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23 fevereiro, 2010

Haiti, o terremoto e o martírio de uma nação

Haiti, o terremoto e o martírio de uma nação

Não bastassem três décadas de ditadura dos Duvalier, a decepção com o governo de Bertrand Aristide ou o posto de nação mais pobre da América, o Haiti comprova que a realidade pode ser ainda mais sinistra, como foi em 12 de janeiro. Um terremoto de 7 graus na escala Richter colocou no chão a capital Porto Príncipe. Estima-se que tenham morrido mais de 200 mil pessoas, entre elas uma brasileira ilustre, a médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança. Movidos pelos ideais da Revolução Francesa (1789), os escravos haitianos proclamaram a primeira república negra independente no mundo moderno em 1804. Liderados pelo ex-escravo Toussaint L'Overture, deram início ao movimento que culminou com a independência -aliás, só reconhecida por Paris em 1838, mediante pagamento de uma pesada indenização. Após a independência, o Haiti teve uma trajetória marcada por crises políticas. Por volta de 1915, alegando quebra de compromissos, os EUA ocuparam o país e, embora tenham se retirado oficialmente em 1934, jamais deixaram de interferir na nação caribenha. No século 20, com o aval dos EUA, assumiu o comando do Haiti o médico François Duvalier, o Papa Doc, eleito em 1957. Em 1964, ele se autoproclamou presidente vitalício, implantando uma ditadura. Sua base de apoio eram os "tontons macoutes", milícia armada que reprimia com violência qualquer oposição ao regime. Após sua morte, em 1971, assumiu seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, com apenas 19 anos. Denunciado por violação aos direitos humanos, foi deposto em 1986 e asilou-se em Paris. Com o fim da ditadura, renascem as esperanças agora depositadas no padre Jean-Bertrand Aristide, eleito presidente em 1990. Com um programa baseado na luta contra a corrupção, Aristide não resistiu e foi deposto em 1991, por um golpe. Com a intervenção dos EUA, foi reconduzido ao poder em 1993 e concluiu seu mandato. Novamente eleito em 2000, Aristide foi incapaz de contornar a crise e, agora pressionado pelos EUA, renunciou. Deixou o país em 2004 à beira de uma guerra civil. De pronto, a ONU decidiu enviar uma força internacional para restabelecer a ordem, a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), sob o comando do Brasil. Com muito trabalho, o país vinha sendo reconstruído. Mas todo esse esforço ruiu com o terremoto que soterrou não só a incipiente estrutura do Estado haitiano mas o sonho de liberdade dos herdeiros de L'Overture.

Fonte: Folha de São Paulo - 23/02/10
Autor: ROBERTO CANDELORI

02 fevereiro, 2010

O Estado nacional, as ONGs e o Haiti

O Estado nacional, as ONGs e o Haiti

Um país que foi capaz de montar a 1ª república negra da modernidade não precisa de intervenção de ninguém, muito menos de ONGs
ATÉ HOJE não há uma avaliação profunda sobre o desempenho e os benefícios produzidos por milhares de ONGs espalhadas pelo Brasil. O que se sabe é que elas não conseguiram substituir o Estado brasileiro em sua finalidade de estabelecer o equilíbrio social, diminuindo a tremenda distância existente entre pobres e ricos.É remota, mas consistente, a ideia de que uma democracia é mais republicana quando consegue que as oportunidades sejam igualmente oferecidas a ricos e pobres e que as decisões de poder sejam tomadas por ambas as classes sociais. Apesar disso não ter sido atingido em quase nenhuma sociedade moderna, até hoje não existe representação política mais apropriada do que o Estado democrático.No pós-guerra e, principalmente, depois da queda do Muro de Berlim, símbolo da derrocada do socialismo aplicado, o sistema universal de produção, de decisões financeiras e, por consequência, políticas ficou inteiramente subordinado às regras e humores do mercado.O Estado foi, do ponto de vista ideológico e de gestão, reduzido em sua função de gerir e propor soluções. As lideranças intelectuais e mediáticas subordinaram-se aos novos "fundamentals" que regiam o mundo.Como a função das empresas que representam o sistema produtivo é proporcionar lucro aos seus acionistas e gestores, produzir bons produtos e serviços e, obviamente, empregos, a questão social não era de sua responsabilidade. Um Estado enfraquecido mal tinha dinheiro para sustentar a burocracia remanescente e as obras de infraestrutura.A questão social ficou relegada ao abandono, até que os empresários perceberam o perigo desse vácuo na orquestração da estabilidade. Surgiu, ainda que vagamente, a ideia da responsabilidade social. A empresa não tem nada a ver com a questão social, mas os empresários e os cidadãos bem-sucedidos podem dar uma mãozinha na questão da ajuda ao próximo e às instituições, pensava-se.Paralelamente, antes, ou até por decorrência, criaram-se as organizações sociais não governamentais. Entre o Estado inoperante e o sistema alienado, as ONGs cuidariam de pobres, desamparados, instituições de caridade e abrigo da miséria.Após da queda do "Muro Street", com a grande crise financeira do liberalismo, a indispensável recolocação do papel do Estado entre políticos, intelectuais, economistas, movimentos sociais e governos começa a produzir resultados tanto no campo das questões sociais quanto da própria sobrevivência do sistema financeiro.A queda da mortalidade infantil no Brasil foi fruto de uma ação coordenada entre a Pastoral da Criança e o efetivo desempenho do Estado em obras de saneamento. O Bolsa Família, iniciado e desenvolvido em dois governos bastante liberais, é uma solução extrema e radical para a diminuição da miséria. Só poderia partir de um Estado democrático.Fique bem claro que essas observações nos levam a um fim prático: o Haiti. Um país que foi capaz de montar a primeira república negra da modernidade, ainda que as forças revolucionárias tenham pago muito dinheiro à França colonizadora, não precisa de intervenção de ninguém, muito menos de ONGs.A desconstrução do Haiti se iniciou na colonização, prosseguiu com o desprezo mundial pela república negra e, finalmente, pela intervenção dos Estados Unidos, que sustentaram o Papa e o Baby Doc na Guerra Fria.Na cruel transição de ditaduras para a democracia e do terremoto para a vida, o Haiti precisa, sim, de colaboração, colaboração dos Estados nacionais e dos cidadãos de todo o mundo, por meio da ONU, que os representa.Ajuda para pagar a conta, enterrar os mortos, impedir que a mortandade aumente, prender os bandidos (no caos, a bandidagem prolifera) e deixar, quando a terra parar de tremer, que o sofrido povo do Haiti decida o seu destino. Assim, a disputa de comando entre o Brasil e os Estados Unidos torna-se ridícula.Erguer moradias e hospitais de campanha é mais fácil do que erguer as instituições. O Haiti precisa de instituições. Sem instituições democráticas, a terra não cessará de tremer. É preciso que as ONGs e os soldados que desembarcaram no Haiti entendam isso. Os soldados brasileiros começam a entender, em homenagem aos 18 mortos e a dra. Zilda Arns. As diplomacias, ainda não.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 01/02/10
Autor: JORGE DA CUNHA LIMA.

