um quinto de seu salário. “A casa é muito fria porque não tem calefação central, mas estou me acostumando”, diz enquanto ajusta sua roupa abrigada ao corpo.
Muitos de seus companheiros universitários, e também inquilinos de Tangjialng, devem suportar o inverno da mesma maneira. Também têm de suportar a solidão, em uma sociedade regida pelo dinheiro como é Pequim. “Como posso sair com uma garota? Isso custa dinheiro”, afirma. Yang não sai com uma desde que chegou à capital, em 2006, depois de se formar no Instituto do Petróleo Daqing, em Heilongjiang.
A frustração que Yang sente com sua vida é compartilhada por muitos jovens recém-formados que se mudaram para cidades como Pequim, e possuem baixa renda . Em conjunto, são conhecidos como a “tribo das formigas”, termo cunhado por sociólogos chineses para descrever a luta dos jovens que, armados com seus diplomas universitários, se dirigem às cidades com a esperança de encontrar uma vida melhor, mas, na realidade, encontram empregos mal remunerados e péssimas moradias.
Moram em locais como Tangjialing por causa dos alugueis baratos. Este povoado, por exemplo, tinha três mil habitantes, mas a população aumentou para 50 mil pessoas com a entrada da nova “tribo das formigas”. “São como formigas: engenhosos, fracos e vivem em grupos”, explicou o sociólogo Lian Si, que é pesquisador do Centro de Assuntos Chineses e Internacionais da Universidade de Peking, que estudou o fenômeno. Lian dirigiu uma equipe de mais de cem estudantes de pós-graduação para acompanhar as populações de cidades universitárias como Pequim, Xangai, Guangzhou, Wuhan e Xi’an.
Em seu livro “A tribo das formigas”, publicado em setembro, Lian estima que a população total, que reúne essas características nas principais cidades, é de um milhão de pessoas em toda a China. Somente em Pequim, encontrou cem mil. A maior parte da “tribo” procede de famílias rurais pobres e aceita empregos temporários e salário baixo, como agentes de seguros, representantes de vendas de produtos eletrônicos e garçons em restaurantes. Alguns estão subempregados ou desempregados.
Lian, que também é professor-adjunto na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, com sede na capital, prevê que um mercado de trabalho cada vez mais desafiador será testemunha de um crescimento maior dessa tribo. A quantidade de jovens com diploma universitário na China, com idades entre 22 e 29 anos, está aumentando desde 2003, quando no país houve um enorme aumento das matrículas nos centros de ensino superior. Espera-se que outros 6,3 milhões de graduados se unam aos trabalhadores migrantes e outros caçadores de empregos, no que promete ser uma feroz competição por trabalho este ano.
Além das más condições de vida, a “comunidade de formigas” enfrenta a falta de segurança social em Pequim, onde o salário médio oficial foi de US$ 586 por mês em 2008. O membro médio da tribo ganha apenas metade desse valor. Como no caso de Yang, o casamento, pelo menos no momento, não parece ser uma opção para “as formigas”, 93% das quais são solteiras, estima Lian. O aumento nos preços da habitação e dos alugueis os leva para quartos baratos de dez metros quadrados, ou menos, nas aldeias. O valor de um único quarto no centro pode ser de, pelo menos, US$ 293 por mês, equivalente a todo o ganho mensal de um migrante jovem.
Moradia barata significa uma longa viagem em coletivos lotados para chegar ao trabalho. Há apenas seis linhas de ônibus ligando Tangjialing com o centro de Pequim. “É difícil entrar no ônibus”, conta Yangh, que trabalha para uma empresa de programas de informática em Zhongguancun, conhecida como “Vale do Silício da China”, em referência ao vale no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, onde ficam grandes multinacionais da área eletrônica. Para ele e muitos outros migrantes jovens, sua busca pelo sonho urbano é a única maneira de conseguir uma vida melhor para suas famílias em seus povoados de origem.
Voltar às suas comunidades rurais equivale a admitir que não puderam cumprir seus objetivos nas cidades. Assim, determinadas a concretizar seus sonhos, as “formigas” mudam de emprego duas vezes por ano, em média, em busca de melhor salário e desenvolvimento pessoal. Yang diz que trocou de emprego várias vezes nos últimos três anos, e que agora pretende deixar o atual. Está otimista sobre conseguir um outro em breve, porque foi chamado para oito entrevistas em uma semana, em resposta ao envio do currículo.
A perspectiva de conseguir trabalho melhor remunerado o mantém com esperanças de logo se mudar de Tangjialing. “Mas, para isso é preciso dinheiro. Um sujeito que vivia no andar de cima, ficou na aldeia durante três anos. Depois comprou uma casa no centro, quando foi promovido a gerente de departamento”, conta com certa inveja. “Quanto a mim, fixei prazo de mais três anos em Pequim. Se não conseguir melhorar minha situação, voltarei para meu povoado natal”, afirmou. IPS/Envolverde