25 janeiro, 2010

Imperialismo e sub-imperialismo de mãos dadas no Haiti

Imperialismo e sub-imperialismo de mãos dadas no Haiti


Está se consumando a crônica anunciada e previsível da nova ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, desta vez aproveitando o terremoto que devastou o país e sua capital.
Os Estados Unidos já desembarcaram 11 mil militares no país. Ontem, com tropas armadas e uniformizadas para combate, transportadas em helicópteros de guerra, ocuparam o palácio presidencial em Porto Príncipe. O aeroporto, não esqueçamos, continua sendo controlado e operado pelos Estados Unidos, que hastearam sua bandeira no local e decidem que aviões podem pousar.
Nos últimos dias, deram prioridade a suas aeronaves, principalmente militares, prejudicando o desembarque da ajuda enviada por outros países e por organizações não-governamentais. A prioridade foi a segurança, não a vida da população haitiana, principalmente pobre. O ministro francês da Cooperação, Alain Joyandet, chegou a protestar: "Precisamos ajudar o Haiti, não ocupá-lo."
É verdade que, tendo cumprido o cronograma inicial de desembarque de suas tropas, os Estados Unidos poderão autorizar, nos próximos dias, o pouso de um número maior de aviões de outros países, com técnicos e equipamentos para remoção de destroços, médicos e remédios para atendimento dos feridos, água e alimentos para a população desabrigada e desempregada. A essa altura, porém, a possibilidade de encontrar pessoas soterradas com vida será mínima e excepcional.
Sem que a mídia dê atenção a este aspecto, os Estados Unidos estão aumentando também o controle do porto que dá acesso à capital e de toda a área litorânea do Haiti, com um porta-aviões, um navio equipado com um hospital de campanha e vários navios da Guarda Costeira, visando a socorrer feridos, mas também a selecionar e controlar a aproximação de navios de ajuda de outros países, como o enviado pela Venezuela com combustível, e a impedir a emigração desesperada de haitianos para a costa estadunidense em pequenas embarcações.
Não podendo justificar suas ações arrogantes e unilaterais com ordens das Nações Unidas, o governo de Washington tem argumentado que atua a pedido do governo haitiano. Mas que soberania pode ter um governo, como o do presidente René Préval, que não dispõe sequer de forças policiais e de equipamentos de comunicação e transporte para manter a ordem pública e organizar o salvamento de seus cidadãos?
É significativo também que o plano de salvamento e reconstrução do Haiti pelos Estados Unidos tenha sido anunciado em conjunto pelo presidente Barack Obama e pelos ex-presidentes Clinton e Bush – o mesmo Bush que demorou tanto a agir quando o furacão Katrina destruiu uma grande área dos Estados Unidos. Quando os interesses estratégicos da superpotência estadunidense e de suas empresas transnacionais estão em jogo, prevalece como sempre o consenso bipartidário entre "democratas" e "republicanos" – aliás, uma confluência bipartidária semelhante se ensaia agora no Brasil com o PSDB e o PT, apesar das acirradas disputas nas fases de eleição.
O jornalista Roberto Godoy, especializado em assuntos militares, escreveu no Estadão: "Os Estados Unidos estão fazendo no Haiti o que sabem fazer melhor: ocupar, assumir, controlar. Decidida em Washington, a operação de suporte às vítimas da devastação, em quatro horas, tinha 2 mil militares mobilizados – e metade deles já seguia para Porto Príncipe – enquanto o resto do mundo apenas tomava conhecimento da tragédia. (...) É a Doutrina Powell, criada no fim dos anos 80 pelo então chefe do Estado-Maior Conjunto, general Colin Powell, aplicada em tempo de paz. Ela prevê que os Estados Unidos não devem entrar em ação a não ser com superioridade arrasadora. (...) No sábado, oficiais americanos (seria mais correto escrever estadunidenses, porque americanos somos todos nós) estavam no comando do tráfego aéreo. Os paraquedistas da 82ª Divisão e os fuzileiros navais (...) são treinados para o combate e também para missões de resgate. Movimentam-se em helicópteros e veículos convertidos em ambulâncias leves. A retaguarda é poderosa. Um porta-aviões virou central logística e um navio-hospital de mil leitos chegou no domingo. Ontem, aviões dos Estados Unidos ocupavam 7 das 11 posições de parada remanescentes no aeroporto."
A mídia do grande capital, exagerando os saques e os conflitos, cumpriu seu papel de preparar a opinião pública para aceitar a operação político-militar dos Estados Unidos como necessária e benevolente. Na realidade, os Estados Unidos têm contribuído para acirrar os conflitos ao atrasar a ajuda humanitária de outros países e utilizar aviões e helicópteros para despejar suprimentos aleatoriamente sobre uma população sedenta, faminta e desorganizada.
Até mesmo o general brasileiro Floriano Peixoto, comandante da Minustah (Missão de Estabilização das Nações Unidas), ponderou em videoconferência que os casos mais graves de violência não são generalizados e disse que as ruas de Porto Príncipe estão desobstruídas, o que facilita a ação das forças de segurança. Na avaliação do general, a situação se mostra menos grave do que a versão difundida pela imprensa.
Além disso, quem tem experiência política e já participou da resistência a regimes entreguistas e autoritários não pode deixar de receber com ceticismo a qualificação fácil e indiferenciada, difundida pela mídia, de que todos os presos que escaparam dos presídios destruídos pelo terremoto são criminosos comuns e integrantes de "gangues de bandidos". Muitos oficiais e soldados do antigo Exército haitiano formaram milícias, que declararam seu apoio ao último presidente livremente eleito, Jean-Bertrand Aristide, depois que ele foi deposto em 2004. Seqüestrado por tropas estadunidenses e levado à força para a África do Sul, bem longe do Haiti, o ex-presidente Aristide continua impedido de voltar ao país e seu partido foi proibido de participar das últimas eleições realizadas sob o controle da Minustah.
Com as diferenças secundárias de motivação e de situação interna, o roteiro seguido pelos Estados Unidos no Haiti é, portanto, essencialmente o mesmo adotado no Iraque ou no Afeganistão: primeiro, destroem-se os Estados nacionais que esbocem qualquer rebeldia, instalando a devastação econômica e social e o caos político; depois, utilizam-se essas circunstâncias deterioradas para justificar a construção de Estados satélites; por último, esses Estados satélites e corruptos se revelam incapazes de garantir a paz, resgatar a dignidade nacional e melhorar o padrão de vida da população (com as exceções de praxe das elites colaboracionistas), justificando que a ocupação estadunidense se prolongue indefinidamente. A crise aprofundada pela intervenção externa cria, enquanto isso, oportunidades de novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados.
Para dissipar dúvidas sobre as reais intenções da intervenção "emergencial" e "humanitária" dos Estados Unidos no Haiti, o diplomata Greg Adams, enviado ao país caribenho como porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, declarou ao Estadão, em Porto Príncipe: "É muito cedo para estabelecer prazos (para a retirada das tropas estadunidenses) e ficaremos aqui o tempo que for necessário (lembremo-nos de declarações semelhantes tornadas públicas no início da ocupação do Iraque). Havia tropas estrangeiras no Haiti antes do terremoto (ah, é?). Com a tragédia, além de todos os outros problemas, não vejo uma data-limite no futuro próximo para falarmos aos haitianos ‘ok, agora é com vocês’. Ficaremos aqui por um bom tempo e acho que o Brasil também."
A referência à ação coadjuvante e subordinada do Brasil foi bem esperta. Que autoridade moral pode ter o governo brasileiro de protestar contra a ação estadunidense se tem participado da intervenção política e militar nos assuntos internos do Haiti, ainda que com a chancela formal das Nações Unidas, chancela já utilizada ao longo da historia da entidade para encobrir tantas outras intervenções? Participando das operações de segurança – ou seja, em bom português, de repressão – com o beneplácito e em benefício dos Estados Unidos, o Brasil espera ganhar o prêmio de consolação de tomar parte nos negócios de reconstrução do país. Aliás, grandes construtoras brasileiras, como a OAS e a Odebrecht, já enviaram equipes técnicas e equipamentos pesados para o Haiti, posicionando-se para a disputa que virá.
Quem afirma que não existe mais imperialismo no século XXI ou põe em dúvida o conceito de sub-imperialismo, utilizado para caracterizar a política externa atual do Brasil, principalmente na América Latina e no Caribe, tem assim a oportunidade de aprender, em cores e online, o conteúdo concreto desses conceitos e dessas práticas.
Abrindo bem os olhos, os patriotas e democratas brasileiros têm o dever de exigir que o Brasil renuncie ao comando militar da Minustah, retire progressivamente suas tropas do Haiti e se limite às ações de cunho efetivamente humanitário. O Haiti não precisa só de ajuda, precisa de soberania. Que os Estados Unidos realizem seu plano de intervenção e de construção de um Estado satélite no Haiti com seus próprios recursos humanos e materiais e sob sua exclusiva responsabilidade. Assim, pelo menos, a situação ficará mais clara e se tornará mais fácil mobilizar as forças antiimperialistas e democráticas no Haiti e nos demais países da América Latina e do Caribe. Não percamos de vista que um império em declínio, na desesperada tentativa de reverter o curso histórico que o debilita, pode tornar-se mais perigoso e aventureiro do que um império em ascensão e paciente.
Estou fechando este parêntese sobre a tragédia haitiana, porque já está claro que não se trata apenas de uma tragédia natural e humanitária, mas, sobretudo, política e militar. Recentemente, um terremoto devastou uma grande região da China, deixando 87 mil mortos, segundo as estimativas oficiais. Porque havia e há na China, apesar de sua pobreza ainda grande, um Estado soberano e ativo, foi possível lidar com as conseqüências da tragédia sem permitir a intervenção estrangeira no comando das operações de socorro e reconstrução ou o desembarque de tropas de outros países.
A grande tragédia do Haiti foi a destruição progressiva de seu Estado nas últimas décadas, com a dissolução de suas forças armadas e policiais, a precarização de seus serviços públicos e a desorganização e divisão de sua população.

Fonte: Correio da Cidadania - 23-Jan-2010
Autor: Duarte Pereira.

Ciência, religião e o Haiti

Ciência, religião e o Haiti

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A realidade é crua: a natureza não precisa de nós
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É impossível encontrar palavras para descrever a tragédia no Haiti. De longe, lemos depoimentos e jornais. Assistimos às notícias na TV, chocados em ver uma população inteira em profunda agonia, num estado de total fragilidade e de caos. Crianças perdidas de seus pais (ou órfãs) e milhares de pessoas morrendo de fome e sede.
Gangues de jovens -mais de 50% da população tem menos de 18 anos- atacando aqueles que tem algo para comer ou tentando roubar tudo o que podem. Nenhuma água, gasolina ou qualquer forma de comunicação. A vida forçada a parar por completo, um apocalipse real, provocado por forças muito além do nosso controle.
Mesmo que a ciência possa explicar as causas dos terremotos e das erupções vulcânicas, permanece incapaz de prever quando irão ocorrer. Saber a localização das falhas geológicas onde os terremotos ocorrem claramente não é suficiente. Modelos e explicações permanecem especulativos. Por exemplo, existe uma proposta que terremotos tendam a ocorrer quando há um aumento na força das marés, como em torno da época de um eclipse. De fato, um eclipse anular ocorreu três dias após o terremoto do Haiti. Infelizmente, previsões dessa natureza raramente são precisas o suficiente para salvar vidas.
A Terra é um planeta ativo, borbulhando em suas entranhas, com uma crosta formada de placas que tendem a mudar de posição em busca de um maior equilíbrio quando a pressão subterrânea aumenta. Obviamente, fazem isso sem dar a menor importância para a destruição que causam. Cataclismos naturais, como o do Haiti ou o tsunami de 2004 no oceano Índico, que causou em torno de 230 mil mortes, expõe a crua realidade da vida na Terra: precisamos da natureza, mas a natureza não precisa de nós. No nosso desespero, e sem poder prever quando cataclismos dessa natureza irão ocorrer, atribuímos tais eventos a "atos divinos". Nisso, não somos muito diferentes de nossos antepassados, que associavam divindades a quase todos os aspectos e fenômenos do mundo natural.
Talvez a transição do panteísmo ao monoteísmo, sobretudo no ocidente, tenha removido Deus do contato mais direto com os homens, relegando-o a uma presença etérea, distante da realidade do dia-a-dia. Mas muitos continuam atribuindo o que não entendem a "atos divinos", seguindo a receita tradicional do "deus das lacunas": a fé começa onde a ciência termina.
Talvez faça mais sentido associar esses cataclismos a uma indiferença divina. É horripilante testemunhar a crueldade -e até mesmo a estupidez- de certos homens de fé nesses momentos difíceis. Um exemplo é do pastor evangélico americano Pat Robertson, que recentemente atribuiu o terremoto a uma punição divina contra o povo haitiano, que supostamente assinara um pacto com o diabo para conseguir obter sua independência dos franceses. Nossos antepassados nas cavernas teriam concordado.
Dentro do contexto desta coluna, a tragédia provocada pelo tremor no Haiti nos ensina ao menos duas coisas. Primeiro, que a ciência tem limites, e que existe muito sobre o mundo que ainda não sabemos. Porém, não é por isso que devemos atribuir o que não sabemos explicar a atos sobrenaturais. Nossa ignorância deve abrir caminho ao conhecimento e não à superstição. Segundo, aprendemos que a vida -e aqui estamos nos incluindo- é extremamente frágil e deve ser protegida a todo custo. Nosso planeta, apesar de demonstrar fúria ocasionalmente, é nossa única morada viável. Devemos tratá-lo com o respeito que merece.
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Fonte: Folha de São Paulo - 24/01/10
Autor:  MARCELO GLEISER.

21 janeiro, 2010

O que as tropas brasileiras estão fazendo no Haiti?

O que as tropas brasileiras estão fazendo no Haiti?


Solidariedade não é antônimo de reflexão. O imperativo de ajudar os haitianos neste momento extremo não deve servir de pretexto para calar a pergunta fundamental: o que tropas brasileiras estão fazendo na nação caribenha?
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca fez segredo de que aceitou o comando da Minustah em 2004 como parte de sua estratégia para obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU. Para alcançar esse objetivo, calculava o Itamaraty, o Brasil precisava mostrar-se protagonista nos acontecimentos internacionais.
A principal falha desse projeto é que são extremamente reduzidas as chances de ocorrer uma reforma da ONU nos moldes acalentados pela diplomacia brasileira. A maioria das nações até concorda com a ideia abstrata de uma reformulação da ONU. A instituição, afinal, ainda opera sob o paradigma geopolítico que imperava após a 2ª Guerra, que deu aos cinco países vencedores do conflito (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China) poder de vetar qualquer resolução do CS.
O acordo sobre a reforma, entretanto, cessa assim que se começam a detalhar as propostas de ampliação do CS.
O Japão e a Alemanha, pelo tamanho de suas economias, seriam candidatos óbvios a assumir uma vaga permanente. Também o seriam, por seu porte e localização, o Brasil e a Índia. É compreensível, porém, que a Itália não esteja tão certa de que deva ser a Alemanha o novo representante europeu. De modo análogo, México e Argentina não veem com bons olhos a reivindicação brasileira.
No Oriente, a situação é ainda pior. É mais fácil imaginar Pequim recebendo o dalai-lama com honras de chefe de Estado do que concordando em dar um assento ao arqui-inimigo histórico Japão. E a China, vale lembrar, tem poder de veto sobre qualquer reforma. O Paquistão prefere ver a Caxemira em chamas a entregar à Índia o bônus de uma cadeira permanente.
Equacionar essas e muitas outras complicações numa fórmula aceitável para todas as nações e seus respectivos aliados com poder de veto no CS é tarefa fadada ao fracasso.
Não obstante o irrealismo do sonho itamaratiano, a busca por esse assento dourado tem sido o eixo da política externa brasileira nos últimos anos.
É em nome dessa obsessão que nossas tropas estão no Haiti. Foi para exercer o tal do protagonismo internacional que o Brasil, contrariando suas tradições diplomáticas, meteu-se em enrascadas como o apoio quase incondicional a Manuel Zelaya em Honduras.
Foi para contentar eleitores importantes na política da ONU que o país repetidamente votou no Conselho de Direitos Humanos para livrar de condenações tiranos como o sudanês Omar al Bashir e os governantes chineses e cubanos.
É possível que a presença do Brasil no Haiti seja positiva. Mas, neste caso, o governo deveria ser capaz de justificá-la com argumentos políticos que vão além de bandeiras eleitorais e sonhos megalomaníacos.