* Os autores escrevem para a China Features. (FIN/2010)

10 janeiro, 2010

Entre a água e a comida.

Entre a água e a comida


Criar gado e cultivar trigo em pleno deserto. Na Arábia Saudita, essa é a realidade há mais de uma década. Porém, a alta produtividade nesses dois setores, resultante de investimentos pesados em tecnologia, pode ter um preço alto demais: o esgotamento das fontes aquíferas do país

Ao longo da estrada desértica que vai de Riyad a Kharj se alinham, uma ao lado da outra, fábricas de tâmaras que não nos deixam esquecer que a Arábia Saudita é o maior produtor mundial do fruto.
Na entrada da cidade, um grande cartaz anuncia a base aérea Príncipe Sultão, famosa por ter abrigado, até 2003, tropas americanas. Alguns quilômetros à frente, uma bifurcação conduz a uma porta bem protegida, sobre a qual uma inscrição proclama: “Al Safi, a maior fazenda integrada de criação de gado leiteiro do mundo”. O carro é desinfetado antes de ser autorizado a prosseguir. No hall de recepção está exposta uma cópia da página do Livro Guinness dos Recordes de 1998 dedicada à empresa por seus 3.500 hectares e 24 mil vacas – hoje contam-se 37 mil cabeças. Importado originalmente do Canadá, o gado malhado Holstein foi inseminado artificialmente. Os vitelos machos são abatidos para o mercado de carne e as fêmeas se tornam leiteiras.
A adaptação ao clima não foi simples. Refrigeradores mantêm a temperatura nos estábulos a menos de 27°C e painéis móveis protegem os animais de um sol escaldante. A ordenha é automatizada e controlada por computador. Na mesma área vê-se a usina de laticínios, também automatizada e dirigida pela sociedade francesa Danone, sócia do projeto desde janeiro de 2001. A fazenda produz 220 milhões de litros de leite por ano e supre cerca de um terço do que é consumido no país.
A companhia Al Safi nasceu do cérebro de um visionário, morto há dois anos, o príncipe Abdallah Al Fayçal, irmão mais velho do atual ministro das Relações Exteriores. Ele, que antes tinha pensado em rebocar ice-bergs do pólo Norte para garantir o consumo de água no país, ofereceu ao reinado auto-suficiência em leite. “Nós atingimos altos desempenhos em produtividade: 33 litros por cabeça e por dia, acima das médias internacionais”, explica Karim Manssour, o jovem diretor geral de Al Safi-Danone. “Contamos com 30 mil pontos de venda, 25 depósitos na Arábia, cinco no Golfo, um braço na Jordânia, outro no Iêmen e temos projetos para o Líbano e a Síria. São 2.500 pessoas trabalhando [fora as outras mil que trabalham na fazenda da qual a Danone não é parceira]. Um quarto delas é indiana. Ter apenas empregados sauditas é um desafio: é difícil encontrar trabalhadores locais para fazer serviços manuais, mas fazemos um esforço de buscá-los nas regiões pobres, no sul e no leste principalmente.”
De uma cabana de madeira surge um penacho de fumaça. É a água bombeada do solo, que sai a 70°C. Originalmente, bastava descer a 200 metros de profundidade para encontrá-la. Agora é preciso buscá-la a 2 mil metros. Mas isso não tem relação com o gado, diz Manssour: “Antes, o capim era cultivado aqui, mas nós deslocamos as plantações a 200 quilômetros para não esgotar o lençol freático. Temos também uma política de reciclagem da água”. A criação, garante ele, só consome de 3% a 4% da água do país, enquanto a agricultura absorve mais de 80%.
Poucos sabem disso, mas, nos anos 1980, a Arábia Saudita se transformou em um importante produtor de trigo. As autoridades garantiram aos agricultores um preço de compra mais alto do que o do mercado mundial, e a autossuficiência foi conquistada desde 1984. As áreas plantadas passaram de 67 mil hectares em 1980 para 907 mil em 1992, e a produtividade melhorou: 2,12 toneladas por hectare em 1980, 4,7 em 1988, depois 5,19 em 2005 – contra 6,98 na França, 4,22 na China ou 5,03 na Áustria. Foram criadas companhias privadas que geram lucros substanciais. Em 1993, a produção atingiu seu pico, com 5,3 milhões de toneladas, e as exportações ultrapassaram 2 milhões de toneladas. Na época, a Organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura (FAO) louvou esse desempenho.
Trigo em pleno deserto? Mesmo que a Arábia Saudita esteja longe de se limitar a terras áridas e tenha, ao norte e principalmente ao sul, regiões verdejantes, dezenas de milhares de hectares dedicados ao trigo se impuseram sobre a areia. Para compreender como isso foi possível, é preciso remontar aos anos 1970, particularmente ao boom do petróleo do pós-1973.
O terceiro mundo sonhava então com uma “nova ordem internacional” e o Ocidente ameaçava utilizar sua “arma alimentar”, ou seja, cortar as exportações de trigo e leite para alguns Estados “hostis”. Ao mesmo tempo, vários governos afirmavam a vontade de garantir sua autonomia, entre eles, a Arábia Saudita. O dinheiro do petróleo parecia abrir todas as portas...
"Nós nos tornamos o principal exportador de água da região”, explica, irônico, um engenheiro agrícola que não deseja revelar seu nome. “Produzimos trigo ou outras variedades precoces que vendemos aos vizinhos, esgotando nossas fontes de água.” Há anos, ele tenta atrair a atenção das autoridades.
Um debate quente opôs os defensores da segurança alimentar aos que querem preservar as fontes aquíferas do país. Finalmente, no caso do trigo, foi o segundo grupo que ganhou. Riyad decidiu diminuir progressivamente as subvenções à produção local, para suprimi-las totalmente até 2016. Este ano, pela primeira vez em 25 anos, o rei- nado comprará 300 mil toneladas de trigo no mercado mundial.