HÉLIO SCHWARTSMAN - Folha de SP - 21/01/10.

O Haiti não está só

O Haiti não está só


BAN KI-MOON

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Temos visto a enorme mobilização internacional. A nossa tarefa é canalizá-la, o que exige coordenação vigorosa e eficaz
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A CATÁSTROFE no Haiti demonstrou algo que nós sempre soubemos: mesmo na maior devastação, há esperança.
Vi isso com os meus próprios olhos nesta semana, em Porto Príncipe. A ONU sofreu a maior perda de sua história. Nossa sede na capital haitiana era um amontoado de concreto despedaçado e aço retorcido. Como poderia alguém sobreviver, pensei?
No entanto, logo depois de partir, com o coração pesado, as equipes de salvamento retiraram um sobrevivente dos escombros -vivo, após cinco dias enterrado, sem água nem alimentos. Considero isso um pequeno milagre, um sinal de esperança.
Catástrofes como a do Haiti nos lembram a fragilidade da vida, mas também reafirmam nossa força. Vimos imagens horrendas na televisão: edifícios destruídos, cadáveres nas ruas, pessoas precisando de alimentos, água e abrigo. Vi tudo isso e mais ao andar pela cidade em ruínas.
Mas também vi outra coisa -uma manifestação extraordinária do espírito humano, pessoas que estavam sofrendo duros golpes e demonstrando, mesmo assim, resistência notável.
Durante minha breve visita, falei com muitas pessoas comuns. Perto das ruínas do palácio presidencial, um grupo de jovens me contou que deseja ajudar a reconstruir o Haiti.
Depois da crise imediata, esperam ter empregos e um futuro com dignidade.
Do outro lado da rua, vi uma jovem mãe com seus filhos numa tenda, num parque público, com poucos alimentos. Havia milhares na mesma situação. Ela me disse, assim como outras pessoas, que esperava que a ajuda chegasse. "Vim trazer esperança", disse-lhe. "Não desesperem". E ela pediu que a comunidade internacional ajudasse o Haiti -pelos seus filhos, pelas gerações de amanhã.
Para pessoas que perderam tudo, a ajuda nunca chega cedo demais. E vai chegar, em quantidades cada vez maiores, apesar dos problemas logísticos numa capital em que todos os serviços deixaram de existir e que perdeu toda sua infraestrutura.
Na segunda-feira de manhã, havia mais de 40 equipes internacionais de busca e salvamento com mais de 1.700 pessoas trabalhando. O fornecimento de água está aumentando, estão chegando em grande número tendas e abrigos temporários. Hospitais que ficaram muito danificados recomeçam a funcionar com a ajuda de equipes médicas internacionais.
O Programa Mundial de Alimentos está trabalhando, em conjunto com o exército dos Estados Unidos, para distribuir rações diárias de alimentos a quase 200 mil pessoas. Eles esperam conseguir ajudar 1 milhão de pessoas dentro das próximas semanas, aumentando gradualmente esse número para 2 milhões.
Temos visto a enorme mobilização de ajuda internacional, à altura da catástrofe. Todos os países, todas as organizações internacionais de ajuda humanitária se mobilizaram para ajudar o Haiti. A nossa tarefa consiste em canalizá-la. Temos que assegurar que nosso auxílio chegue o mais depressa possível. Não podemos ter abastecimentos essenciais imobilizados em armazéns. Não temos tempo a perder nem dinheiro a desperdiçar.
Isso exige uma coordenação vigorosa e eficaz -a comunidade internacional trabalhando junta, unida, sob a direção da ONU.
Desde o primeiro dia a ONU está trabalhando com os EUA, o Brasil e uma constelação de nações e agências de ajuda internacionais para identificar as necessidades humanitárias mais urgentes e entregar o que faz mais falta. A polícia e os contingentes militares estão fazendo a sua parte para ajudar a manter a ordem em desafiador ambiente pós-terremoto.
Gostaria de agradecer ao povo e ao governo brasileiro pela ativa liderança militar na missão da ONU. Apesar de suas próprias perdas -18 militares, a dra. Zilda Arns, e o nosso colega Luiz Carlos da Costa, o chefe adjunto da missão-, vocês permaneceram fortes e comprometidos com uma vida melhor para o Haiti.
A urgência da situação irá, naturalmente, dominar nossas atividades de planejamento. Mas não é cedo demais para pensar no amanhã, um aspecto que o presidente René Préval salientou quando nos encontramos.
Embora seja um país desesperadamente pobre, o Haiti fazia progressos.
Não será suficiente reconstruir o país da forma como estava e também não há lugar para simples melhorias de fachada. Temos que ajudar o Haiti a construir algo melhor, trabalhando lado a lado com o governo para que o dinheiro e a ajuda produzam benefícios duradouros, criando empregos e libertando o país da dependência da generosidade do mundo.
Nesse sentido, a situação no Haiti nos faz lembrar nossas outras responsabilidades. Há uma década, a comunidade internacional iniciou um novo século concordando em agir para eliminar a pobreza extrema até 2015. Grandes avanços foram feitos em direção a alguns desses Objetivos do Milênio, que atacavam diversas causas fundamentais da pobreza mundial e obstáculos ao desenvolvimento. No entanto, estamos muito longe do cumprimento das nossas promessas de um futuro melhor para os pobres do mundo.
Ao nos apressarmos para prestar ajuda ao Haiti, não devemos perder de vista o panorama geral. Foi essa a mensagem muito clara que recebi das pessoas nas ruas de Porto Príncipe.
Pediram empregos, dignidade e um futuro melhor. É essa a esperança de todas as pessoas pobres do mundo, onde quer que vivam. Fazer o que é correto em relação ao Haiti, neste momento de grande necessidade, será também para a sua população uma poderosa mensagem de esperança.

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BAN KI-MOON, mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA), é o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Foi ministro das Relações Exteriores e do Comércio da República da Coreia.
Fonte: Folha de São Paulo - 21 de janeiro de 2010

20 janeiro, 2010

Os pecados do Haiti

Os pecados do Haiti


A democracia haitiana nasceu há muito pouco. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e enferma não recebeu nada, além de bofetadas. Estava ainda recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de terem colocado e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos impuseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que havia tido a louca aspiração de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as nódoas da participação norte-americana na ditadura carniceira do general Cedras, os infantes da marinha levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para retomar o governo, mas o proibiram de exercer o poder. Seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, porém mais poder que Préval tem qualquer burocrata de quarta categoria do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha sequer eleito com um voto apenas.
Mais que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum de seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, instrução aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou o contradizem ordenando-lhe: "Faça a lição!" E como o governo haitiano nunca aprende que deve desmantelar os poucos serviços públicos que ainda permanecem, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores acabam sempre por reprová-lo.

O álibi demográfico

No final do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Assim que chegaram, a miséria do povo os atingiu frontalmente. Então o embaixador da Alemanha lhes explicou, em Porto Príncipe, qual o problema: "Este é um país demasiadamente povoado" disseram. "A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode". E riu. Os deputados se calaram.
Essa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou as cifras. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, tanto quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado. Em sua passagem pelo Haiti, o deputado Wolf não foi atingido apenas pela miséria: também ficou deslumbrado pela capacidade de expressar a beleza por parte dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado… de artistas. Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falaram bem mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando alcançaram seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e revogar o artigo constitucional que proibia a venda de terras aos estrangeiros. Robert Lansing, então secretário de Estado, justificou a prolongada e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de se governar por si mesma, que possui "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia elaborado anteriormente a sagaz idéia: "Esse é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que tinham deixado os franceses".
O Haiti havia sido a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com força de trabalho escrava. No espírito das leis, Montesquieu o havia explicado sem travas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se não trabalhassem os escravos para sua produção. Esses escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão esmagado que é quase impossível ter deles alguma pena. Resulta impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma e, sobretudo, uma alma boa num corpo inteiramente negro".
Em troca, Deus havia colocado um chicote na mão do feitor. Os escravos não se distinguiam por sua vontade de trabalho. Os negros eram escravos por natureza e vadios também por natureza; e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir ao amo e o amo devia castigar o escravo que não mostrasse entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino.
Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, desocupado, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803, os negros do Haiti ocasionaram uma tremenda derrota às tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa não perdoou jamais essa humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes sua própria independência, porém conservava ainda meio milhão de escravos trabalhando nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era senhor de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos livres se içou sobre as ruínas. A terra haitiana havia sido devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França. Uma terça parte da população havia caído em combate. Então, começou o bloqueio. A nação recém-nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava dela, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem mesmo Simon Bolívar, que soube ser tão valente, teve a coragem de assinar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar poderia ter reiniciado sua luta pela independência americana, quando já havia derrotado a Espanha, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano lhe havia entregado sete navios, muitas armas e soldados, com a única condição que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que ao Libertador não lhe passava pela cabeça. Bolívar cumpriu com esse compromisso, porém depois de sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvado. E quando convocou as nações americanas para a reunião do Panamá, não convidou o Haiti, mas sim a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti depois de sessenta anos do final da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque possuem pouca distância entre o umbigo e o pênis.
Naquele instante, o Haiti já estava nas mãos de carniceiras ditaduras militares, que destinavam os famélicos recursos do país para pagar a dívida com a ex-metrópole: a Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França una indenização gigantesca, como modo de ver-se perdoado por ter cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que em nossos dias tem dimensões de tragédia, é também una história do racismo na civilização ocidental.

Autor: Eduardo Galeano - 19-Jan-2010
Traduzido por Antonio Folquito Verona

Haiti: humanitarismo e política internacional

Haiti: humanitarismo e política internacional


JOSÉ FLÁVIO SOMBRA SARAIVA

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O Haiti é o novo palco para a exibição dos interesses e das quedas de braço do sistema internacional em momento de redesenho de hierarquias
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O MUNDO se curvou aos fatos. O esforço humanitário é urgente para garantir o mínimo diante das consequências indeléveis do terremoto no Haiti. A cooperação é o lema, e todos querem fazer parte dos difíceis trabalhos de salvamento e proteção de desamparados pela imperiosa natureza e pela imprudência dos homens.
A tragédia haitiana, porém, se faz dentro da reedição das duras disputas da política internacional do momento. Depois de Copenhague, onde pesou o arranjo sino-americano, o Haiti é o novo palco para a exibição dos interesses e das quedas de braço do sistema internacional em momento de redesenho de hierarquias.
As grandes potências que minguaram recursos e esforços diplomáticos para o alívio da pobreza no Haiti e em países miseráveis que o mundo ainda abriga são as mesmas que agora coordenam a operação de aplainar os cemitérios do país caribenho. Silenciou-se repentinamente o discurso monocórdio do combate irracional e linear ao chamado "terrorismo internacional", conceito ainda não bem definido, de Bush a Obama.
Tudo agora é humanitarismo nas lágrimas de crocodilo dos líderes cínicos. Apenas agora, já tarde, ouvem-se discursos de desdobrada atenção ao drama do Haiti. Atores e músicos famosos fazem o cordão de proteção ao humanitarismo renovado do Norte.
Não faltarão festivais em estádios e correntes de solidariedade romântica aos pobres haitianos.
Politiza-se a ajuda internacional, como no caso do clima, dos direitos humanos e de outros temas da agenda renovada das relações internacionais, quando o que importa é o esforço de salvar vidas.
Os chineses foram os primeiros a chegar à ilha caribenha. Inflacionaram o aeroporto combalido da capital do país e deixaram apenas espaço modesto para as aeronaves dos Estados Unidos, da Europa, do Canadá e do Brasil.
Os EUA correram atrás dos chineses, já vez que o Caribe é área de hegemonia natural e concêntrica dos ianques. Apresentaram-se como os únicos capazes de salvar os flagelados.
Acompanhar a cobertura internacional das agências britânicas, francesas e alemãs na Europa desses dias é hilário. O Haiti preencheu o noticiário monótono do frio polar e da neve.
É como se no Haiti não houvesse passado, apenas terra arrasada, em descoberta tardia das responsabilidades internacionais antes não reconhecidas. O silêncio das grandes potências em relação aos projetos brasileiros, apresentados anos atrás, de construção de infraestrutura e autonomia energética no Haiti é gritante.
O Brasil -em seu esforço de governo, da sociedade organizada e suas ONGs, mas em especial dos sacrifícios pessoais dos militares brasileiros, em missão convertida e gerenciada pela ONU no Haiti- vem sendo apenas discretamente reconhecido.
Obama agora quer oferecer os famosos 100 milhões de dólares que o Brasil já havia solicitado para obras de infraestrutura no país.
Aqui na Europa nada se sabe acerca da obra de Zilda Arns no Haiti nem que ministro brasileiro foi a primeira autoridade internacional a pisar o solo tremente da ilha. A lógica é mostrar Obama, Sarkozy e outros líderes do Primeiro Mundo isolados, a domesticar a opinião pública e os interesses eleitorais. Espero que o Brasil não faça o mesmo.
A coordenação dos esforços de construção do Haiti deve ser multinacional, a recordar que o esforço humanitário é só uma etapa para o longo prazo, de fortalecimento das instituições e da cidadania, ao lado da reconstrução social e econômica do país.
Passada a comoção do momento, vale acompanhar o dia seguinte. O esquecimento é em geral o que se espera. Pois que se tome uma lição do Haiti para a política internacional: o pêndulo está excessivamente angulado no realismo global e nos egoísmos nacionais. É hora de movê-lo para a dimensão humana das relações internacionais, que prescinde do humanitarismo, para ser apenas humana a face desejável dos sonhos de um mundo melhor.

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JOSÉ FLÁVIO SOMBRA SARAIVA, 49, doutor em história pela Universidade de Birmingham (Inglaterra), é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e pesquisador 1 do CNPq. É autor, entre outras obras, de "Relações Internacionais - Dois Séculos de História".