Investimentos no exterior

Vice-ministro da agricultura, Abdoullah Al-Obeid não é dado a conversa fiada. Esse antigo membro da delegação encarregada de negociar a adesão, efetiva desde 2005, de seu país à Organização Mundial do Comércio (OMC) reconhece de bom grado:“No Ministério, pensamos que era preciso manter a produção de trigo, atingimos altos níveis de produtividade, principalmente no norte, e nessa região existe menos problemas de água. Gostaríamos de manter ali a produção”.
Turki Fayçal Al-Rasheed dirige uma importante sociedade agrícola, a Golden Grass Inc. Ele assistiu como observador às eleições legislativas no Kuwait e trabalha pela instauração de um sistema parlamentar na Arábia Saudita. Mas, nesse caso, compartilha as reservas de Al-Obeid: “Todos os países têm problemas de água, até os Estados Unidos. Entretanto, devemos continuar a cultivar. Isso permite dar assistência às zonas rurais pobres e nos ajuda também a dominar as tecnologias agrícolas de ponta para economia de água. Teria sido melhor associar as subvenções à utilização de mão-de-obra saudita”.
A autossuficiência continua a preocupar os responsáveis sauditas. “A crise alimentar de 2008”, explica Al-Obeid, “foi um sinal de alarme. A Arábia Saudita é um importador regular de produtos agrícolas, principalmente de arroz, milho e soja. Isso leva o reinado a investir no exterior. Tanto que enviamos delegações oficiais, compostas também de responsáveis do setor privado, para Turquia, Ucrânia, Egito, Sudão, Tailândia, Filipinas, Vietnã, Etiópia e Uzbequistão.” Ele se defende de qualquer viés colonialista e lamenta as fantasias da imprensa internacional: “Queremos investir na agricultura no exterior, mas não desejamos que toda a produção seja monopolizada pelo reinado, pelo contrário. Temos a intenção de aumentar as áreas cultivadas e vamos garantir que uma parte da produção permaneça no país que vai nos acolher”.
O medo de investimentos intensivos dos países do Golfo na agricultura do sul rendeu assunto de capa em muitos jornais. “Corrida às terras aráveis”, dizia o título do Le Monde de 13 de dezembro de 2008. O periódico publicou um mapa da organização não governamental Grain, afirmando, por exemplo, que a Arábia Saudita teria comprado 1.610.117 hectares pelo mundo. “Os Estados que monopolizam as terras agrícolas na África”, denunciava, por seu lado, o site Afrik.com em 12 de dezembro. “Passaram a mão nas terras agrícolas do sul”, explicava um professor de história do ensino médio num blog destinado a seus alunos [1].
Geralmente, quando uma ideia se torna lugar-comum na mídia, pode-se estar certo de que ela é, no mínimo, exagerada. Para medi-la, basta perguntar aos empresários sauditas envolvidos com a agricultura.
“Evoca-se muito os investimentos no Sudão”, reconhece Al-Rasheed, que dedicou vários artigos na imprensa local ao assunto. “Esse país dispõe de vários atributos: uma enorme área cultivável da qual somente 20% é utilizada; água em abundância, chuva e o rio Nilo. De fato, um clima favorável.” Já nos anos 1970, o Sudão era apresentado como “o celeiro do mundo árabe”. E, no entanto, segue Al-Rasheed, “os obstáculos são inúmeros: além da pobreza da agricultura sudanesa, com seu caráter artesanal e atraso técnico, não existe um regime claro de propriedade. Além disso, as terras visadas se situam em regiões petrolíferas – e, portanto, correm o risco de ser expropriadas de uma hora para outra. Quando tudo for acertado, e isso é antes de tudo responsabilidade das autoridades de Kartum, poderemos investir. Não é nada imediato.” O outro eldorado frequentemente evocado, o Egito, suscita as mesmas reservas. Quanto à Ásia, ela parece bem longe...

Os investimentos privados estrangeiros

No setor da agricultura têm uma história longa. Há vários séculos os países ocidentais estão presentes em suas antigas colônias, e as independências não alteraram essa situação.
O aumento do preço dos produtos agrícolas em 2008, apesar de breve, sem dúvida atiçou a cobiça. Mas a ideia está longe de ser realizada, e é um pouco abusivo denunciar a dominação colonial dos países do Golfo sobre as terras agrícolas do mundo. Ainda mais por se tratar de investidores privados que, se cultivam arroz ou trigo, é para vender no mercado mundial com o maior lucro possível. Pode-se duvidar de que eles reservarão a produção a seu país de origem.
A ONG Grain listou os projetos de investimentos agrícolas de diferentes países em 2008. Para a Arábia Saudita e os países do Golfo, trata-se quase sempre de intenções, visitas, declarações, mais que de contratos assinados. Até o acordo dado como certo entre o grupo saudita Bin Laden e a Indonésia (US$ 4,3 bilhões para desenvolver 500 mil hectares de arroz basmati, particularmente apreciado pelos consumidores sauditas) não parece ser nada mais que um projeto. E a crise financeira, somada ao recuo – mesmo que provisório – dos preços dos insumos agrícolas, também vai limitar muitos apetites.
Com uma população que cresce rapidamente, lençóis freáticos poluídos ou esgotados, os projetos para racionalizar o consumo e a construção de novas usinas de dessalinização não são suficientes para garantir o abastecimento de água do país [2]. Como ninguém mais evoca o projeto de trazer icebergs do pólo Norte, a Arábia Saudita deverá encontrar meios inéditos de garantir sua segurança alimentar.