O Brasil deve defender a democracia no Haiti

O Brasil deve defender a democracia no Haiti


MARK WEISBROT

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Os EUA, ao lado de Canadá e a França, conspiraram abertamente durante quatro anos para derrubar o governo eleito do Haiti
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MUITO TEMPO antes do terremoto, a situação do Haiti já era comparável à de muitos sem-teto nas ruas de grandes cidades dos EUA: pobres demais e negros demais para ter os mesmos direitos concretos que outros cidadãos.
Em 2002, quando um golpe militar que teve o apoio dos EUA afastou temporariamente o governo eleito da Venezuela, a maioria dos governos no hemisfério reagiu rapidamente e ajudou a forçar o retorno do governo democrático. Mas, dois anos mais tarde, quando o presidente haitiano democraticamente eleito, Jean-Bertrand Aristide, foi sequestrado pelos Estados Unidos e levado de avião para o exílio na África, a reação foi fraca.
Diferentemente dos dois séculos de saque e pilhagem do Haiti desde sua fundação graças a uma revolta de escravos em 1804, da ocupação brutal por fuzileiros navais dos EUA entre 1915 e 1934 e das incontáveis atrocidades cometidas sob ditaduras auxiliadas e apoiadas por Washington, o golpe de 2004 não pode ser relegado ao esquecimento, visto como nada mais que "história antiga". Aconteceu há apenas seis anos e é diretamente relacionado ao esforço de ajuda e reconstrução que o presidente Obama está propondo agora.
Os Estados Unidos, ao lado de Canadá e a França, conspiraram abertamente durante quatro anos para derrubar o governo eleito do Haiti, cortando quase toda a ajuda internacional ao país com o objetivo de destruir sua economia e torná-lo ingovernável. Eles conseguiram.
Para aqueles que se indagam por que não existem instituições governamentais haitianas para ajudar com os esforços de socorro e ajuda às vítimas do terremoto, essa é uma das grandes razões. Ou o porquê de haver 3 milhões de pessoas amontoadas na área atingida pelo terremoto.
A política dos EUA ao longo dos anos também ajudou a destruir a agricultura haitiana, por exemplo, ao forçar a importação de arroz americano subsidiado e eliminar milhares de plantadores de arroz haitianos.
O primeiro governo democrático de Aristide foi derrubado após apenas sete meses, em 1991, por oficiais militares e esquadrões da morte que, mais tarde, se descobriu estarem a soldo da Agência Central de Inteligência dos EUA. Agora Aristide quer retornar a seu país, algo que a maioria dos haitianos reivindica desde sua derrubada.
Mas os EUA não o querem ali. E o governo Preval, que é completamente dependente de Washington, decidiu que o partido de Aristide -o maior do Haiti- não será autorizado a concorrer nas próximas eleições (previstas originalmente para fevereiro).
O medo que Washington tem da democracia no Haiti talvez explique o porquê de os Estados Unidos agora estarem enviando 10 mil soldados e priorizando a "segurança", em lugar das necessidades de vida ou morte dos milhares de pessoas que precisam de atendimento médico urgente.
Na manhã de domingo, o mundialmente renomado grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras queixou-se que um avião transportando sua unidade hospitalar móvel foi obrigado pelos militares americanos a mudar de rota, passando primeiramente pela República Dominicana. Isso custaria 24 horas cruciais e um número desconhecido de vidas.
Essa ocupação militar por tropas dos EUA vai suscitar outras preocupações no hemisfério, dependendo de quanto tempo elas permanecerem -assim modo como a ampliação recente da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia vem sendo recebida com insatisfação e desconfiança consideráveis.
Organizações não governamentais vêm levantando outras questões sobre a reconstrução proposta: compreensivelmente, querem que a dívida remanescente do Haiti seja cancelada e que sejam feitas doações ao país, e não empréstimos (o FMI propôs um empréstimo de US$ 100 milhões). As necessidades da reconstrução chegarão a bilhões de dólares.
Será que Washington vai incentivar o estabelecimento de um governo que funcione? Ou vai impedi-lo, canalizando a assistência por meio de ONGs e assumindo ele próprio várias outras funções, devido a sua oposição de longa data à autonomia do Haiti?
O Brasil não segue a linha de Washington na América do Sul nem, mais recentemente, o fez em Honduras, "quintal" dos Estados Unidos -onde o governo brasileiro defendeu em vão a restauração da democracia após o golpe de 28 de junho, e a administração Obama, não.
Por que não defender a democracia também para o Haiti, mesmo que Washington seja contra?

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MARK WEISBROT, doutor em economia pela Universidade de Michigan, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington ( www.cepr.net ). Tradução de Clara Allain .

18 janeiro, 2010

Haiti

As entrevistas a seguir foram extraídas do Jornal Folha de São Paulo, edição de 18 de janeiro de 2010.

"Governo haitiano é predador"


SAMY ADGHIRNI
DA REPORTAGEM LOCAL

A classe governante do Haiti ignora a população e vive só para extrair dinheiro do país, disse à Folha por telefone o jornalista e escritor americano Mark Danner, especialista em questões haitianas.

FOLHA - Por que o presidente René Préval até agora não discursou à nação nem visitou campos de desabrigados?

MARK DANNER - Os governos haitianos nunca foram norteados pelo desenvolvimento nacional. Eles funcionam apenas como mecanismos de extração pelos quais a elite suga dinheiro do país. A classe governante é predadora.

FOLHA - Como assim?

DANNER - Quando era uma rica colônia, o Haiti funcionava com base em grandes latifúndios onde trabalhavam os escravos. Não é por acaso que a distribuição de terra foi um dos pilares da revolução [1804]. Após a independência, o Haiti se tornou uma nação de pequenos plantios e, com isso, a riqueza fugiu do alcance das elites governantes. Para compensar a perda, essas elites passaram a cobrar impostos altíssimos da classe agrícola. O Estado acabou virando a maior fonte de riqueza do Haiti, o que explica em grande parte a instabilidade. Os governos desde então só querem saber de extrair dinheiro do país. E depois que os solos se esgotaram e que o produção agrícola desmoronou, a fonte dessa extração migrou de vez da agricultura para a ajuda externa. Os americanos dizem ter mecanismos para garantir que o dinheiro chegue à população, mas o governo é sustentado pela ajuda internacional. E mesmo quando algum auxílio chega à população, o governo sai ganhando, pois fica isento de certos gastos.

FOLHA - Isso é reversível?

DANNER - Os americanos dirão que, para revitalizar o Haiti, será preciso ir além da simples reconstrução física do país. Não duvido que haverá esforços nessa direção, mas há sinais de que alguns erros do passado continuarão.
Ouvi no rádio, depois do terremoto, um funcionário do governo americano dizendo que uma boa maneira de fornecer ajuda sustentável ao Haiti é dar trigo para os moinhos que o país tem. A ideia seria, segundo o funcionário, incentivar os haitianos a participar do processo.
O problema é que esses moinhos foram construídos na época [do ditador François] Duvalier [1957-1971] com a ideia de aproveitar as sementes de trigo doadas pelos EUA. Mas quem saía beneficiado eram os americanos, que conseguiam escoar o excesso de produção. E Duvalier roubava sementes de todos os moinhos. Além disso, a importação de sementes contribuiu para destruir as plantações de arroz. O Haiti não precisa de pão, precisa de arroz.
Parece que Washington não tem noção do que aconteceu. Americanos têm qualidades, mas a memória não faz parte delas.