Autor: Alain Gresh é jornalista e integra a redação de Le Monde Diplomatique (França).

[1] http://tribouilloterminales.over-blog.com
[2] “Le secteur de l’eau en Arabie Aoudite” [O setor da água na Arábia Saudita], embaixada da França na Arábia Saudita, missão econômica, 22 de novembro de 2008. os dados datam de 2006.

30 dezembro, 2009

A Política de Poder da China no Século XXI

A Política de Poder da China no Século XXI

Por Michael Wallace Ataíde(1) - 08/12/08

INTRODUÇÃO

Este artigo tem o objetivo de analisar a política internacional da China neste início do século XXI. A hipótese básica deste artigo sustenta que a política internacional de uma grande potência, como é o caso da China, é pautada por orientações realistas levando em consideração que esse Estado busca a maximização do poder, tanto no plano militar como no plano econômico, e que naturalmente essa busca pelo poder pressupõe uma busca incessante pela segurança e sobrevivência na cena internacional.
Este paper está dividido em três partes, onde na primeira parte faz-se uma breve análise e discussão sobre o realismo político como escola de pensamento e formulação de política internacional. Na segunda parte analisa-se a China como futura grande potência e que esse Estado usará a sua força e influência política e econômica para atingir os seus mais imediatos objetivos. A última parte é uma conclusão onde faz-se uma breve discussão sobre a política do poder de grandes potências a partir da análise de influentes estudiosos das relações internacionais e que esses pressupostos podem ser aplicados à China como grande potência. Mesmo havendo outras importantes variáveis como comércio, etc., a conclusão é que a política de poder se sobressai em relações internacionais.

O REALISMO POLÍTICO ESTÁ EM CRISE?

Muitos intelectuais escreveram imediatamente a queda da União Soviética que o realismo político não tinha mais razão de existir como orientação política para os Estados, em especial para as grandes potências(2). O argumento desses autores era baseado no fato de que com a queda da União Soviética, os Estados Unidos regeria hegemônico o sistema internacional, e que, portanto, a paz, o comércio e a democracia seria o fio norteador da política internacional.
Para muitos autores, o fim da Guerra-Fria significaria a existência do mundo ideal onde a cooperação era a grande característica nas relações internacionais, e não a competição pela segurança e o conflito(3), e que naturalmente observaríamos a ascensão de Estados outrora autoritários aderindo ao modelo de democracia liberal como o modelo político ideal, pois assim as guerras e os conflitos cessariam já que Estados democráticos não travam guerras entre si. Assim, o realismo político, segundo os analistas que defendem essa visão otimista das relações internacionais, não tinha mais poder explicativo e que essa escola de pensamento apenas serviria para explicar as relações internacionais até o fim do embate ideológico entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Para eles, o pensamento realista estava obsoleto e fundamentalmente irrelevante para as novas realidades da política internacional(4). No entanto, a dinâmica do plano internacional mostrou que esses autores estavam equivocados, forçando muitos deles a reverem os seus conceitos(5) sobre política internacional. O realismo político ainda é uma influente escola de pensamento e de formulação de política externa, e é a partir dos pressupostos dessa escola que os Estados atuam num sistema internacional pautado pela anarquia(6) entre os Estados.

O COLOSSO CHINÊS: COMPETIÇÃO E BUSCA PELA SEGURANÇA E HEGEMONIA NO SISTEMA INTERNACIONAL

Hoje, olhando com mais pragmatismo para a cena internacional, em especial para o continente asiático, percebemos que está surgindo ou ressurgindo, um “colosso” militar e econômico chamado China. Segundo muitos influentes autores de política internacional(7), a China aparecerá no teatro internacional como um grande problema para outras grandes potências como os Estados Unidos, a Rússia e o Japão.
Mearsheimer, em seu célebre estudo sobre as grandes potências(8), argumenta que muitos americanos poderão considerar que o realismo como uma orientação política está obsoleta e que não mais serve para analisar as relações internacionais, como colocado acima, mas que essa percepção não tem lugar comum no pensamento dos líderes chineses, pelo contrário, esses líderes e pensadores chineses enfatizam que a China será “o expoente máximo da Realpolitik no mundo pós Guerra-Fria(9)”. O autor chama a atenção para uma análise da China nos últimos 150 anos e o seu presente de ameaça, e argumenta que o Estado chinês partilha fronteiras com treze Estados nos quais algumas dessas fronteiras ainda se encontram em disputa, como por exemplo, na Índia, na Rússia, e no Vietnã. A China também reclama a posse de Taiwan, das Ilhas Senkaku/Diaoyutai, além de vários grupos de ilhas no mar da China Meridional(10). Portanto, essas “pendências” territoriais é um pressuposto para num futuro próximo a China usar a diplomacia dos canhões para reaver esses territórios, mas com algumas ressalvas, é claro, pois três Estados (Rússia, Índia e Paquistão) com os quais a China tem contenciosos territoriais dispõe de arsenal nuclear, o que teoricamente poderia conter a China, mas que numa análise realista, isso não impede que a China considere todas as opções, inclusive a militar, para dissuadir esses Estados e atingir o seu fim, ou os seus objetivos mais imediatos.
Além dessas questões colocadas acima, a China está começando a olhar para o Japão e para os Estados Unidos com certo desprezo, ou se preferir como inimigos potenciais. No caso do primeiro, em especial, porque as lembranças das agressões anteriores ainda estão vivas na memória dos líderes chineses(11). Segundo Mearsheimer(12) os líderes políticos chineses receiam que o Japão se torne novamente uma potência militarista como foi antes de 1945. Essa análise deve ser seriamente considerada, tendo em vista que os guardiões do território japonês, a saber, os Estados Unidos, estão passando por um momento delicado na sua história, com graves crises do seu sistema financeiro, duas guerras sem legitimidade, uma no Iraque e outra no Afeganistão, além dos problemas internos como saúde, educação, sistema previdenciário, etc. Tudo isso são elementos para fazer com que os Estados Unidos retirem o seu guarda chuvas de cima do território japonês, obrigando assim os líderes japoneses a reativarem a sua indústria e política bélica. Essa análise vale para todos os Estados que confia aos Estados Unidos a sua defesa e soberania, como Israel, por exemplo.
Igualmente sérias são as relações futuras com os Estados Unidos. Os formuladores de política externa chineses têm a preocupação de que os Estados Unidos estejam empenhados em impedir que China o supere, economicamente e militarmente, vindo a se tornar uma superpotência mundial, ou mesmo regional, e acabe por dominar Estados asiáticos que estão sob zona de influencia estadunidense, como a Coréia do Sul e o Japão, por exemplo. Além disso, analistas de segurança internacional e defesa chineses “estão convencidos de que as alianças norte-americanas com países asiáticos, particularmente com o Japão, representam um desafio sério e de longo prazo, se não mesmo uma ameaça, à segurança nacional, unificação e modernização da China(13)”.
Para sustentar a sua política dissuasória, a China está investindo pesadamente em tecnologia militar. Em 2001 esse Estado aumentou o seu orçamento de defesa em 17,7%(14), o que representa a maior expansão em termos de recursos destinados à defesa nas últimas décadas. Esse aumento pode ser considerado reflexo da magnificação da sua economia e do excedente financeiro. A maior parte desses recursos está sendo empregados na construção de mísseis balísticos e de tecnologia nuclear, com o claro objetivo de modernizar o seu arsenal atômico.
Essa estrondosa ascensão política e econômica da China está incomodando muitos formuladores de política externa estadunidense, pois observam que uma China ainda mais poderosa do que se encontra hoje pode ser uma séria ameaça para a hegemonia dos Estados Unidos no cenário internacional, podendo minar a influência norte-americana ao redor do planeta. Mearsheimer observa que “o cenário mais perigoso que os Estados Unidos poderão vir a enfrentar no início do século XXI é a China tornar-se um potencial Estado hegemônico no Nordeste Asiático(15)”. O autor segue argumentando que um fator determinante para a China se tornar um Estado hegemônico em nível mundial vai depender de sua economia continuar crescendo ao ritmo de 10% a.a. Se isso acontecer, provavelmente a China se tornará não só um produtor importante de tecnologias de grande complexidade, como passará a usar esses recursos tecnológicos para desenvolver e modernizar o seu arsenal militar(16).