"Não basta dar apenas ajuda aos haitianos"


DE WASHINGTON

A opinião polêmica é do escritor americano Tracy Kidder, 64, ganhador prêmio Pulitzer por "The Soul of a New Machine" (A Alma de Uma Nova Máquina, 1981). (SÉRGIO DÁVILA)

FOLHA - O terremoto não é culpa de ninguém, mas qual a contribuição histórica dos EUA para que o desastre encontrasse o país no estado calamitoso que encontrou?

TRACY KIDDER - O Haiti tem sido uma colônia virtual dos EUA, e se você olha o resultado disso, nós não fizemos um bom trabalho, fizemos? A política dos EUA em relação ao Haiti tem sido em geral ruim.
É verdade que vinha melhorando e houve momentos em que não foi tão má, por exemplo na gestão de Bill Clinton (1993-2001).

FOLHA - Como avalia as ações do governo Obama em relação ao desastre até agora?

KIDDER - É muito difícil dizer no calor do momento, com tudo ainda tão caótico e tenso, mas eu sei que um esforço grande de resgate e recuperação foi iniciado, não só pelos EUA, mas por Japão, China, Venezuela, entre outros.
Agora, para que a ajuda seja efetiva, ela tem de envolver os locais, o governo local. Esse modelo tem sido ignorado pelos ocidentais. Parece complicado, mas pode ser feito. As pessoas não têm de esperar por ordens de Washington. Esse modelo pode reverter séculos de degradação do povo haitiano, que começou como colônia escrava e, após se libertar, foi punido e se tornou pária.

FOLHA - O sr. tem criticado as mais de 10 mil organizações humanitárias que atuam no Haiti. Por quê?

KIDDER - Obviamente, é um número enorme de organizações e há várias coisas erradas com elas. Algumas são boas, não quero condenar todas. Mas não estão tentando usar os locais, trabalhar com o governo local -pelo contrário. A desculpa mais comum é que o governo é muito fraco ou corrupto. Mas é uma razão a mais para trabalhar com ele, de maneira a fortalecê-lo.
Nesse número enorme de organizações, algumas são muito pequenas, outras são fachadas para lavagem de dinheiro e algumas servem apenas a si mesmas. Mais do que isso, no entanto, é que coletivamente elas tomam boa parte do papel do governo. Mas o que oferecem no lugar é o pior tipo de governo que se pode imaginar, com operações completamente descoordenadas.
Não é que eu ache que o Haiti não mereça e não precise de uma grande dose de ajuda internacional. Mas tem de ser da maneira certa, e as evidências apontam claramente que isso não acontece. Uma grande quantidade de dinheiro foi desperdiçada lá e não melhorou a vida da vasta maioria.

FOLHA - O sr. vê o fantasma do Katrina influenciando a reação do governo Obama?

KIDDER - Não sei, mas espero que sim, que o governo tenha aprendido algo com o Katrina. Aquela foi a mais ineficiente e ridícula resposta imaginável.

"Arrecadação humanitária virou negócio"


LUCIANA COELHO
DE GENEBRA

A arrecadação humanitária virou um negócio em que os doadores competem por espaço na mídia, diz o especialista em assistência humanitária e desenvolvimento Paolo de Renzio, pesquisador de governança econômica global no Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford.

FOLHA - Como é o funil que converte fundos em ações?

PAOLO RENZIO - O problema é que há vários funis: a ONU e suas agências, os governos dos países, as ONGs, cada um agindo separadamente. A arrecadação humanitária virou um "business", um negócio em que cada um quer se mostrar em ação.

FOLHA - Uma vitrine?

RENZIO - Exato. Como há muita atenção da mídia em curto período, todos querem aparecer doando.

FOLHA - O que muda na arrecadação após um grande desastre em relação à ajuda para o desenvolvimento?

RENZIO - Publicidade, urgência, retorno imediato. Um problema pode ser o cansaço da opinião publica em relação aos desastres. Outro é que, quando o mídia vai embora, todo o mundo esquece. O terceiro problema é a fragmentação e a falta de coordenação na arrecadação e a escassa transparência e prestação de contas.

FOLHA - E o planejamento?

RENZIO - Há necessidade de resposta imediata e há questões de coordenação. É preciso preparação prévia. A pressão em gastar os fundos com rapidez pode levar a ineficiências. Há doadores que fixam prazos de seis meses. Avaliar a eficácia das ações também muda, com indicadores de curto prazo no caso de desastres e de médio-longo prazo para ajuda ao desenvolvimento. Seria importante ligar os dois.

FOLHA - Há estimativa de quanto da arrecadação se converte em ajuda a flagelados?

RENZIO - Difícil. Tenho visto números que variam de 5% a 50% dos fundos.

FOLHA - Qual o maior obstáculo ao bom uso dos fundos?

RENZIO - Falta de coordenação; falta de consideração da ligação com a fase de reconstrução; uso exclusivo de materiais importados. Por exemplo, não se pode fazer abrigos temporários e se esquecer que será preciso reconstruir as moradias quando o foco da mídia mudar e as doações sumirem.

FOLHA - No Haiti, onde a governança é quase nula, qual o caminho para aplicar a verba?

RENZIO - O Haiti é um caso especial, pois já considerava a infraestrutura do governo fraca e ela foi destruída, o epicentro foi na capital. É diferente do que houve na Indonésia ou no Peru. Por isso, canais paralelos são obrigatórios. O problema é coordenar.

FOLHA - A ONU diz que a arrecadação é transparente. Mas não monitora a aplicação.

RENZIO - Isso é um problema mais geral do sistema da ajuda internacional. Sabe-se quanto se quer gastar, menos sobre o que foi gasto e quase nada sobre como foi gasto.

Terremoto pode ser uma oportunidade

Para cientista político haitiano, auxílio deveria ser dirigido a criar e fortalecer as instituições nacionais, e não ONGs que atuam no país

A DESTRUIÇÃO provocada pelo terremoto pode ser transformada em oportunidade para um novo "contrato social" entre os haitianos e para a mudança das políticas prescritas ao Haiti pelos doadores internacionais e organismos multilaterais, afirma Robert Fatton Jr.

Na avaliação do cientista político haitiano radicado nos EUA, essas políticas reforçaram a debilidade das instituições nacionais e contribuíram para o declínio da agricultura local, obrigada a concorrer com importações subsidiadas em seus países de origem.

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

Robert Fatton Jr. é professor da Universidade da Virgínia e autor de "A República Predatória do Haiti: a Transição sem Fim para a Democracia" (sem tradução no Brasil), entre outros textos sobre o país onde nasceu e viveu até o final da adolescência, quando deixou Porto Príncipe para estudar na França, a antiga metrópole colonial, e depois nos EUA. Escreveu ainda quatro livros sobre política africana, entre eles "Consciência Negra na África do Sul" (1986) e "Revolução Passiva no Senegal" (1987). Quando conversava com a Folha, o professor foi interrompido pela ligação de um sobrinho que mora em Miami. "Nos falamos há três horas, mas ele queria saber se há mais notícias. A comunicação está difícil." Por mensagens curtas de celular ou e-mail, Fatton Jr.soube que sua família, que vive em Pétionville, subúrbio nobre da capital haitiana, havia sobrevivido. "Tiveram sorte. Mas há amigos que não sei se estão vivos ou mortos."

FOLHA - Como avalia a situação do Haiti antes do terremoto e o que pode mudar agora?

ROBERT FATTON JR. - A situação política havia se estabilizado, a violência havia diminuído, mas a situação como um todo ainda era muito precária. Eleições estavam programadas para este ano [legislativas em fevereiro e presidencial em novembro], mas não imagino que possam ser realizadas. O terremoto pode ser um desastre completo ou uma oportunidade para mudar algo. O fato de que todos os haitianos estão diante da catástrofe pode levar a um contrato social diferente, numa sociedade muito dividida. Do seu lado, a comunidade internacional precisa mudar algumas políticas, que em última instância limitaram a capacidade do Estado haitiano. Hoje, nas operações de socorro, você pode ver que não há instituições nacionais, só ONGs. Espero também que a ajuda internacional dê mais ênfase à área rural. Embora ela não tenha sido tão afetada pelo tremor, 60% da população ainda vive lá. O fato de quase 3 milhões de pessoas se aglomerarem em Porto Príncipe em condições terríveis é consequência de não haver política agrícola.

FOLHA - Uma das críticas à política dos EUA para o Haiti é a de que, quando Jean-Bertrand Aristide foi reconduzido à Presidência com apoio militar americano (1994), uma das condições foi que ele implantasse uma política econômica liberalizante. Isso teria dizimado a agricultura. É uma crítica correta?

FATTON - Isso é absolutamente verdade. Mesmo antes da volta de Aristide, os militares começaram a abrir a economia, em particular para o arroz americano. Esse arroz, que é subsidiado, era vendido muito mais barato do que a produção local, que entrou em declínio. Quando Aristide voltou, ele assinou um acordo com o FMI e o Banco Mundial consolidando o projeto neoliberal. A abertura teve um impacto devastador na produção de comida e nas pequenas indústrias que produziam para o mercado interno. A estratégia continua sendo a mesma, voltada para a criação de núcleos urbanos de confecção de produtos baratos para exportação aos EUA, principalmente têxteis.

FOLHA - Como as maquiladoras mexicanas?

FATTON - É o modelo. Na minha visão, não funciona. Já foi tentado sob [o ditador] Jean-Claude Duvalier [1971-1985] e levou a uma catástrofe. Não é que o Haiti não tenha que ter uma base exportadora, mas ela não deve ser o motor do desenvolvimento do país. Se esse rumo for mantido, haverá pequenos encraves, com trabalhadores mal pagos, e o campo continuará negligenciado.

FOLHA - O Haiti é dependente de ajuda internacional. Por que esse dinheiro não produziu resultados na redução da pobreza, por exemplo?

FATTON - Se você olhar os últimos 15, 20 anos, muito dinheiro foi enviado ao Haiti, mas boa parte dele ligado a companhias americanas. Há um círculo vicioso, porque o dinheiro volta para os EUA. Em meados dos anos 90, os EUA davam anualmente US$ 3 bilhões ao Haiti, mas uma parte significativa ia para os soldados americanos que estavam lá, para os assessores americanos e para a compra de produtos americanos. As doações também evitavam o Estado e eram dadas a instituições não governamentais, porque a premissa era a de que o governo era corrupto e ineficaz. O problema é que ONGs em geral têm base local, e suas atividades não são filtradas através de um programa nacional abrangente. E, apesar de haver ONGs que prestam ótimos serviços a pessoas pobres, há outras que são igualmente corruptas. E não se sabe o quanto do que recebem vai de fato para ajuda ao desenvolvimento.

FOLHA - A debilidade do Estado é fenômeno recente no Haiti ou sempre foi assim?

FATTON - A ideia de um Estado fraco é complicada. Sob os Duvalier [1957-1985] havia um Estado incompetente e corrupto, mas forte na repressão. Após a queda da ditadura, houve uma série de crises, com eleições fracassadas e golpes, que minaram o Estado por dentro. Essa tendência se agravou sob a orientação dos principais doadores, que viam o Estado como um problema. Agora, se a comunidade internacional tem intenções sérias de reconstruir o país, deve contribuir para a implantação de um serviço público efetivo. Do contrário, haverá alívio, mas não desenvolvimento.

FOLHA - Como avalia o trabalho da Minustah, a força de paz da ONU?

FATTON - Se não fosse pela Minustah, o país estaria sob caos ainda maior. Goste-se ou não, ela é elemento essencial da situação atual. Foi criticada às vezes por ser muito violenta, outras vezes por não ser violenta o suficiente. Não é surpreendente que os haitianos tenham uma relação de amor e ódio com a Minustah. Não gostamos de tropas estrangeiras em nosso solo, mas sabemos que não podemos ficar sem ela. O ponto-chave é como fazer a transição da Minustah para uma força local.

FOLHA - Países como o Brasil, com posição de comando na Minustah, podem influenciar políticas de instituições multilaterais para o Haiti?

FATTON - Tenho a esperança de que possam mover os EUA para uma orientação diferente da política econômica prescrita para o Haiti. Se têm o poder para fazer isso, é outra questão. A Minustah é em grande parte um assunto latino-americano, com o Brasil no centro. Os EUA gostam disso, porque não precisavam mandar seus próprios soldados. Isso dá peso ao Brasil. Mas, pelo discurso de [Barack] Obama [na última quinta-feira], haverá de novo um enorme envolvimento americano no Haiti.

FOLHA - O senhor disse que o terremoto poderia produzir um novo contrato social no Haiti. Por quê?

FATTON - O terremoto afetou a todos, pobres e ricos. Claro que muitos dos ricos têm mais condições de reagir à catástrofe, mas há outros que perderam tudo. Acho que isso pode forçar a minoria rica a ver a situação do país com olhos diferentes, com mais simpatia pelos haitianos comuns. Claro, a experiência histórica não recomenda otimismo, mas a catástrofe é tão grande que talvez possa mudar percepções e a maneira como as pessoas se tratam.

FOLHA - A clivagem entre pobres e ricos é a principal na sociedade haitiana?

FATTON - Certamente, é a chave. Estamos falando de 5% a 10% da população com algum recurso, 5% que vão muito bem e 70%, 80% que não têm nada. Temos divisões de cor, mas elas são menores se comparadas à clivagem entre pobres e ricos.

FOLHA - Mas os ricos ainda controlam o sistema político?

FATTON - Agora não há mais sistema político, não há governo. A comunidade internacional está no comando, o aeroporto está sob controle dos americanos. Antes do terremoto, apesar de o governo ter algumas tendências populistas, a situação estava claramente nas mãos da minoria rica.

FOLHA - Grupos ligados a Aristide haviam sido excluídos das eleições deste ano. Como vê isso?

FATTON - Acho que o presidente [René] Préval conseguiu dividir o Lavalas [movimento de Aristide] de tal forma que ele não pode mais mobilizar grandes segmentos da população. Aristide continua sendo popular, mas o movimento foi dizimado. Ao mesmo tempo, é improvável que as principais potências, EUA e França, aceitem a volta de Aristide.

FOLHA - E isso o senhor considera positivo ou negativo?

FATTON - Difícil dizer. Aristide é uma figura muito carismática, mas ao mesmo tempo há hoje uma forte oposição a ele, que não vem só da elite, mas de setores que costumavam apoiá-lo. Seu poder diminuiu. Por outro lado, o terremoto pode dar a ele uma chance de se reafirmar, o que vai depender do resultado da operação de socorro e do que virá depois dela. Se a operação for mal administrada, pode haver uma reemergência do Lavalas, se não necessariamente da figura de Aristide.

FOLHA - Se Préval foi tão hábil em dividir o Lavalas, por que seu governo é instável, já no terceiro premiê?

FATTON - O governo se tornou instável depois dos distúrbios contra o aumento do preço dos alimentos [em março de 2008]. Foi um momento de crise. Mas não acho que você deva olhar para as trocas de primeiro-ministro como sintoma de instabilidade. Elas geralmente significam apenas transferir pessoas para novos cargos, mas não mudam a estrutura.