CONCLUSÃO

Conclui-se, portanto, que a política de poder(17) ainda é uma variável determinante nas relações internacionais, e os Estados não cessarão em buscá-lo com o intuito de atingir os seus objetivos individuais mais imediatos. Como afirma categoricamente Martin Wight em A Política do Poder, “as potências, continuarão a buscar a segurança sem se referirem à justiça, bem como perseguir os seus interesses vitais sem levar em consideração interesses comuns(18)”. Na mesma linha argumenta Hans Morgenthau em A política entre as Nações que “a política internacional, como toda a política, consiste em uma luta pelo poder. Sejam quais forem os fins da política internacional, o poder constitui sempre o objetivo imediato(19)”. Assim, pode-se dizer que a China se tornando uma potência internacional com poder econômico e militar ainda maior, não hesitará em usar sua força para atingir os seus mais imediatos objetivos. Evidentemente que esse país faz parte de um sistema internacional onde às trocas comerciais, a economia e a interdependência são variáveis importantes e que fazem parte do jogo dos Estados, mas ainda assim quando o que estiver em disputa nesse jogo forem os interesses imediatos, a política de poder prevalecerá.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CHRISTENSEN, Thomas J. Chinese Realpolitik. Foreign Affairs 75, nº5, Setembro-Outubro de 1996.
FUKUYAMA, Francis. The end of History end the Last Man. New York: Free Press, 1992.
KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Tradução Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Elsevier, 1989, 17 ed.
MEARSHEIMER, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Tradução: Tiago Araújo. Lisboa: Ed. Gradiva, 2007.
MORGENTHAU, Hans J. A política entre as Nações. Tradução Oswaldo Biato. Brasília: Ed. UNB, 2002.
POMFRET, John. China Plans Major Boost in Defense Spending for Military. Washington Post, 6 de Março de 2001.
WIGHT, Martin. A Política do Poder. Tradução Carlos Sérgio de Oliveira. Brasília: Ed. UNB, 2002.
NOTAS
(1) Mestrando como aluno especial no programa de pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo.
(2)Ver Francis Fukuyama in The end of History end the Last Man.
(3) Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Gradiva, 2001.
(4) Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Gradiva, 2001. Pág. 337.
(5) Ver Francis Fukuyama in America at the Crossroads: Democracy, Power and Neoconservative Legacy.
2006
(6) Anarquia internacional é aqui entendida como a falta de um governo mundial, ou seja, um Estado acima dos Estados.
(7) Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Gradiva, 2001. Pág. 350.
(8) Ibidem, 350.
(9) Thomas J. Christensen. Chinese Realpolitik. Foreign Affairs 75, nº5, Setembro-Outubro de 1996, p. 37.
(10) Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Gradiva, 2001. Pág. 350.
(11) Ver Paul Kennedy in Ascensão e Queda das Grandes Potências. Ed. Campus, 1989.
(12) Ibidem, 350.
(13) Ibidem, 351.
(14) Ver John Pomfret. China Plans Major Boost in Defense Spending for Military. Washington Post, 6 de Março de 2001.
(15) Ver Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Gradiva, 2001. Pág. 373.
(16) Ibidem, 373.
(17) Para um estudo aprofundado sobre a política de poder ver Hans Morgenthau in A Política entre as Nações. Ed. UNB, 2003. Martin wight in A Política do Poder. Ed. UNB, 2002.
(18) Martin wight in A Política do Poder. Ed. UNB, 2002, pág. 310.
(19) Hans Morgenthau in A Política entre as Nações. Ed. UNB, 2003, pág. 49.